DUAS PROSTITUTAS – 02/2015
duas prostitutas caminham em minha direção
olho pros lados e não sei como fui parar ali
(sei que estou num puteiro, quero dizer,
os sofás e as luzes e os clientes com caras de fracassados
eu sou um deles, sou fracassado também)
tudo o que lembro é que estava bebendo com alguns amigos
e provavelmente, eles me largaram
ok,
não sou o cara mais fácil de lidar quando toma vodka
possivelmente, eu devo ter falado merda na rua, chutado garrafas,
mostrado meu pinto, essas coisas
como da vez em que eu deitei no meio da rua Augusta, com uma garrafa na
mão e gritando
“EU SOU SEU DEUS, EU SOU TUDO QUE EU QUISER SER... CARALHO”
e os carros buzinando e eu nem aí pra
porra nenhuma
são situações complicadas de lidar,
não os culpo por terem me abandonado
acordar de um apagão é foda
é como ser teletransportado pra um lugar desconhecido
e você tem que saber o que fazer
e rápido
mais importante:
checo se estou com minha carteira e meu celular
estão aqui
ótimo
quatro ligações perdidas
Angélica
atual esposa
“me fodi”, penso, mas sei que ela está bem
bem puta comigo, mas bem em casa
tudo bem, estou vivo, aparentemente bem
uma dor de leve na canela
(fui chutar um poste e dei de canela nele
típico do Carlos, típico)
passo minha língua pelos meus dentes
estão todos aqui, aparentemente
checo os bolsos pra ver se acho drogas
nada
“ufa, melhor assim”,
apesar que fazer merda, nessa altura, seria até que bom
“o que é um peido pra quem tá cagado, ahn?”
penso
duas prostitutas vem em minha direção
apatia nos olhos
uma feia, muito feia
outra comível, belo corpo, apesar da apatia dos olhos
a feia me parece peruana, eu não sei
a comível tá mais pra asiática com portuguesa
mas as duas tem uma melancolia francesa
eu não sei,
posso as imaginar fumando cigarros e falando dos caras que agüentam
durante a noite
aqueles pintos feios, pintos mesmos com caras de cansados
homens que não se cuidam, que tem bafo de merda
que chupam cervejas e trabalham em serviços pesados
e fedem como porcos, e depois deitam com elas
e elas do lado de fora, fumando cigarros, pensando na vida
e nas picas dos outros
se elas estão vindo a mim, de duas uma:
ou eu pareço rico, ou sou um cliente até que razoável
quero dizer, ao menos todos os meus dentes estão na boca
uma senta de um lado, a outra do outro, e me passam cantadas manjadas
“minha nossa, tu é lindo, que gostoso...
casado? melhor ainda, faço o que tua esposa não faz”
a gente bate papo, elas me pedem drinks
vinte reais por uma dose de vodka nacional?
claro! desce logo três
e a gente bebe e ri
e por um momento, não me sinto tão traste
essas mulheres fazem a gente se sentir
o cara mais foda do universo
olho minha carteira, o dinheiro está escasso
um programa com elas, me foderia
quero dizer
Angélica tem minha senha do banco
a gente é casado, oras!
não temos segredos
(e com certeza, vou chegar bêbado em casa e fedendo a puta
portanto, esse ato falho será exposto)
sabem,
uma coisa é fazer mal a mim mesmo, e sempre fiz de todas as formas
possíveis
mas quando eu começo a fazer mal a outras pessoas, parece que me sinto
mal
eu não tenho um bom coração, é que simplesmente não me parece justo
justo com ela e nem com ninguém
me despeço das duas putas
um aperto de mão na feia
um beijo no rosto da comível
pego as três doses de vodka
coloco elas todas num só copo de plástico
saio de lá sem saber onde estou
sem saber como cheguei ali
sem saber como vou sair dali
e sem perspectiva alguma
de me tornar um homem
melhor
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