O FILÓSOFO INCULTO – 02/2026
1.
Aquele ano estava sendo muito difícil pra mim. Todos os dias
eu pensava em tirar minha vida, e a questão da bebida estava indo de mal a
pior. Quando não bebia, estava dormindo, quando estava acordado, com certeza
estava bebendo. Eu pouco saia com os meus amigos, eles lentamente estavam
percebendo o traste que eu havia me tornado e fatalmente eu não seria mais bem
vindo em encontro nenhum deles. Num chá de bebê de um amigo meu, eu fiquei
embriagado o suficiente para ser expulso aos chutes do evento. Eu não era
assim. Eu estava pior. Mal sabia que iria piorar muito mais.
Entre rolagens de feed do Facebook, apareceu uma página
sugerida pelo algoritmo, era uma página chamada “O Filósofo Inculto”, e devia
ter no máximo uns quinhentos seguidores. Cliquei sem maiores pretensões e
haviam dezenas, senão centenas de postagens, basicamente textos curtos de no
máximo três linhas, onde ele atacava alguma minoria, falava que estava bêbado
ou drogado ou simplesmente desabafava de forma extremamente direta. Aquilo me
atraiu imediatamente e eu comecei a seguir a página.
Claro que, devido à bebida e não só devido a ela (eu curtia
ser inconveniente, bêbado ou não), eu comecei a comentar praticamente todas as
postagens, tão ou mais desbocadamente do que o tal filósofo. Geralmente a gente
se xingava em todas as postagens. Eu adorava isso, de uma certa forma trouxe um
pouco de diversão pra minha vida, que não tinha nada além de álcool e
pensamentos suicidas. Não estava trabalhando e as mulheres tinham ido embora, a
literatura estava cada vez pior, com textos sem sentido e sem continuidade, e
eu precisava de passatempos mais interessantes do que pornografia e emulador de
Super Nintendo no meu computador Celeron. Essa troca com essa página garantia
isso para minha vida.
Após um tempo assim, ele anunciou que faria um grupo secreto
com alguns seguidores da página. Seria um grupo onde poderíamos trocar
experiências sem nenhum tipo de pudor, somente nós teríamos acesso ao que
colocássemos lá. Obviamente entrei. Nos primeiros dias, preferi mais observar,
e a maioria das postagens eram de pessoas bebendo, outros postavam alguns
textos (ruins, na minha humilde opinião) que claramente seriam maus vistos se
fossem lidos em algum recital de um colégio infantil. Outros ainda, tentavam
fazer amizades virtuais. Minha primeira postagem foi um coração feito com
cocaína em cima da capa de um CD do Metallica (Black Album). Imediatamente
começaram os comentários, um deles não esqueço até hoje. Foi um rapaz
recomendando que eu escutasse uma música do Grateful Dead, chamada Casey Jones.
A primeira estrofe da música era assim:
Driving that train, high on cocaine
Casey Jones, is better watch your speed
Trouble ahead, trouble behind
And you know that notion just crossed my mind
Achei uma puta de uma banda e uma puta de uma música, tanto
que essa primeira parte eu acabo sempre lembrando, e sempre quando toca até
hoje eu paro o que estou fazendo pra cantar. Acabei fazendo amizade com esse
sujeito e saímos algumas vezes, mas isso dá outra história que quem sabe, um
dia conto.
Depois fiz uma postagem com uma foto do meu pau mijando pela
janela do meu quarto. Eu morava num sobrado e tinha preguiça de sair do quarto
para mijar, então sempre fazia isso. Essa postagem deu bastante repercussão,
alguns zuaram o tamanho, outros acharam foda a atitude, outros ainda me
mandaram mensagem no privado para me conhecer melhor. Foi bem legal. Francamente
a parte mais divertida para mim não foi a foto e sim a legenda, que de forma
absurda relata de maneira simples uma coisa tão má vista como uma foto de um
pau. Escrevi apenas: “Eu mijando”, pois era basicamente isso.
Um belo dia, o filósofo inculto postou na página dizendo que
iria organizar um encontro com os membros interessados do grupo, esse encontro
seria no vão do MASP em São Paulo, na sexta feira às 18h. Eu respondi que iria
se ele levasse a cocaína, ele disse que eu tinha que levar a minha que ele
levaria somente a dele, e trocamos mais alguns xingamentos. Fora nós, ninguém
mais se pronunciou.
Chegado o dia, coloquei uma camiseta do Pink Floyd, um jeans
velho, uma bota e fui. Levei só uma garrafa de vodka barata.
2.
Cheguei no local por volta das 18h, estava lá somente um
rapaz. Era um rapaz muito magro, tinha um cabelo liso e grande, óculos escuros,
dedos sujos com nicotina de cigarro, calça jeans rasgada, all star no pé e uma
jaqueta de couro que parecia ter pelo menos uns dez anos de vida. Para efeito
de comparação, parecia algum dos Ramones, só que sem a grife e nem o sucesso.
Me apresentei e ele também.
- Meu nome é Carlos.
- E aí Carlos, meu nome é Camilo.
- Fala a verdade, você é o filósofo inculto.
- Sou porra nenhuma, eu vi a postagem dele e vim. Não sei
quem é esse desgraçado.
Ofereci um gole da garrafa para Camilo e ficamos bebendo.
Dentro dos trinta minutos seguintes, chegaram mais pessoas, somente mulheres.
Clarinha e Camila, que eram meninas de dezessete anos, e enquanto a primeira
tinha uma feição mais durona, a segunda tinha um rosto angelical, cabelos
loiros enrolados e olhos verdes. Eliana, que já era mais velha e tinha uma cara
mais surrada, com algumas espinhas. Usava um chapéu que parecia uma pequena
cartola. Todas elas dizendo que queriam conhecer o filósofo inculto. Nessa hora
eu tive certeza que Camilo era o filósofo, pois pelo teor das suas postagens,
não fazia sentido que fosse uma mulher. Boa parte das postagens tinham cunhos
bem machistas, de alguém que realmente estava frustrado com as mulheres. Além
disso, eu vi o quanto ele bebia, rivalizando comigo, uma vez que eu achava que
era o cara que mais bebia no mundo, ali eu tive a certeza que eu ainda era um iniciante.
Fomos todos ao mercado comprar algumas garrafas. A primeira
garrafa de vodka, que eu havia levado, já estava no final. Terminamos e comprei
mais uma pra mim. Todos os demais compraram bebidas, cada um na sua vibe, tendo
vinho e cerveja também.
Voltamos ao vão do MASP e ficamos conversando trivialidades.
Eu contei a todos o que estava passando, e todos disseram que não viam problema
que eu bebesse muito, e que manteriam uma amizade comigo mesmo assim. Por mais
que eu tivesse bem interessado em pegar uma das meninas, principalmente Camila,
eu percebi que não ia rolar. Fiz algumas investidas e ela ignorou todas,
inclusive recuando de uma que foi mais direta. Desisti.
Conversei bastante com Camilo, que dizia morar sozinho e
viver com um salário praticamente mínimo. Me disse que frequentemente passava
fome, mas que sua vizinha, uma senhora com cerca de setenta anos, quando via
que ele não estava bem, fazia comida e levava na porta da casa dele uma
marmita. Era uma casa de fundos composta de um cômodo e um banheiro. Camilo
tinha uma história de vida bem fudida, gostei. Eu sempre me atraio pelas
pessoas com as piores histórias possíveis. As pessoas que têm boa vida e recebem
tudo na mão, pouco me interessam. Viagens para a Europa, faculdades de
medicina, bons empregos, carros do ano, casas na praia, carnaval em Juquehy,
fim de ano em Nova York. Que porra de vida. Me atrai o sofrimento, a loucura, a
desgraça, a degeneração. A total falta de sanidade. O olhar pro abismo e a
devolução do olhar que esse mesmo abismo dá. O passar de fome, o matar um ou
dez leões por dia. A luta para sobreviver com o mínimo de dignidade: quatro
paredes ao redor e um teto sobre a cabeça.
Camila e Eliana foram embora cedo, por volta das 21h.
Ficamos eu, Camilo e Clarinha. Clarinha bebia com muita força pra alguém do
tamanho (ela era baixinha) e da idade dela. E pouco se percebia sinais de
embriaguez, ela tinha bastante resistência. Me disse que bebia desde os dez
anos de idade, e que isso a “amadureceu” nesse quesito.
- Galera, agora que estamos só a gente, vamos buscar um pó?
– eu perguntei.
- Claro – disse Camilo – mas estou sem grana.
- Eu tenho cinquenta reais – disse Clarinha.
- Ótimo, eu tenho mais cinquenta – eu disse.
- Isso dá pelo menos umas cinco gramas aqui – Camilo
completou.
- Então vamos logo, estou com o nariz coçando já – encerrei
o assunto.
Descemos a Augusta sentido centro, cada um com uma garrafa
na mão, bebendo e mexendo com os estranhos que passavam. Num dado momento, eu
encontrei duas moças abraçadas e também bebendo, uma delas usava uma camiseta
do Pink Floyd igual a minha. Imediatamente eu apontei e disse:
- Caralho! Bela camisa!
- Bela camisa, meu amigo! – a moça com a camiseta disse.
Começamos a conversar sobre a banda e o papo fluiu muito
bem.
- Onde vocês estão indo? – uma delas perguntou.
- Buscar cocaína, e vocês? – Camilo respondeu.
Ambas riram e disseram que estavam indo embora.
- Legal, precisamos ir também. – Eu disse – que tal um beijo
de despedida?
Elas toparam, eu beijei uma e Camilo beijou a outra.
Clarinha ficou só observando.
Seguimos na nossa descida, cheguei na loja e, pra variar,
muita fila. Se tem um lugar que nunca tem crise, esse lugar é biqueira. Sexta a
noite, o trabalhador fudido querendo se divertir, ele não pensa em economizar
não. Quer ficar doidão e vai ficar doidão. Vai dar um jeito. Eu acreditava
naquele momento que aquela era a única forma de suportar a vida. A vida, esse
processo obrigatório cheio de espinhos que muitas vezes não conseguimos
desviar. O tal do “contrato social”, que você assina obrigatoriamente a partir
do momento que é parido do ventre da sua mãe. Tinha de tudo: homem, mulher,
jovem, velho, bonito, feio, gay, hétero, travesti, roqueiro, pagodeiro. Droga é
democracia, chega em todo mundo e une todos com um só propósito: ficar doidão.
Depois de quase cinco minutos de fila, chegou minha vez.
Camilo e Clarinha ficaram esperando longe. Eu geralmente ia buscar droga com
meus amigos, só tive medo na primeira vez, depois disso, sempre achei a coisa
mais simples do mundo. É igual ir na padaria comprar pão. A única atenção é ter
total respeito pelo vendedor. A gente nunca sabe o que tá passando na cabeça do
cara. Peguei a droga e guardei no bolso. Eram cinco papelotes, cada um com uma
grama.
Voltei ao encontro de Clarinha e Camilo. Dei uma grama pra
cada e guardei três.
- Hey seu puto, divide essa droga aí. – Camilo disse.
- Já está dividida, eu comprei, eu divido – respondi,
grosseirão, mas depois relaxei e disse calmamente – cara, relaxa, quando acabar
o de vocês, só me pedir mais.
Subimos de volta a Augusta sentido Av. Paulista, e nessa
altura nossas garrafas estavam ficando vazias. Passamos novamente no mercado e
compramos mais. Eu, como sempre, vodka. Assim como Camilo. Clarinha comprou uma
garrafa de conhaque.
Ficamos por lá bebendo, fumando cigarros e cheirando
cocaína. Conversando com todos que passavam e davam atenção. Tiramos algumas
fotos que dizemos que iriamos publicar no grupo no dia seguinte, inclusive
cheirando cocaína na mão. Foi uma noite intensa.
Por volta das 4h40 da manhã, Clarinha disse que ia embora.
Nos despedimos e ela foi. Eu também disse que ia embora, tinha só mais uma
grama de pó e a garrafa estava no final. Nisso Camilo começou a chorar. Eu
fiquei sem entender porra nenhuma, mas hoje eu entendo. Quando a gente tá nesse
estado, as emoções afloram, e situações assim podem acontecer.
- Tá chorando porque, brother?
- Não quero ir pra casa, mano, minha casa é um lixo. Tá tão
daora aqui.
- Vamos pra minha casa então, Camilo. Lá é legal, a gente
continua bebendo lá.
- Sério mesmo mano?
- Claro que sim. Escuta aqui: só que não vai fuder tudo lá
ein, minha casa, minhas regras.
- Pode deixar! – Camilo respondeu, entusiasmado.
Fomos em direção ao metrô, fazendo uma baldeação em direção às
linhas de trem. Estava vazio. Ficamos cheirando cocaína e bebendo dentro do
vagão. Numa das estações, precisei mijar. Quando a porta abriu, baixei o zíper
da calça, mirei no vão entre o trem e a plataforma e fiz o que devia ser feito.
Chegamos em casa e não estávamos dispostos a descansar.
3.
Na minha casa eu tinha uma garrafa de vodka lacrada. Além de
duas gramas de cocaína de um rolê que havia feito outro dia.
Fomos ao meu quarto, liguei o computador e coloquei uma
playlist para tocar. O disco era o segundo do Stone Temple Pilots. Sempre piro
nesse disco, na minha opinião é um dos melhores de todos os tempos. Montei as
linhas e começamos. Camilo pegava forte na garrafa, pouco usava de droga,
sobrando para mim essa missão. Já não sentia mais meu rosto e a sensação do
cérebro derretendo estava mais forte do que nunca. Acredito que poucas vezes me
senti assim. Continuei bebendo com força pra ver se aliviava, mas sem
resultados.
Tiramos umas fotos nossas e postamos no grupo, beijando a
garrafa e com o nariz na cocaína. Não tínhamos noção nenhuma e nem imaginávamos
quem poderia ver essas fotos, e muito menos o que poderiam fazer com elas
depois. Estávamos curtindo o momento e dali eu acreditava que arrumaria um
grande amigo pra fazer bobagem. Mas eu ainda não havia conhecido o Camilo. O
pior estava ainda por vir.
A garrafa acabou e decidimos ir ao mercado para comprar mais
bebida. Camilo disse que tinha um vale alimentação da empresa com algum saldo,
e poderia colaborar. Naquele tempo, o vale alimentação era permitido pra
comprar o que quisesse no mercado, desde cachaça, cigarros, até se vendesse
droga seria permitido. Achei ótimo, estava sem trabalhar e precisava
economizar.
Chegamos no mercado, era o mercadinho mais perto de casa que
tinha, todos ali me conheciam, eu ia praticamente dia sim dia não comprar
bebida e passar no caixa 24h pra sacar uma nota de vinte pra comprar pó.
Acredito que as caixas e os funcionários imaginavam que eu era um bebedor
pesado, mas eu sempre respeitei todo mundo, mesmo quando ia lá louco (o que
acontecia sempre). Nunca tive problema nenhum, sempre devolvi quando vinha
troco a mais e dava bom dia mesmo que estivesse me tremendo todo de abstinência.
Pegamos as garrafas e fui pro caixa, nisso esqueci Camilo no
mercado. Quando estou na fila, comecei a escutar copos quebrando, imediatamente
lembrei dele, fui ao corredor dos copos e lá estava Camilo atirando os copos no
chão.
- Vamo quebrar tudo nessa porra! – ele gritava.
- Para com isso, seu idiota do caralho! – eu gritei.
Peguei ele pelo braço
e levei ao caixa.
- Dá a porra do cartão – eu disse, bravo – e a porra da
senha! Idiota do caralho!
Ele deu sem maiores questionamentos.
- Eu quero voltar lá pra quebrar mais copos!
- Vai quebrar porra nenhuma, você me respeita, caralho!
Passando no caixa, conversei com a moça e disse que meu
amigo tinha quebrados alguns copos “acidentalmente”, pois estava embriagado e
não tinha visto. Gentilmente eles disseram que não precisava pagar, e deixaram
a gente ir embora sem maiores transtornos.
Fomos para casa, eu já estava irritado pra caralho e já
estava pensando que tinha me metido numa roubada total. Ficamos bebendo até que
ele pegou no sono. Deixei ele dormindo no sofá da sala e fiquei trancado no
quarto, usando o que sobrou da cocaína, bebendo e ouvindo discos.
4.
Luciano era meu amigo de muitos anos, a gente usava droga e
bebia já fazia um tempo, ele sempre vinha na minha casa e eu sempre ia na dele.
Ele também estava afastado dos demais amigos por causa do estilo de vida
pesado, então resolvemos que a gente ia sair só nós dois mesmo e pau no cu do
resto das pessoas. Quem não aceitava nosso estilo de vida, que fosse pra puta
que pariu.
Naquele dia, ele me ligou e eu atendi.
- E aí Carlos, beleza?
- Beleza mano, e aí?
- Tudo certo. Bora de rolê hoje?
- Bora, mas tô com visita em casa.
- Quem tá aí?
- Acredite se quiser, o filósofo inculto está aqui.
- É sério isso!? Cê é maluco, cara.
- Como assim, mano?
- Esse cara é doente, mano. Não é possível que você colocou
ele na sua casa.
- Não é por nada não, estou me arrependendo mesmo. Acredita
que ele quebrou copos no mercadinho?
- Olha só, arruaça por nada. Odeio gente assim, quer ficar
doidão fica, mas não enche o saco de ninguém.
- Pois é mano. Mas agora já era.
- E onde ele tá agora?
- Tá apagado na sala, dormindo.
- E você?
- No quarto, travadaço e sem dormir há quase 48h.
- Hahaha sucesso ein. Vou levar bastante cocaína aí, pra
você continuar sem dormir.
- Valeu man, te amo.
Desliguei o telefone e resolvi sair do quarto. Precisava ver
se Camilo estava bem. Quando desci as escadas para chegar na sala, senti um
cheiro muito forte de mijo. Imediatamente meu coração gelou imaginando que ele
tivesse mijado no sofá. Graças aos bons Deuses protetores dos bêbados e dos
nóias, ele tinha caído do sofá e estava no chão, mijado e ainda dormindo. Minha
mãe voltava da cozinha com um prato de comida na mão. Eram por volta das 20h.
- Quem é seu amigo? – Ela perguntou.
- Esse é o Camilo, conheci na internet.
- Acho que ele não está bem não.
- Tá sim, só precisa dormir um pouco. Já já ele acorda
zerado e pronto pra mais.
- Eu não vou limpar isso ein. – Ela disse, puta da vida e
com razão.
- Claro que não, eu limpo. Pode deixar.
Não demorou muito e Luciano chegou. O recebi na porta. Levei
ele na sala para ver o estado de Camilo, ele só deu muita risada e ficou
repetindo várias vezes “Cê é louco!” pra mim. Infelizmente, ele estava coberto
de razão.
Fomos para o quintal para começarmos os trabalhos. Luciano
não bebia vodka, somente cervejas, sendo assim, trouxe doze latinhas que para
ele eram mais do que o suficiente. Quanto a mim, iria continuar bebendo da
minha garrafa. Colocamos o celular dele para tocar uma playlist, e o primeiro
disco era Megadeth, Peace Sells But Who’s Buying. Excelente disco.
Após alguns minutos, escutei Camilo se levantar. Fui de
encontro a ele, mas ele já tinha saído da sala e estava na porta do quarto da
minha mãe enchendo o saco, querendo atenção dela. E o pior de tudo é que ele
tinha pisado no seu próprio mijo e andado pela casa, o que obviamente espalhou
toda a urina por todos os cômodos.
Peguei ele pelo colarinho e levei ele pro quintal. Coloquei
ele sentado numa cadeira e dei uma garrafa na mão dele.
- Volta a beber logo pra ver se melhora e para de encher a
porra do saco! – Eu disse, em tom autoritário.
Ele bebeu e quando viu a cocaína pediu uma linha. Luciano
montou e colocou na frente dele. Imediatamente ele espirrou e voou tudo pelos
ares. Não era toda a droga, mas era boa parte.
- Olha aí, seu cabaço do caralho! – Luciano esbravejou.
- Foi mal, cara. – Camilo tentou se desculpar.
- Foi mal o caralho! Tá jogando droga fora, cê tá louco!?
Acha que meu dinheiro dá em árvore?
Eu tentei minimizar a situação, mas Luciano disse que não ia
dar mais nada de droga pro Camilo. Ele estava certo, o cara estava sem
condições de absolutamente nada.
Camilo continuou bebendo e acabou caindo de novo no chão do
quintal. Eu e Luciano continuamos no nosso ritual de bebida, droga e boa música
tocando na playlist do celular até umas quatro horas da manhã, quando a droga e
a cerveja acabaram e Luciano foi embora. Quanto a mim, já estava acordado há
muitas horas. Tomei um banho, me masturbei, tomei mais umas quatro doses de
vodka e apaguei.
5.
No dia seguinte, o cheiro da casa estava insuportável. Tudo
cheirava a urina. Absolutamente tudo. Acordei com uma dor de cabeça fudida. Saí
do quarto e pra onde eu olhava tinha bituca de cigarro. Camilo fumava e jogava
as bitucas no chão da sala como se tivesse numa calçada de alguma rua do centro
da cidade.
Fui ao quintal e encontrei ele sentado com a garrafa na mão,
bebendo.
- Vamos no mercado pegar mais bebida, mano. Vamos continuar.
– Ele disse.
- Hoje vou ficar de boa, tô destruído. Tô desde quinta feira
doidão, hoje é domingo. Vou voltar só amanhã a noite. Hoje não dá.
- Para com isso mano, vamos lá. Vamos lá pegar mais, vamos
na biqueira.
- Mas nem fudendo.
- E então o que a gente faz?
- Eu vou ficar de ressaca e você vai embora. Chega, você tá
arruaçando demais.
- Brother, eu não sei sair daqui você precisa me levar.
O caminho para a casa dele, de transporte coletivo, era de
no mínimo umas duas horas. Eu teria que levar e depois eu teria que voltar
sozinho. Seria terrível. Lembrei que um amigo meu que morava pros lados de
Camilo estava em casa, passando o final de semana, e que iria pra lá no final
do dia.
- Vamos Camilo, eu vou te arrumar um jeito de ir.
Fomos na casa desse amigo. Era na rua da minha casa. Lucas e
eu havíamos crescido juntos, mas tomamos rumos diferentes. Claro que na
juventude chegamos a beber juntos algumas vezes, mas ele acabou se tornando um
cara comum, casou com a namorada da adolescência, Francine, e haviam tido um
filho. Tinha um emprego bom e uma vida pacata. Não usava drogas e nem
pretendia. A gente pouco se falava, mas quando se falava, sempre tinha assunto.
Era um cara muito legal que eu sabia que poderia contar, claro, de acordo com a
disponibilidade dele. Lucas era muito ocupado com a sua vida de casado, filho,
trabalho, contas, impostos, eventos, etc.
- Carlos? – ele me atendeu na porta – Que bom ver você, meu
mano. Como você tá?
- Estou bem, e você?
- Também.
- Este é o Camilo – Eu disse, apontando para o dito cujo.
- Prazer Camilo, meu nome é Lucas.
Camilo apertou a mão dele, mas não falou nada. Na mão
esquerda, a garrafa, que toda hora ia à boca.
- Preciso de uma ajuda sua.
- Fala aí Carlos, ajudo sim.
- Você vai pra zona norte hoje?
- Vou sim.
- Pode levar o Camilo? Ele mora lá, deixa ele por lá que ele
se vira.
- Sei não mano, esse cara não parece muito bem não.
- Quebra essa aí, mano.
- Bom, tudo bem, Carlos. Vou sair daqui às 17h. Trás ele
aqui que eu levo.
- Valeu mano, de verdade.
Dei um abraço em Lucas e falei com Camilo que ele iria
embora com ele. Camilo disse que não iria sem uma garrafa, e que a dele estava
chegando ao final. Lá fomos nós ao mercado novamente. Comprei mais uma garrafa
pra ele, e pra mim umas cervejas para ajudar na ressaca.
Voltamos para casa e o clima estava terrível. Coloquei ele
pra me ajudar a limpar tudo, mas ele estava muito bêbado e pouco conseguiu
ajudar. Fui bebendo cervejas e minha ressaca já tinha ido embora na quarta
latinha. Eu já estava me sentindo bem de novo pra ligar pro Luciano ou pro
Mauricio ou qualquer outro e armar um novo rolê. Iria passar no caixa
eletrônico, sacar dinheiro, ir na biqueira, pegar droga, voltar ao mercado,
pegar uma garrafa de vodka, colocar uma música pra tocar e embalar ai pelo menos
umas 72h sem dormir e sem comer. Era isso ou a loucura. Ou isso que era a
loucura. Eu não sabia mais. Minha noção de certo e errado, e de tempo espaço
tinha ido pro caralho. Não sentia mais meus dentes e nem meu rosto há semanas.
Meu fígado doía todos os dias, e as pontadas eram frequentes. Mas eu queria
mais, eu queria continuar fazendo aquilo, não via outra perspectiva além de
continuar com aquilo e ver o que acontecia. Todos os dias que dormia, acordava
e imediatamente pensava no que fazer pra ficar louco naquele dia.
Mas não naquele domingo.
A missão era tirar o Camilo de casa. Tomei seis latinhas de
cerveja e quando vi já eram 17h. Levei ele para a casa do Lucas e ele entrou no
carro. Voltei pra casa e tomei as latinhas que faltavam, totalizando naquele
dia doze latas de cerveja que eu havia bebido. Acabei pegando no sono.
6.
No dia seguinte, assim que liguei meu celular, vi várias ligações
perdidas do Camilo. Antes de lidar com isso, resolvi ligar para o Lucas. Afinal
de contas, ele era meu amigo, não queria criar nenhum atrito com ele por causa
dessa situação.
- E aí mano, como foi? – Perguntei.
- Cara, até que foi de boa. Só ficou falando coisa sem
sentido, querendo fumar toda hora. Tivemos que parar algumas vezes pra ele
mijar. Fora isso, de boa.
- Desculpa pela situação mano, eu me meti numa roubada do
cacete.
- Faz parte brother, fica tranquilo.
- Valeu.
- Carlos?
- Fala mano.
- Te vi ontem fiquei mal pra cacete, você tá magro pra
caralho, isso aí vai te matar alguma hora. Vê se dá uma pausa, desse jeito não
dá.
- Tá bom, cara. Obrigado pela preocupação.
Desliguei o telefone e refleti por um minuto sobre a fala de
Lucas. Depois disso, desci na cozinha, peguei a garrafa na geladeira e voltei a
beber. Já estava melhor e pronto pra mais.
Liguei o computador pensando num poeminha que tava na cabeça
há alguns dias, era um poeminha sobre uma namorada que tive que ficava enchendo
meu saco querendo ler meus textos, e eu dizia que ela não poderia ler. A gente
discutia e no fim das contas ela ia embora brava comigo. A ideia parece besta,
mas na minha cabeça tava bem legal. Eu precisava escrever aquele.
Após o poema, abri o Facebook para ver os estragos do final
de semana. Muitas fotos inconvenientes, muita merda. Já nem ligava mais pra
isso. Tinha uma mensagem privada do Camilo:
- Carlos, vai tomar no seu cu. Você me abandonou. Seu amigo
me largou no terminal de ônibus. Cai e meu óculos quebrou. Perdi minha jaqueta
de couro. Não lembro como cheguei em casa, mas acho que apanhei do motorista de
ônibus. A culpa é sua. Vai tomar no cu.
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