A VIDA NÃO TÁ FÁCIL NÃO, MEU PARCEIRO – 08/2022
"A vida não tá fácil não, meu parceiro!" ele me
disse. Ele, o rapaz que pediu pra olhar meu carro enquanto eu ia na padaria
buscar pão e coca cola.
Pra mim não tava fácil. Mas tava melhor do que pra ele.
"Pode olhar chefe, mas é pra olhar mesmo ein, quando
voltar quero você aqui do lado do carro." respondi autorizando ele olhar o
carro. Não que alguém precise de alguma autorização pra olhar um carro na rua,
mas eu sabia que se dissesse não, ele provavelmente iria riscar meu carro. E ao
invés de gastar algumas moedas, gastaria uma nota pra fazer a pintura.
Sim, a vida é dura. E injusta pra caralho.
Enquanto isso, literalmente atrás do meu carro, um executivo
estacionava uma Evoque das novas, descia muito bem vestido e acompanhado de uma
loira de um metro e setenta, peituda e bunduda, que saia da porta que dá no
banco do passageiro.
Talvez eu fosse "trocado" por eles. Rapaz desistiu
do meu pra olhar o carro deles. Ou vai olhar os dois. Tanto faz.
Foda-se.
A vida não tá fácil não.
Esses caras de Evoque, enquanto na mesma rua, na esquina, em
frente a farmácia, perto da padaria, um senhor de uns 50 e poucos anos, bem
imundo, carrega a vida toda dele dentro de um saco preto de lixo de 100 litros.
Tudo o que o cara tem está ali: sucata, peças de roupas rasgadas, restos de
comida de lixeira, carteira com os documentos (se ele tiver sorte) e meia dúzia
de moedas de 10 centavos. Ele frequentemente vem pedir comida na padaria, ou
pão velho, quando já é noite, bem tarde. Muitas vezes pode ser a única refeição
dele.
Foda meu parceiro.
Foda.
Não existe humanidade. Nunca existiu. Pega aí a porra do
COVID, no começo lotado de nego no albergue fazendo sopa, doando roupa, a porra
toda. Deu três meses todo mundo voltou a olhar pro próprio umbigo. E pau no cu
do resto.
Não quero parecer pessimista, muito menos sou a madre
Teresa, mas é isso aí que o mundo me mostra.
Eu reclamo aqui, em textos vazios, sem sentido ou propósito
pra não parar num manicômio ou numa psiquiatria. Falo com o mundo e a resposta
absoluta que tenho é total silêncio. Ninguém tem solução pra quase nada. Eu
também não tenho.
A vida não tá fácil não, meu parceiro!!
Quando mais novo eu ia pra escola de pijama, ficava sentado
no fundo da sala sem conversar com ninguém, lia um livro por semana e tirava
péssimas notas. Os professores chegaram a me classificar como sociopata, o que
seria bom, por que eu teria um motivo patológico pra ser um bilu tetéia da
cuca.
Alguns anos e alguns psicólogos depois chegaram à conclusão
que eu era apenas "reservado".
Grandes merdas.
Me examinaram por medo de eu entrar armado na sala e matar
primeiro a professora, e depois o pessoal popular. Bem padrãozinho. Bota cano
alto, coturno, óculos escuros. A porra toda.
Nunca me passou na mente isso.
Tudo o que eu pensava era na eternidade que ainda faltava
pra eu continuar vivo, nesse lugar. Na época eu tinha 10 anos e imaginava que
faltava muito pra morrer e sumir dali.
Hoje tô com 32 e tudo parece (ainda) interminável.
Enganei a morte quando tentei por oito vezes me matar sem
sucesso, enganei a morte de novo quando usei todo tipo de substância e não tive
nem um começo de overdose. E agora tô pagando penitência empurrando uma pedra
morro acima e depois assistindo maravilhado ela rolar morro abaixo,
simplesmente pelo prazer que vou ter pra empurrar ela de novo pra cima.
Voltando pra escola, na verdade pra fora dela, eu com 10
anos, um dia inteiro perdido com pessoas que eu não gostava, lendo livros e
tirando notas baixas, voltando pra casa e meu pai não estava lá, minha mãe
estava bêbada e meu irmão mais velho usando droga na rua. Me trancava no quarto
e ficava olhando pro teto. Colocava Radiohead pra tocar e pensava em me matar.
Colocar uma bala na cabeça e acabar com tudo. Antecipar a demora que a
eternidade teria.
Voltava pros livros buscando respostas e na verdade adquiria
mais dúvidas.
Nada fazia sentido.
Não havia humanidade naquela época. Não há ainda, no dia de
hoje.
Vamos lá, pra fechar da pior forma possível o pior texto que
escrevi em anos.
Só mais um respiro.
Cheguei à conclusão aos meus 10 anos de idade que a vida não
tinha sentido nenhum. Hoje, depois de muito tentar achar o sentido, entendi que
o sentido da vida é justamente buscar um sentido pra ela. Vou, inevitavelmente,
buscar isso até o dia que eu morrer. Não por vontade. Só por instinto. Nada
além do mais puro, e animalesco instinto.
Ah sim, e no dia da padaria o rapaz não riscou meu carro.
Tirei uma nota de cinco conto da carteira e dei na mão dele. Ele amassou bem
forte essa nota e disse olhando bem fundo nos meus olhos "Caralho meu
patrão, Deus te abençoe. Ganhei a porra do dia." E talvez isso tenha sido
o ponto alto da minha semana.
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