ERAM BONS OS ANOS EM QUE ALGUMA COISA EXISTIA DENTRO DE MIM – 11/2018
Eu acredito fielmente na deterioração do ser humano. Nada
desse papinho furado que diz "envelhecer faz bem". Nada de dizer que
a maturidade trás sabedoria, e consequentemente discernimento e serenidade. Eu
tenho certeza absoluta que envelhecer é sempre uma merda. O fato é que o mundo
é um lugar terrível de se ficar, e quanto mais os anos passam, mais a gente vê
o quanto esse lugar é terrível, e mais descrentes numa melhora vamos ficando.
Fora os traumas. Os bons e velhos traumas. Eles se acumulam, e raramente são
esquecidos. Sendo assim, a tendência é só aumentar, claro.
Recebi mensagem no meu WhatsApp essa semana, era um conhecido que tomava umas e outras comigo uns anos atrás.
"PAU DE ABELHA CHAMANDO CU DE MEL! PAU DE ABELHA CHAMANDO CU DE MEL!"
Olhei aquilo e não tive como conter o riso. "Que imbecil do caralho." Pensei.
"Fala gatão, tudo bem?" Efetivamente respondi.
"Estou bem, e você?"
"Bem também." Menti.
"E quando pega uma folga? Tá trabalhando direto faz uns dias já, né, seu pau no cu?"
"Batendo os 20 dias, 12h por dia de trabalho. Rumo aos 30."
"Assim vai acabar infartando, arrombado." ele disse, preocupado.
"Não se preocupe. Deixa meu CNPJ me matar. Vida de empresário é isso aí."
"Você tá muito desgostoso com a vida. Devia aproveitar ela mais."
"Quer que eu volte pra garrafa?"
"Não seria má ideia. Larga tudo aí, eu tenho onde ficarmos. Vamos voltar a VIVER, Carlos."
Carlos Reis, o imparável! O destruidor! O verdadeiro PAU NO FUNDO! O inconsequente, o inconformado, o degenerado! O homem que nunca teve medo da morte! Que desafiava as madrugadas subindo em favelas em busca de mais um pó! Ou que ficava bêbado demais e arrumava confusão em cima de confusão. Dezenas de adjetivos ainda não são capazes de dizer, de fato, o que foi Carlos Reis. Um verdadeiro furacão que levou tudo por onde passou.
Sinto falta desse cara, às vezes.
Achei que tava morto, por que eu mesmo matei ele várias vezes. Só que vaso ruim não quebra. Ele é essa pequena voz no fundo, bem no fundo, dizendo pra jogar tudo pro alto. Mas hoje não.
"Cara", esse meu amigo prosseguiu, "vamo num barzinho qualquer dia tomar uma coca cola."
"Meu irmão, eu vivo do trabalho pra casa e da casa pro trabalho. Fim de semana vou passar sábado e domingo na empresa trabalhando. Minha vida se tornou o que eu sempre repudiei. Mas não tenho pra onde correr."
"Por que isso?"
"Muitas contas a pagar."
"E antes, não tinha?"
"Tinha, só que eu nunca pagava porra nenhuma hahahaha"
"E o que te move hoje?"
"Não tenho a menor ideia."
Tudo é vazio. Somente um corpo vagando por aí. Sem vontade de olhar na cara de ninguém, sem vontade de conversar com ninguém, querendo apenas um lugar sossegado para se esconder por mais ou menos 42 dias. Ficar completamente sozinho. E depois disso, claro, botar fim em tudo. Botar um fim em tudo. Foram vividos 10 anos a 1000, mas viver 1000 anos a 10 não vai dar. O tédio é sufocante. Bom mesmo seria desligar o telefone, trancar portas e janelas e colocar todos os discos ao vivo do Grateful Dead que estão disponíveis no Spotify pra tocar. E se alguém perguntar de mim, dizer que morri. Ou melhor, dizer que comprei um barco, uma garrafa de whisky, adotei um cachorro e segui viagem ao redor do Globo. Como um sonho impossível. Como uma vontade real.
Houve um tempo em que existia alguém dentro do meu corpo. Esse alguém conseguia ser autêntico, se divertir, dar risada e ter uma vida normal. Foi uma época boa, eu tinha entre 14-16 anos, foram os anos pós infância traumática e antes do alcoolismo. Talvez os dois melhores anos de toda a minha vida. Hoje olham nos meus olhos e não vêem nada. Somente uma bolinha preta completamente oca.
"O que te faz levantar de manhã?" Ele prosseguiu.
"Contas a pagar, pessoas a cuidar e alguma força que não sei explicar."
Recebi mensagem no meu WhatsApp essa semana, era um conhecido que tomava umas e outras comigo uns anos atrás.
"PAU DE ABELHA CHAMANDO CU DE MEL! PAU DE ABELHA CHAMANDO CU DE MEL!"
Olhei aquilo e não tive como conter o riso. "Que imbecil do caralho." Pensei.
"Fala gatão, tudo bem?" Efetivamente respondi.
"Estou bem, e você?"
"Bem também." Menti.
"E quando pega uma folga? Tá trabalhando direto faz uns dias já, né, seu pau no cu?"
"Batendo os 20 dias, 12h por dia de trabalho. Rumo aos 30."
"Assim vai acabar infartando, arrombado." ele disse, preocupado.
"Não se preocupe. Deixa meu CNPJ me matar. Vida de empresário é isso aí."
"Você tá muito desgostoso com a vida. Devia aproveitar ela mais."
"Quer que eu volte pra garrafa?"
"Não seria má ideia. Larga tudo aí, eu tenho onde ficarmos. Vamos voltar a VIVER, Carlos."
Carlos Reis, o imparável! O destruidor! O verdadeiro PAU NO FUNDO! O inconsequente, o inconformado, o degenerado! O homem que nunca teve medo da morte! Que desafiava as madrugadas subindo em favelas em busca de mais um pó! Ou que ficava bêbado demais e arrumava confusão em cima de confusão. Dezenas de adjetivos ainda não são capazes de dizer, de fato, o que foi Carlos Reis. Um verdadeiro furacão que levou tudo por onde passou.
Sinto falta desse cara, às vezes.
Achei que tava morto, por que eu mesmo matei ele várias vezes. Só que vaso ruim não quebra. Ele é essa pequena voz no fundo, bem no fundo, dizendo pra jogar tudo pro alto. Mas hoje não.
"Cara", esse meu amigo prosseguiu, "vamo num barzinho qualquer dia tomar uma coca cola."
"Meu irmão, eu vivo do trabalho pra casa e da casa pro trabalho. Fim de semana vou passar sábado e domingo na empresa trabalhando. Minha vida se tornou o que eu sempre repudiei. Mas não tenho pra onde correr."
"Por que isso?"
"Muitas contas a pagar."
"E antes, não tinha?"
"Tinha, só que eu nunca pagava porra nenhuma hahahaha"
"E o que te move hoje?"
"Não tenho a menor ideia."
Tudo é vazio. Somente um corpo vagando por aí. Sem vontade de olhar na cara de ninguém, sem vontade de conversar com ninguém, querendo apenas um lugar sossegado para se esconder por mais ou menos 42 dias. Ficar completamente sozinho. E depois disso, claro, botar fim em tudo. Botar um fim em tudo. Foram vividos 10 anos a 1000, mas viver 1000 anos a 10 não vai dar. O tédio é sufocante. Bom mesmo seria desligar o telefone, trancar portas e janelas e colocar todos os discos ao vivo do Grateful Dead que estão disponíveis no Spotify pra tocar. E se alguém perguntar de mim, dizer que morri. Ou melhor, dizer que comprei um barco, uma garrafa de whisky, adotei um cachorro e segui viagem ao redor do Globo. Como um sonho impossível. Como uma vontade real.
Houve um tempo em que existia alguém dentro do meu corpo. Esse alguém conseguia ser autêntico, se divertir, dar risada e ter uma vida normal. Foi uma época boa, eu tinha entre 14-16 anos, foram os anos pós infância traumática e antes do alcoolismo. Talvez os dois melhores anos de toda a minha vida. Hoje olham nos meus olhos e não vêem nada. Somente uma bolinha preta completamente oca.
"O que te faz levantar de manhã?" Ele prosseguiu.
"Contas a pagar, pessoas a cuidar e alguma força que não sei explicar."
"Deus?"
"Acho que dá pra chamar de Deus. Já te disse que sigo a estratégia do meu pai né? Vou em todas as igrejas possíveis, algum Deus vai me ajudar."
"Falta Deus na sua vida. E cachaça."
"Eu não ia conseguir ter as duas coisas hoje." Respondi.
Carlos Reis respira forte em algum lugar ainda inalcançável.
"Acho que dá pra chamar de Deus. Já te disse que sigo a estratégia do meu pai né? Vou em todas as igrejas possíveis, algum Deus vai me ajudar."
"Falta Deus na sua vida. E cachaça."
"Eu não ia conseguir ter as duas coisas hoje." Respondi.
Carlos Reis respira forte em algum lugar ainda inalcançável.
Comentários
Postar um comentário