CAMISA PÓLO – 06/2018

Tem gente que espera de verdade que eu seja um cara bonzinho e correto 24h do meu dia, como se o meu café da manhã ou calças jeans de 120 reais que eu tenho comprado dependa disso. Mal sabem elas que mesmo eu sendo um sujeito altamente escroto eu ainda consigo me virar. Não que eu tenha ou queira me tornar aquele monstro insensível de antes, a questão é que eu tenho que sempre estar atento para as pessoas que têm uma alta necessidade de pisar em mim. Não sei o que se passa na cabeça delas, e não é minha função saber. A única coisa que eu tenho que me preocupar é me manter emocionalmente bem, para que a minha família doente tenha alguém pra segurar todas as picas enormes que eles não têm conseguido segurar. E por mim de boa. Não sinto nem falta e nem necessidade. Tanto faz, de verdade. Hoje sou uma pessoa muito mais segura de mim e ciente dos meus defeitos e limitações. Quando venho recorrer às teclas, quando sento de frente com um computador, eu consigo desenrolar muito bem qualquer assunto, sendo assim, eu consigo através das palavras sair de qualquer buraco. Seja algum que eu tenha entrado ou seja algum que entraram por mim. Minha capacidade de fazer merda é diretamente proporcional à minha capacidade de sair da merda.

Entenderam?

Não?

Eu também não faço questão disso. De que as pessoas entendam. A minha função é simplesmente bater nas teclas o bastante para que eu me sinta bem comigo mesmo. Preciso estar em uma paz o suficiente para que eu me olhe no espelho e sinta algum orgulho por quem eu sou ou por quem eu tenho me tornado. E digo mais. Na maioria do tempo eu não sinto esse orgulho, e se vocês querem saber a verdade, eu adoto uma postura de durão quando tenho trinta mil barulhos dentro de mim implorando por um ouvido humano para ser derramado. Cansado de que eu recorra às teclas. Mas não adianta. As teclas são as minhas amigas, os textos sempre irão me salvar e enquanto o mundo for mundo, Carlos Reis sempre vai existir, pode estar muitas vezes recluso, mas eu sei que ele está ali. Não me orgulho muito da forma como vivo, mas sinto-me bem para aceitar essa forma.

Sexta a tarde e o sol rachando. Eu de camisa polo batendo perna pelo centro da cidade a procura de emprego. Eu tenho 19 anos e uma casa pra sustentar. A minha esposa disse que vai me colocar pra fora se eu continuar bebendo como bebo, diariamente, e não tomar um rumo. Disse estar cansada da forma como eu simplesmente desisti dela e de todo possível amor que um dia eu talvez tenha sentido.

Sigo com a polo e os currículos embaixo do braço, sendo rejeitado não só pela minha mulher, mas também pelas empresas que olham em mim um sujeito talvez genial demais, talvez tão genial que não consegue organizar uma linha sóbria de pensamento. São várias teorias soltas, como balões, bagunçadas dentro de uma mente "brilhante". Entre aspas porque brilhante mesmo é o Neymar, que ganha milhões e come a Marquezine. Vários filósofos que eu li diziam que eu ia acabar desse jeito: cabelos caindo, barriga pretuberante, barba por fazer e descrença na humanidade. Minha mulher me disse que eu peguei muito pesado em ler Nietzsche e Schopp, mas o que eu posso fazer se acho Shakespeare piegas demais? Se Paulo Coelho fica punhetando assuntos sem expor nada de concreto? O que eu posso fazer se eu conheci dentro da literatura um tal de Fante que bebe todos os dias, se relaciona com mulheres que não amam ele, vive em subempregos e consegue ser poético em suas linhas tortas dentro de livros muito bem escritos? Hoje eu não sou um Deus da literatura, e talvez nunca seja. Mas me conforta pensar que enquanto todas essas empresas me rejeitam, os textos me abraçam. Meus leitores me abraçam e se sentem bem de ler meus textos. E isso importa pra caralho.

Eu de polo, com 19 anos de idade, sendo rejeitado por várias empresas no centro de SP. Terra do caos, da desgraça e da solidão.

Desisto da busca quase uma hora depois, paro num bar pra tomar uma cerveja Kaiser quente e duas doses de Rabo de Galo. Apoio o cotovelo no balcão e decido que só saio dali quando meu dinheiro acabar. Tenho bilhete único pro metrô e com alguma sorte conseguirei chegar em casa ainda hoje. Vou ouvir um sermão da minha mulher, dormir na sala e no dia seguinte tudo estará resolvido. Assim espero mesmo sabendo que estou mentindo pra mim mesmo. Me auto sabotar é meu esporte preferido. Recorro aos meus bolsos e acho 22 reais. E mais 1,30 de moedas. Dinheiro o bastante. Fico por ali olhando as pessoas, bebendo e pensando o que me levou até ali. Pensando que eu tenho capacidade pra ser muito mais do que sou, mas que eu sou covarde demais pra assumir tantas responsabilidades. Torno a beber e por um momento esqueço que estou ali por opção minha, e que, se eu não arrumo emprego, não é por falta de vagas, mas sim pela minha única e especial falta de competência para lidar com coisas simples da vida. O bar não está muito agitado. Um sujeito bebe sozinho, outro perto do banheiro também sozinho. Uma senhora ouve Amado Batista apoiada na jukebox enquanto chora e toma catuaba. O tipo de ambiente para fracassados. Que estavam usando uma camisa polo para tentar maquiar a falta de habilidade, que mascaram a própria vida para tentar esquecer que eles têm uma.

Eu saio dali bêbado, e com umas duas doses de 51 colocadas estrategicamente numa garrafa de 500ml de água que pedi pra uma pessoa que passava na rua. Fico sentado no largo do Anhangabaú pensando onde a boa sorte foi parar. Pensando no que direi dessa vez pra minha mulher. Como poderei me justificar. O aluguel está pra vencer daqui 8 dias e eu ainda não sei onde vou arrumar o dinheiro. Talvez as coisas não deviam ser desse jeito. Aonde a boa sorte foi parar?

 

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