A CONFISSÃO (OU A MELHOR PARTE) - 03/2026

a melhor parte
não era as noitadas com vários amigos
e nem eram as mulheres
e todas as consequências que elas traziam
definitivamente nada disso me atraia
eu fazia pelo mero apelo
de estar naquele lugar com aquelas pessoas
naquele exato momento
 
a melhor parte
era trabalhar dois ou três meses num trabalho freelance
receber um salário considerável
e ao final desse trabalho
ir ao caixa 24h, sacar uma boa quantia de dinheiro
ir na favela buscar uns papéis de pó
ir no mercado e pegar umas dez garrafas de velho barreiro
levar tudo isso para casa
tirar a campainha da eletricidade
desligar o telefone
colocar uns quinze discos pra tocar em sequência
no windows media player
e passar dias, talvez semanas
sozinho, completamente sozinho
usando droga e bebendo até cair
 
e não existia nada que eu gostasse mais do que isso
e hoje ainda é difícil achar
algo mais prazeroso
 
e aproveito pra dizer mais
 
por anos culpava meus pais abusivos
e uma criação abusiva
e culpava também falta de oportunidades
relacionamentos doentios
falta de dinheiro e impostos que se acumulavam na receita federal
sem que eu os pagasse
e também dizia que o mundo por si me obrigava a ficar doidão
para que eu pudesse suporta-lo
mas não era isso
nunca foi por isso que fiz tudo que fiz
eu fiz porque eu era bom nisso
bom não: ótimo
era tão bom que me sentia vivo por fazer
 
e mesmo muita gente dizendo
que isso era um inferno caótico
eu posso dizer com extrema convicção
que nos momentos em que estava trancando num quarto
completamente bêbado e drogado
musica tocando e telefone desligado
eram os momentos em que eu estava
na mais perfeita
paz

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