A GAROTA DA MECHA AZUL – 12/2014
1.
Eu estava com vinte anos e havia terminado um relacionamento
de quatro anos e meio (sendo dois casado), e tudo o que eu mais queria era
beber e não pensar em mais nada. É sempre conturbado o término de um
relacionamento, eu penso que o início também, a diferença é que no começo
estamos mais motivados a fazer dar certo, e no fim, estamos mais motivados para
que acabe. Angélica havia ido embora com praticamente tudo o que construímos
nesse tempo em que estivemos juntos, eu estava morando com minha mãe, dormia
num colchão mofado no chão do meu pequeno quarto. Trabalhava como estagiário
numa empresa de publicidade, umas dez horas ao dia, fora a faculdade que me
ocupava outras quatro, e o tempo de viagem da minha casa ao trabalho e à
faculdade, mais umas duas horas pra ir e duas pra voltar, eu dormia
praticamente quatro horas por noite. Ganhava seiscentos reais, comia mal, bebia
vodka barata e a vida prosseguia. Não era o mais correto, mas eu ainda estava
me adaptando a uma vida de solteiro que eu nunca havia tido. Você faz seu
próprio céu e seu próprio inferno, e eu estava fazendo um pouco de tudo.
Eu costumava folgar apenas aos sábados e as segundas, aos
domingos eu trabalhava as mesmas dez horas que aconteciam durante a semana.
Bebia todos os dias durante a semana, regularmente meia garrafa de vodka e duas
ou três cervejas, acordava cedo no dia seguinte, ia pra faculdade, geralmente
eu tinha que descer do trem em alguma estação, ia ao cesto de lixo, vomitava e
voltava ao trem. Quando chegava no sábado, eu estava em frangalhos, e por isso
dormia até uma ou duas da tarde. Levantava, escovava os dentes, dava uma
limpada na casa, tomando umas cervejas de leve. Tirava outro cochilo e ia pra
qualquer bar de rock que me parecesse interessante, sozinho mesmo. Eu estava
aprendendo a viver sozinho. Era isso. Nascemos sozinhos no mundo, a gente se
cerca de pessoas passageiras, mulheres, amigos, família, tudo acabaria sendo
passageiro. Pensar nisso é tão triste... Enfim, naquele sábado resolvi aparecer
num bar da região, em que os drinks eram baratos e aceitava pagamento com Vale
Refeição. Apesar de eu ganhar salário de estagiário, meus benefícios eram os de
um publicitário efetivo, portanto eu ganhava dezenove reais de vale ao dia,
como eu mal tinha tempo pra comer, ele acumulava, e eu gastava com bebida.
Conhecia aquele bar, não freqüentava regularmente, mas sabia o nome dos garçons
e uma vez ou outra eu encontrava alguém conhecido. Sentei no balcão. Ao fundo,
uma banda tocava cover de Ramones.
- Roberto! – gritei, levantando o dedo – vê aquela vodka de
sempre.
- Podeixar, Carlos.
Roberto veio e me trouxe uma dose de vodka Balalaika, pura e
sem gelo. Não era o melhor dos drinks, mas me ajudava a relaxar. E outra,
custava apenas três reais. Fiquei ali bebendo e olhando as pessoas. Bares
fedidos de rock são bons pra distrair a mente, beber e ver pessoas. Música
tocando de fundo, barulho. Gritos, berros e desespero. A juventude escoando
pelo ralo, tudo sendo acabado e deteriorado, pais pagando pelos seus erros,
filhos errando, vômito e urina em cima das calças jeans e dos tênis all star. E
eu ali, lidando diariamente com a minha melancolia. Sabia que era momentânea,
todos sabemos, o problema é a espera que ocorre até que o momento acabe. Não
adianta, somente você sabe da sua dor, somente você pode falar sobre ela e o
quanto ela dói. Ninguém entende o que você passa, ninguém pode te aconselhar (a
não ser que passe pela mesma coisa que você, e mesmo assim, nem sempre), e não
importa o que te digam, você jamais fica melhor. O que quero dizer é que sempre
tem um nessas horas que te diz que as crianças da África estão passando fome,
ou que alguém foi seqüestrado, ou que a mãe de Fulano morreu. Ora sim, isso é
bem triste, não nego, mas a gente não está na África pra poder entender o que é
passar fome, não fomos seqüestrados, não tivemos nossas mães mortas. Enquanto
isso não acontecer, nossa dor será sempre a maior e a mais desesperadora, não
importa o que aconteça. Terminei minha vodka na segunda talagada. Já ia pedir a
segunda dose, mas uma mulher sentou ao meu lado no balcão.
- O que você bebe? – ela perguntou.
- Vodka.
- Pura ou com gelo.
- Pura.
- Roberto! – ela gritou, levantando o dedo – trás uma vodka
pura pro cara aqui e uma maria mole pra mim, daquele jeito que você sabe.
Roberto serviu nossos drinks, fizemos um brinde, demos uma
golada sem pronunciar uma palavra. Era estranho que aquilo estivesse
acontecendo comigo, quero dizer, ninguém nunca pagou as coisas pra mim, muito
menos drinks, muito menos uma mulher. Ela tinha a pele bem clara, seios fartos,
barriguinha saliente e as coxas torneadas. Tatuagens, ela tinha algumas pelo
corpo. Piercings nas orelhas, tinha um cabelo bem escuro com uma mecha azul
isolada. Seu rosto não era feio, mas passava uma apatia gigante. Quero dizer, a
gente percebe quando uma pessoa está mal apenas pelo olhar. Os olhos dela me
passavam um desespero, a cara no geral demonstrava cansaço. Talvez ela
estivesse na mesma melancolia que eu, talvez não. Não se sabe, e eu não queria
saber.
- Carlos – eu disse, estendendo a mão em cumprimento.
- Tanya – ela respondeu, batendo na minha mão, me agarrando
no pescoço e me dando um beijo violento no rosto.
Ela estava bêbada, agora entendi o ato dela de me pagar uma
bebida. Nunca sabia os motivos das pessoas se aproximarem de mim, achei que
podia ser pena. Um cara sozinho, se embriagando sozinho, envolto em seus
pensamentos pós divórcio. Talvez isso despertasse um pouco de compaixão nas
pessoas. Eu não cobrava isso, mas não iria reclamar.
Bebi rápido demais a segunda dose, ela virou a maria mole
numa golada só. Engraçado. Parece que ela bebia tequila, assim que ela virou a
maria mole ela gritou “UHHUUULLLL”, como se estivéssemos numa balada da
Augusta, ou da Vila Olímpia. Ela devia ter sérios problemas psicológicos, e eu
não ligava a mínima pra isso.
- Curte Ramones? – ela perguntou.
- Na verdade não.
- Então o que você tá fazendo aqui, sozinho?
- Vim beber – respondi, bebendo mais um pouco da vodka.
- Sabe, você me parece um cara legal, só deve estar passando
por uma fase difícil.
- Não é fase, a vida é difícil, e é pra todos. Não acontece
só comigo.
- Não, sua vida é boa! Caralho! – ela disse, batendo no
balcão e pedindo mais uma dose pra Roberto.
Bebemos nossos drinks, agora ela não virou tudo de uma só
vez. Devia estar se controlando. Afinal, sentia que ela ia vomitar logo logo.
- Escute – eu disse – eu trabalho dez horas no dia pra
ganhar uma miséria, ainda com uma pressão enorme nas costas. Ainda faço
faculdade e mal durmo. Bebo todos os dias e acabei de terminar um casamento.
Não, minha vida não é boa.
- Veja bem... Carlos? – ela perguntou, acenei que sim – ao
menos você tem um trabalho e estuda. Eu não faço nada da vida, terminei o
ensino médio e ainda não estudei porra nenhuma e nem vou. Desisti da vida faz
um tempo...
- E como você se banca com os drinks?
- Roberto me conhece desde infância, bebo de graça aqui.
Fica tranqüilo, os drinks que dou aos meus amigos, também são de graça.
- Entendo – respondi – com licença, vou sair rapidinho pra
tomar um ar.
- Ok.
Saí. A noite estava linda. Acendi meu cigarro, olhei a lua,
as estrelas, fechei os olhos. Beber era como ir ao céu, ver as estrelas e a lua
mais de perto, era como bater no seu chefe, era como xingar sua ex mulher, era
como ter amigos aos fins de semana, era como ter dinheiro. Beber era como estar
no paraíso e voltar logo depois pra realidade (não digo inferno, uma vez que a
realidade pode ser ainda mais macia do que isso). Puxei mais uma tragada do
cigarro, um sujeito colou ao meu lado.
- E aí brother, me arruma um cigarro?
- Oh sim – eu disse, entreguei o cigarro, peguei meu
isqueiro, acendi pra ele.
Ficamos ali, tragando e um olhando pra cara do outro, por
meros instantes. Não sei por que esses sujeitos colam do seu lado, podiam pegar
a porra do cigarro e ir embora, no fim das contas eles deviam estar querendo
companhia, como todos nós queremos. O cigarro é só mais uma desculpa.
Terminei de fumar o meu, voltei pra dentro, fui em direção
ao balcão, Tanya não estava lá. Sentei e pedi mais uma dose pra Roberto. Fiquei
bebendo e olhando as pessoas. Encontrei Tanya dançando com um sujeito que
vestia uma camiseta do Clash, ela roçava ferozmente nele, parecia rolar um sexo
ao vivo. Ela me viu, parou de dançar com ele, deu-lhe um beijo demorado e
voltou ao balcão.
- Carlos! Vi que já pediu sua bebida.
- Sim sim, estou bem – eu disse, levantando o copo.
Ela pediu mais uma maria mole pra ela, prosseguiu bebendo
ali, do meu lado. Não estava a fim de muito papo naquela noite, mas ela ainda
insistia. Vai ver foi com a minha cara, eu não sabia.
- Você gosta de ler o que? – ela perguntou.
- Olha Tanya, não quero muito conversar, sabe? Me desculpe,
vim apenas pra beber.
- Para de ser tão chato! Que merda, cara!
- Desculpe – eu disse, bebendo mais.
- Você tem cara de intelectual, por isso perguntei. Eu gosto
de ler umas merdas pesadas, sabe?
- Sim, eu leio basicamente quatro caras: Nietzsche,
Schoppenhauer, Camus e Cioran.
- Filosofia?
- Sim, a mais pessimista possível.
- E literatura?
- Odeio todos, todos são otimistas e românticos demais.
- Deveria ler os “beats”, vai gostar...
- Sim, talvez um dia – respondi, matando meu drink.
Ela matou o dela, e quando ia pedir mais um pra mim, a
interrompi.
- Tanya, escute, você tem sido legal comigo, mas acho que
vou embora.
- Ahhh, fica mais um pouco. Saideira, juro!
- Estou cansado, estou razoavelmente bêbado, e isso me
basta. E trabalho amanhã.
- Por favor!
- Não, me desculpe.
Estava saindo sem me despedir dela, ela me puxou pelo braço
e me deu um beijo fodido. Era praticamente um estupro, de ambas as partes, pois
retribui. A língua lá no fundo, de ambas as partes. Um beijo violento, eu
diria. Uma revolta completamente particular e dos dois lados. Certamente, ela
era fugaz, insana e inconseqüente. Pegamos mais um drink cada, ficamos nos
beijando, o calor aumentando cada vez mais. Eu queria penetrar nela demais, com
todas as minhas forças, arrastei ela pro banheiro, passei por todos ali, todos
me olhando, todos bêbados e passando mal, todos os sem futuro e que faziam
parte do erro. Transamos com ela apoiada na parede, enquanto vez ou outra,
dávamos goladas nos nossos drinks. Uma transa bêbada, como eu sempre gostei.
Terminamos, levantamos as calças e saímos de volta ao
balcão. Sentamos de novo, pedimos outra dose pra cada. Ela me arrastou pra fora
dessa vez.
A noite prosseguia linda e calma e bela. Fumamos um cigarro
cada, ela fumava um mentolado e eu o Marlboro vermelho.
- Carlos – ela disse – você curte um pó?
- Não, obrigado.
- Oras, mas por quê? – ela disse, já tirando o pino pra fora
do bolso
- Sei lá, medo de viciar.
- Medo de morrer?
- Viciar.
- Tudo acaba sendo escapismo, Carlos. Pense nisso. Vícios
todos temos. A questão é que alguns são legais e outros não.
- Os não legais geralmente nos fazem mais mal.
- O amor é legalizado. A paixão também é. E você se fode
mais do que com a cocaína.
- Pode até ser... Mas eu passo hoje.
- Tudo bem.
Ela montou uma carreira nas costas da mão e mandou tudo numa
única aspirada com a narina direita. Guardou o pino, espirrou, senti a brisa
dela. Pegou um cigarro de maconha, acendeu, deu uma tragada e me disse
- Ao menos você fuma?
- Ok, aceito o charro.
Ficamos ali fumando e conversando trivialidades e sobre como
a filosofia alemã pode ser tão pessimista, e ela falando de Capote e de
Hemingway e de Thompson também. Falou de um livro do Keroauc e eu falei sobre
um do Cioran e o papo estava intelectualizado o suficiente. Gostei dela.
Ainda voltamos e tomamos mais uma dose, eu já estava dando
sinais de que iria passar muito mal, de que iria gorfar minha alma ali, e por
isso, dessa vez, inevitavelmente, tive que ir embora. E outra, eu ainda iria
trabalhar no dia seguinte. Passei meu telefone pra ela, ela disse que ligaria.
Me despedi com outro beijo que parecia um estupro, e cambaleante, fui pra casa.
2.
Meu trabalho de domingo havia sido tão chato como sempre
era. Voltei pra casa, abri a garrafa, bati três poemas que falavam sobre
misantropia e niilismo e fui dormir.
A semana passou bêbada como sempre, até que na sexta, Tanya
me ligou.
- Hey, como você tá, sujeito mal humorado?
- Mal humorado.
- Hahaha, seu amargor é até que engraçado. Escuta, peguei
uma garrafa de conhaque, que tal se eu aparecer aí pra gente beber até apagar?
- Traga a garrafa. Quanto a você entrar, eu vou pensar.
- Se fazendo de difícil?
- Não, apenas mal humorado.
- Esse seu jeito é interessante.
- Obrigado.
- Falo sério!
- Acredito...
- Você é diferente dos outros.
- Por favor, não diga isso.
- Por quê?
- Não gosto de ouvir isso. Não gosto de ouvir elogios, você
não faz idéia do quanto me fodem. Ainda mais ditos pelas mulheres.
- Ok ok, larga a mão de ser besta e me passa seu endereço.
Passei o endereço pra ela. Eu pretendia beber até apagar
sozinho. Sempre havia sido assim, até mesmo quando casado. Muitas vezes, ela ia
dormir e eu ficava na sala, ouvindo música ou assistindo seriado, e bebendo.
Acho que “casal entrosado” não era um termo que nos definia. Mas era isso.
Pecamos nas escolhas, aceitamos o fato e que Deus acabe logo com tudo.
Ela chegou e estava linda. Deixei que entrasse, colocou a
garrafa em cima da mesa da cozinha e fomos pro quarto com uma garrafa de vodka
(minha, que já estava quase no fim). Começamos a beber e a falar bobagens sobre
a vida e sobre a morte e sobre vários outros assuntos. Apesar de eu odiar quase
todo mundo, ela estava me entretendo, querendo ou não, estava começando a
gostar da companhia dela, e isso me preocupava. Gostar de pessoas, é
preocupante, não interessa quem seja. A questão é que eu havia adotado uma
postura de não gostar de mulher alguma, e aquela vaca estava atrapalhando meus
planos, com palavras bonitas e me trazendo garrafas de conhaque.
- Qual é o seu sonho? – ela perguntou.
- Que tudo acabe logo.
- Você não me parece muito feliz pra um cara solteiro que
recém se separou.
- Não estou feliz, não vou ficar feliz. Estou cansado.
Cansado de ter que pensar no futuro, cansado de ter que ser rico, e alguém, e
me formar, e ser efetivado, e ter que pegar mulheres, e sair de casa, me dar
bem com meu pai, ter amigos, não beber demais... estou mesmo cansado dessa
merda, e isso me torna infeliz.
- Não seja tão mal humorado com a vida. Escuta, leve ela de
forma simples, assim como eu tento fazer. Beber e me divertir e foda-se.
- Não posso, tenho responsabilidades.
- Tipo?
- Tipo uma caralhada de coisa.
- Joga tudo pra cima, seja mais impulsivo, senhor Carlos.
- Pra você é fácil falar, as pessoas estão ao seu lado, mas
não do meu.
- Lobo solitário?
- Porra nenhuma, para de falar merda e encher a porra do meu
saco, beleza?
- Tá carente, é?
Nisso ela me disse, eu ainda me mantive frio por mais alguns
instantes, mas ela foi chegando e passando a mão daquela forma manipulativa que
as mulheres sabem fazer. O objetivo dela era me aprisionar emocionalmente, eu
ainda não entendia o motivo, e ela estava conseguindo. “Merda!”, foi tudo o que
eu pensei quando começamos a nos beijar. A garrafa foi deixada de lado, e
fizemos um sexo bêbado, agora na cama, ela deitada e eu em cima, bombando e
bombando. Eu estava perdido e ainda não sabia disso.
Terminamos, ela foi tomar banho e eu voltei pra garrafa. Ela
chegou, já com a garrafa de conhaque, terminou de se enxugar, colocou uma
camiseta minha velha do Floyd, a calcinha e ficou ali sentada, bebendo e
fumando cigarros atrás de cigarros. Parecia leve. Ela passava a imagem de ser
alguém leve. Passava a imagem de que iria me tirar do Inferno, pra brincar, e
depois me jogar lá de novo. Oras, não é questão de desconfiança, é questão de
estatística. Quase todas fazem isso, e eu não acreditaria que ela fosse
diferente. Ela estava prontinha pra me foder, e eu só tava esperando pra que
isso acontecesse.
3.
Ficamos a semana nos falando, e eu, como sou imbecil, já
imaginei o que estava por vir: eu fazendo planos e ela nem aí pra nada. Costuma
dessa forma. Eu idealizava as pessoas demais, todas elas, amigos também,
colegas, mas com mulheres o efeito sempre fora mais devastador. Parece que o
envolvimento carnal complica tudo ainda mais. Sexo é uma forma inventada pelo
homem pra maximizar problemas que seriam facilmente resolvidos se o sexo não
tivesse acontecido. De uma certa forma, sempre que eu falava com ela, era um
suspiro a mais que eu ganhava pra suportar aquela maldita rotina que eu tinha.
Era menos um passo pra desistência, era menos um gole da vodka que eu tomaria
quando chegasse em casa. Menos um segundo vomitando pela manhã. Menos Inferno e
mais céu.
O fim de semana chegou, e eu estava bebendo sozinho na
sexta. Ela me mandou mensagem avisando que iria sair com um outro cara, um tal
de Jair. Sim, ela possivelmente daria pra esse cara, eu não conseguia controlar
essa merda, eu era um ciumento, um romântico, possessivo, mas não consigo
aceitar o fato de você estar com alguém, e essa pessoa querer ter outras
pessoas. Mal nos conhecíamos, mas nossa conexão era forte o suficiente pra
termos algo, pra sermos felizes juntos. Repito: eu estava querendo comer o maior
número de mulheres, mas ela havia entrado na minha vida, e bom, os planos mudam
quando menos esperamos. Liguei pra Luis pra desabafar.
- Luis!
- Tá bêbado?
- Ora, mas é claro.
- Quando você não está?
- Quando estou dormindo.
- Não, porque você sempre acorda ainda bêbado.
- É verdade...
- Fala aí, cara.
- Tanya não veio hoje.
- Por quê?
- Vai sair com outro cara.
- Por quê?
- Eu não sei... escuta, você tá em casa?
- Tô sim.
- Aliás, quando é que você não está em casa?
- Sabe que só saio do PC pra ir no banheiro e pra comer.
- Eu sei... escuta, aparece em casa hoje.
- Carlos...
- TÔ PRECISANDO DA SUA AJUDA, SEU PUTO!
- Tudo bem, pela nossa amizade. Tem comida aí?
- Tem porra nenhuma, tô bebendo Natasha e não jantei.
- Vou levar salgadinho.
- Obrigado. Luis?
- Sim?
- Eu te amo, seu bosta.
- Haha, também te amo.
Prossegui bebendo sozinho e pensando em Tanya. Quanto mais
você tenta não pensar em alguém, mais você pensa nesse alguém. Acontece mais ou
menos assim. Você pensa “bom, não posso pensar nessa pessoa”, mas se esquece
que só o fato de pensar em não pensar nela, já fez você pensar nela. Parece
loucura, mas não é. Qual é, eu estava com quase meio litro de vodka na cabeça
quando bolei essa teoria, não sei entrar em detalhes pra tentar explicar, não
sou um físico que escreve naquelas lousas imensas só pra mostrar pra todo mundo
que ele é genial e está certo. Eu bebo e as coisas saem, sendo reais ou não.
Luis chegou, ele tem a chave de casa (caso eu precise de
intervenção hospitalar, essas coisas), foi entrando. Trouxe cervejas pra ele,
além de dois pacotes grandes de salgadinhos de marcas famosas. Sentamos na
cozinha e começamos a beber.
- Escuta, Carlos, onde ela está?
- Que horas são?
Ele pegou o celular, olhou e disse.
- Onze e quatorze da noite.
- Segundo meus cálculos, dando pra outro.
- Para com isso...
- É sério, eu não entendo.
- O que?
- Pra que outro? Qual é o meu problema?
- O problema é com ela, cara. Ela só quer dar pra vários,
ser uma vadia, essas coisas.
- Eu só queria comer várias, ser um vadio, essas coisas.
- Sim, mas Tanya te aprisionou bucetalmente. Não há o que
fazer.
- Deve ter algo.
- Você pode tentar mudar ela.
- Arisca demais, ela não mudaria nem se eu fosse um cara
fodido.
- Então você pode mudar você mesmo. Já pensou, Carlos, isso
te ajudaria até com as próximas que vierem.
- Minha preguiça me impede de ser alguém melhor, ao menos
nesse caso.
- Bom, vamos beber e pensamos, ok?
- Ok.
Seguimos bebendo madrugada adentro. Naquele dia exagerei nas
doses de vodka pura, ou com água, mas geralmente eu tinha preguiça de colocar
água e descia direto pela goela. Eu estava com um problema irresolvível,
desesperado e com medo. Luis foi gente boa de aparecer naquele dia para tomar
umas comigo. De uma certa forma, mesmo sendo Tanya o assunto, acabei me
distraindo e a noite passara. De fato, tudo sempre passava mais rápido quando
bebia, talvez por isso que eu bebesse.
No dia seguinte, acordei de ressaca. Era uma ressaca das
pesadas. Fui ao banheiro, vomitei, limpei a boca, prometi nunca mais beber pela
nonagésima quinta vez, e fui na cozinha pegar um copo grande de água. Luis
havia ido embora. Eu estava um pouco melhor, já estava pensando em mais poemas
péssimos pra serem batidos, quando Tanya me ligou.
- Como foi sua noite? – ela perguntou.
- Luis veio em casa, bebemos.
- Legal...
Ficamos um tempinho em silêncio.
- Não quer saber como foi a minha?
- Prefiro não, Tanya.
- Saí com Jair...
- Legal.
- E bom, ele é ótimo, sabe. Adorei, tudo foi bom, inclusive
o sexo.
- Pra que essa merda emocional, Tanya?
- Ué, doeu?
- Claro que sim.
Desliguei o telefone e voltei pra garrafa. Ao menos essa
estava sempre ali, do meu lado.
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