A MORTE DE UMA PARTE IMPORTANTE DE MIM – 07/2020
A regra principal tem sido acordar cedo todos os dias e levar a sério o meu trabalho o máximo possível. Diferente de tudo que sempre fiz a vida toda. Como eram grandiosas as noitadas de cocaína, vodka e cerveja barata, e seguir pegando pesado durante meu expediente. Era remunerado pra ficar muito louco. Que delícia. Hoje tenho me dedicado e permaneço insatisfeito com meus resultados constantemente (mesmo que meus chefes me elogiem todos os dias, mesmo que as empresas estejam voando), mas pra mim tem muito a melhorar. O maior crítico do meu trabalho sou eu mesmo. E por isso eu tenho estudado muito. Quero melhorar, não pela empresa, não pelos meus chefes, mas por mim mesmo. Eu sei que por mais que melhore eu ainda vou odiar meu trabalho, achando ele completamente amador. Mas isso é recorrente.
Se tem alguma coisa que faço muito bem é me odiar. Quero
dizer, se for crime de ódio odiar a mim mesmo, posso me considerar um
criminoso.
Portanto vos digo que nesse texto não vou falar sobre tirar
minha própria vida, vou falar só sobre me odiar.
Não me odeio esteticamente, não me odeio por alguma
característica de personalidade, só me odeio por me achar incompetente em tudo
que faço. Não uma total incompetência, mas uma insatisfação. Eu acredito que
nem se eu ganhar todos os prêmios possíveis ou reconhecimento possível eu vou
estar satisfeito.
Dá pra perceber que me cobro um pouco rs.
Pra melhorar a situação toda, estou quase batendo nos 30
anos e não estou feliz. Não esperava chegar tão longe. Foram muitos anos usando
drogas, bebendo e fazendo bobagem, maltratando meu corpo de todas as formas e
eu jamais imaginei que fosse viver mais do que 30 anos.
Talvez se eu realmente tivesse gostado de crack, nada disso
seria um problema. Uma pena que não gostei.
Por enquanto tem sido terrível pensar nisso.
Não gosto de pensar, e tento me manter ocupado pra não
pensar, mas às vezes penso, por mais que não seja o mais recomendado.
Naqueles anos todos sendo inconsequente eu esqueci por
completo que meus planos de morrer cedo poderiam dar errado, e hoje chego num
ponto em que ainda estou novo, porém não novo o bastante pra ser irresponsável,
mas também não velho o bastante para ter estabilidade. É um marco, uma
transição.
E agora sim, agora sim chegamos no ponto que mais machuca.
Chego aos 30 com a minha pior habilidade literária. Tanto em
quantidade quanto em qualidade dos textos. Lembro de épocas em que batia na
máquina pelo menos uns cinco ou seis contos longos, de dez, quinze páginas por
SEMANA com uma facilidade tremenda. E contos bons, modéstia à parte. Hoje isso
parece muito impossível, quase distante.
Escutem, não que eu quisesse viver só dessa merda, ou que
quisesse ser reconhecido e ter dinheiro e fama acordando meio dia e enchendo o
cu de cachaça sete dias na semana, eu sabia que isso era praticamente
impossível em vista da sociedade atual (uma geração fresca, recheada de
pederastas paus nos cus que não sabem lavar o próprio prato (pra não ter que
dizer que não sabem limpar o próprio rabo), cheia de "não me toques"
e de militâncias vazias e completamente alienadas por deuses mortais e criminosos).
Eu sei que a literatura hoje tá chata demais, e os que realmente têm talento
são esquecidos no limbo ou simplesmente deixam essa merda pra lá.
Como eu tenho deixado.
Eu fico triste e até emocionado de pensar que uma parte de
mim está morrendo. A parte que eu mais amei durante a minha vida toda (mais até
do que o alcoolismo, que amei pra caralho), e essa parte me salvou de tentar
acabar com tudo muitas vezes. Quando não haviam amigos, haviam textos. Na falta
de mulher, tinha texto. Quando não tinham garrafas, tinham textos. Nos meus
momentos mais difíceis e tristes, eu estava trancado sozinho num quarto
escrevendo.
Eu queria levar a literatura pro meu túmulo, e talvez por
isso lutava pra morrer cedo. Mas a vida percorreu caminhos que nem eu mesmo sei
explicar, e talvez contra a minha própria vontade, eu me vi numa situação
desfavorável pra seguir com o plano todo. O plano existe, mas está cada vez
mais distante. Estou ficando velho e as mudanças estão acontecendo, algumas
coisas surgem e outras morrem. Sou indiferente com quase tudo. Mas hoje eu não
estou feliz. Talvez não esteja por mais alguns meses ou até anos.
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