DAMA DE VERMELHO – 08/2018

carregando este fardo
pesado pra caralho
num dia da semana
qualquer
terça ou quinta
não sei exatamente
e na realidade
tanto faz
ou tanto fez
tem sofrimentos pra todos os gostos
e responsabilidades de todos os tipos
e um jeito frio de lidar
que é só meu
como se eu não achasse
as outras pessoas necessárias
como se eu fosse um monstro insensível
que nem consegue mais
dançar de samba canção ao som de Mutantes
ou que não fala mais pra própria mãe que a ama
talvez lidando com os problemas de uma maneira
mecânica demais
sendo o dono da razão
estando sempre certo
mesmo quando está errado
trabalhando minha falta de querer
e me obrigando a ser uma pessoa melhor
o homem de bem que existe dentro de mim
não jogando meus relacionamentos pela janela
não vomitando mais pela manhã por causa de ressaca
fazendo estruturas sólidas pra ter propriedade
pra poder contestar o que me interessar contestar
hoje é o dia em que
danço com uma dama
ela vem de vermelho clichê
vestido longo e costas em X
decote a mostra e toda a safadeza exposta
e ela me olha como se eu fosse um objetivo
e não um objeto
como se eu fosse Deus
e não um mero mortal
como se eu fosse escolhido pra estar ao lado dela
mesmo que, no fundo, eu sei que ela tem sido só sarcástica por todos esses anos
são muitas lutas e as rugas não escondem mais
meu sofrimento
como se o caminho fosse
estar com essa dama
de vermelho
feita de insegurança e ansiedade
alimentada por saudosismo e incertezas
seu olhar penetra meu íntimo e me torna talvez até
poeta
mesmo depois de todos esses anos
ela permite me deixar fazer o que mais tenho tesão:
escrita
como se existisse algum talento
como se a mágica fosse dom
sabendo que Deus segue cuspindo na minha cara
dia ou outro
sabendo que os corações permanecem gelados
mesmo que eu insista em torná-los mais quentes
mesmo quando não necessariamente quero que sejam mais quentes
mas desejando pois essa parece ser a melhor opção
falando nessa dama de vermelho
ela esteve comigo na minha última sessão
com a minha terapeuta
que me perguntou se eu queria ser uma pessoa melhor
e nessa hora eu fiquei sem resposta
porque não tenho certeza disso
porque na minha cabeça, o Jim Morrison escrevendo como mataria sua família em "The End"
faz total sentido
e eu permaneço com a dama de vermelho
ela segue no meu encalço
a dama de vermelho atende pelo nome de Loucura
e ela sempre quis estar ao meu lado
eu sempre estive ao lado dela
unha e carne
inseparáveis
como se não existisse eu sem ela
como se ela não existisse sem mim
tornando tudo mais doloroso do que realmente é
sozinho e sem vontade
de assoprar as nuvens da melancolia pra longe
não existe mais porque mentir
ou tentar enganar
o gato preto rasteja sem alma
dentro de um corpo sem vida
enquanto isso o ar ainda circula
sem muita perspectiva de
tempo

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