OBSCURED BY THE CLOUDS – 07/2018

Não importa muito as coisas que acontecem em nossas vidas, no geral importa mais como encaramos elas. Li isso em algum lugar, há uns anos, e estive pensando nisso.

Era terça feira, eu estava andando pela cidade em passos rápidos como sempre, desesperado e ansioso como sempre, almejando sempre estar em algum lugar que não sei exatamente qual. Temendo alguma coisa que ainda não aconteceu.

Eu queria ser feliz, porra.

Enfim, era terça feira. Eu tava resolvendo umas situações. Encontro um sujeito que não via fazia tempo, ele estava tomando uma e batendo papo com outro sujeito (que não conheço) e eles pareciam animados pro dia e horário mencionados. Era a tarde. Ruas cheias de pessoas vazias. Clichê? Clichê, porque não? Ele me olhou penetrantemente, esperando alguma atitude. Não tive. Não pretendia ter. Eu só queria sair dali o mais rápido possível.

 - Carlos, quantos anos!

Ele me interrompeu. Tirei os fones de ouvido e respondi.

- Muitos. Como cê tá, Ângelo?

- Bem, e você?

- Levando. Levando eu chego longe. (Não era exatamente a resposta que ele queria ouvir. Às vezes peco pelo excesso de sinceridade.)

Me apresentou o seu amigo e me chamou pra beber. Eu disse que não tenho bebido mais, por motivo X, Y, Z e ele aceitou numa boa. Blá Blá Blá, história tal sobre como me tornei um alcoólatra, fudi tudo, morei na rua e me internei numa rehab. Blá Blá Blá, parabéns Carlos, você é um vitorioso, que virada na sua vida, etc.

De repente minha vida parecia mais mórbida do que realmente era. E todos os problemas pareciam gigantes e impossíveis de serem resolvidos. Deus parecia estar chateado comigo por qualquer motivo. As músicas não me davam tesão. As mulheres estavam todas muito iguais. Pensei em mandar todas as pessoas da minha família irem tomar no cu. Devia ter feito isso.

Meu pau já não subia de empolgação pelas manhãs.

O problema era grave. O processo de cura, longo. Precisava virar uma chave que não sabia onde estava. E não sabia onde colocava a chave. O Sol de rachar era ainda mais destruidor do que o frio. A tristeza não escolhia meteorologia.

Independentemente de qualquer coisa, eu tava na merda. E reconhecia isso. E Ângelo sabia que eu tava mentindo pra mim mesmo falando de como estava com tudo novamente, e sobre os 15 quilos que ganhei, e sobre minha nova vidinha satisfatória. Ele sabia que minha felicidade de verdade era a garrafa, e que eu trocaria tudo que tenho pelo simples poder de "controle" da bebida. Eu o invejava. Porque numa terça a tarde ele tava bebendo, e eu não podia fazer isso NUNCA MAIS. Pensar nisso fazia meu coração acelerar, batendo mais do que batedeira velha ou carro antigo. Parecia a personificação do inferno na terra.

A falta de controle.

Fazer o que, né? Nunca soube controlar PORRA NENHUMA, a garrafa era só mais uma dessas várias coisas.

- Carlos, o que você diria pra alguém que está no fundo do poço?

Ele perguntou, golou sua cerveja e eu já pensando como faria pra sair dali.

- Eu diria pra ficar o quanto quiser. Mas que saísse quando quisesse sair.

Ele riu.

- E que Deus abençoe.

Terminei, pensei que talvez tivesse finalizado de maneira muito cristã e acenei com a mão que estava vazando dali.

Tinha muita coisa pra resolver, e precisava me manter longe da garrafa. Talvez comprar um computador novo pra bater textos com mais qualidade. Talvez comprar duas camisetas básicas pra usar no trabalho. Talvez ir em algum lugar tranquilo pra orar pra Deus me iluminar indicando um caminho que me levasse de fato pra algum lugar.

Alguém ainda olhava por mim, e o fato de eu estar vivo por si só era um milagre, mas até quando? Deus, até quando?

Será que faltava alguma coisa? O que? Minha nossa, eram perguntas demais. Me sobravam as interrogações, me faltavam as exclamações. Estar perdido não é condição exclusiva dos que estão com os dois pés na merda, mas é também parte do processo dos que estão escalando o poço pra querer sair dele. Eu tava escalando o poço há quase dois anos, e volta e meia escorregava parecendo que ia cair de uma vez pro fundo de novo. E pensar nisso me dava medo.

Eu precisava rever meus conceitos e meus relacionamentos. Meu trabalho e minha vida no geral.

Alguma luz, porra.

Algum caminho a seguir. Com uma cruz nas costas, resolvendo a vida de quase 100 pessoas, a minha ainda seguia na penumbra. Obscura. Obscurecida pelas nuvens. Assim como aquele disco do Pink Floyd que muita gente não gosta. Mas que reflete o simples e básico sobre a existência: somos seres cheios de perguntas e ávidos pelas respostas. Respostas essas que nunca chegam. Existir é sofrer. Quem disse essa foi Schopenhauer. Schop pros íntimos. Um textinho cheio de frases feitas pra enfeitar seu dia, mostrando que ainda tenho capacidade pra coisa. Eu coloco meu pau na mesa e mostro pra Deus e o mundo que a escrita nunca pode parar. Não tão agressiva, nada bêbada, mas ela tá aqui ainda. Ela mora no meu coração, porra. E nunca poderá morrer.

Cheguei em casa nesse dia, coloquei o celular na caixa de som, liguei o Spotify no terceiro disco do Motorhead, tirei as calças, a camiseta, o tênis, a meia, a cueca e fui pro banheiro, caguei, pensei na vida e cai pra ducha. A guitarra gritava por todos os ambientes. Fechei os olhos e deixei a água escorrer sobre meu corpo. Uma lágrima saiu tímida do meu olho. Ninguém assistiu a isso. E eu fingi que nada aconteceu também. E talvez tenha sido o melhor a se fazer naquele momento. Tudo ainda estava no seu devido lugar. Enquanto houvesse um teto e quatro paredes, havia uma fagulha de esperança. E de uma fagulha a gente faz uma fogueira. Pensar assim me fez sair do banho, colocar uma samba canção, lavar roupas e fazer a janta.

E por um momento, a vida pareceu suportável novamente. E isso é a verdadeira vitória.

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