CRISE? QUE CRISE? – 10/2022
Esse aqui vai ficar um pouco maior do que o normal, e o
motivo não é por eu ser um cara bom pra escrever (também não tenho essa de
"bloqueio criativo", eu escrevo sempre que eu quero), mas
simplesmente por que tô bem fudido da cabecinha e quanto mais fudido, mais
escrevo. Por isso tiveram épocas em que escrevia 5 contos de 15 páginas cada um
numa semana. Motivo: completamente fudido mentalmente, emocionalmente e claro,
espiritualmente.
Sendo assim, segue o relato.
A maior parte do tempo eu tenho sim reclamado de barriga
cheia, porém me reservo ao direito de continuar reclamando. É grátis, é
saudável pra cachola e me deixa mais leve de uma certa forma.
Já dizia Raulzito "Eu também vou reclamar!"
Há anos atrás eu achava que com cinco pó no bolso e uma
garrafa de vodka Balalaika nas mãos eu poderia vencer QUALQUER COISA que
aparecesse na minha frente.
E venci muita coisa assim: divórcio, desemprego, fome,
contas atrasadas, problemas familiares, vontade de chorar, vontade de se matar,
solidão, unha encravada, calvície, cabelos brancos, dor de dente, dificuldade
de me relacionar com mulheres (qualquer uma que fosse), fígado doendo, cuecas
furadas e outras coisas mais. Hoje já não tenho mais isso, não tenho mais cinco
pó no bolso e muito menos a minha melhor amiga de anos, a garrafa. Tenho que
encarar tudo de cara limpa, e, sem papinho furado, tá sendo uma merda.
Eu me considero um suicida natural. Sempre foi natural pra
mim pensar em suicidio, sempre pensei nisso desde os meus sete anos de idade,
que foi quando descobri e entendi o que era: uma pessoa tirar a própria vida. E
de lá pra cá, penso nisso direto, todas as semanas, dependendo todos os dias.
Tentei algumas vezes (me matar) e de 2015 pra cá desisti de tentar, mas sempre
idealizei como sendo uma coisa libertadora, como se fosse, objetivamente, tirar
a minha dor por completo. Porém, sempre tive um "controle" sobre
isso, tinham vezes que ficava uns dias sem pensar, aí voltava a pensar e tô
aqui até hoje vivo. O problema é que de umas semanas pra cá, eu tô pensando
infinitamente mais, e estou achando um negócio ainda mais libertador do que
sempre achei.
Pra mim é muito natural. Tô no ônibus, pensando em me matar.
Tô no trabalho, paro do nada e penso em me matar. Tô no shopping andando,
pensando em me matar, o rolê todo. Já houveram fases assim, mas fazia tempo que
tava mais controlado. E agora mais isso. E novamente digo, motivo NENHUM eu
tenho pra pensar assim, minha vida é confortável pra caralho se eu considerar
90% dos brasileiros. E por isso que esse tipo de coisa eu não fico falando na
padaria com o colega de trabalho enquanto a gente toma um café. Por que acho
besteira demais pra encher a cabeça de um cara que possivelmente tá bem mais
fudido que eu.
Mas a literatura sempre me salvou por isso, aqui eu posso
somente jogar as palavras no bloco de notas, fazer as frases do jeito que eu
quiser e com a mensagem que eu quiser. E que se foda o restante.
Literatura de bueiro, de tantos heróis que conheci, os que
ficaram ricos e os que nunca foram publicados, mas que eu sempre lia na
internet os textos mais sujos e cruéis possíveis. Destes, a maioria hoje casou
e teve filho, tem bons empregos e escovam os dentes todos os dias, escrevem
quase nada e deixaram de ser durões, largaram a bebida e as carreiras de
farinha, aceitaram que a ordem natural das coisas é o contrário do que eles
pregavam. Eu os respeito mesmo assim, quero deixar claro. Várias vezes, eu sozinho
num quarto escuro, com uma garrafa numa mão e uma nota enrolada na outra, ia
ler os textos deles e isso evitava de eu tentar uma besteira. Evitou que eu
tentasse me matar VÁRIAS vezes. Me senti acolhido e conectado quando os li. E
ainda os releio, quando necessário.
Mas agora voltando pra mim um pouquinho.
Tive uma crise de ansiedade fudida nessa última semana. Eu
não sou diagnóstico com ansiedade generalizada, e não costumo ter crises. Sou
um esfarelado mental porém sigo sob controle boa parte do tempo. Mas essa
semana tive falta de ar, arritmia, dor de cabeça que não passava, insônia,
tontura, e, como sempre, vontade de morrer. Num dos dias eu me auto mediquei
com um remédio pra ansiedade, e consegui dormir bem. Dia seguinte acordei com
aquela sensação de estar "chapado". Fiquei a manhã toda assim. E foi
do caralho. Me lembrei de quando eu começava a beber 9h da manhã e ia trabalhar
assim, sem preocupação nenhuma. Completamente aéreo das ideias.
Mas eu tenho que tomar cuidado. Por isso não passo com
psiquiatra nenhum. Eu sou compulsivo. Uma época que tava tentando parar com a
garrafa, Dr me receitou uns diazepams que era pra tomar só a noite. Mas claro
que eu andava com aquela porra no bolso da bermuda, tomava um sempre que o
efeito de estar aéreo passava. Fiquei uma semana assim, depois voltei pra
garrafa.
"Como uma pessoa descontrolada vai conseguir tomar um
remédio controlado?" Me perguntei depois que o efeito de estar aéreo
passou.
Nunca escolhi droga nenhuma, eu usei de tudo. O que aparecia
na minha frente, eu tomava. Sem perguntar o que aconteceria se eu tomasse. Isso
aí é inconsequência pura, e inconsequência sempre foi meu nome do meio.
Péssimas escolhas me trouxeram onde estou, que é bom pra
caralho ainda perto do que já foi um dia. E tô tentando encarar de cara limpa
essa merda toda. Nem sempre eu tenho emocional pra isso. Tenho tentado chorar
pra ver se ajuda, mas por enquanto tô devagar.
Levei minha mãe no médico sexta feira apenas para fazer
exames. Assim que encontrei ela, ela me disse que tava com crise de ansiedade.
Porra. Família fudida do caralho. Ligamos pra minha vó e ela disse pra tomar
água com açúcar. Puta merda, jamais pensaria nisso. Gente mais velha é um poço
de sabedoria mesmo. Deu certo pra minha velha. Próxima crise minha vou fazer
isso, vai que funciona.
Quanto ao levar a velha no médico, não queria. Mas tô
tentando ser um bom filho. Ela já foi filha da puta o bastante comigo, e eu o
bastante com ela. Chega. Estamos ficando velhos. Ela vai morrer logo mais e
todas essas brigas serão esquecidas completamente. O passado deve sim ficar no
passado, depois de absorvemos as lições necessárias, remoer só faz doer mais.
Não vale a pena.
O fim está próximo e eu posso morrer a qualquer momento.
Estou sentindo isso. E enquanto escrevo essas palavras esboço um sorriso no
rosto. O que me faz seguir em frente é a certeza de que tudo isso vai acabar um
dia.
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