LEGADO – 06/2024

Não existirão heróis nem vilões no final da história. Tudo que restará, são as coisas que deixarei de legado. O meu legado.

Coço a barriga peluda e penso que inevitalmente estarei sozinho, e lidarei com meus problemas sozinho. Ninguém vai bater palma pra mim se eu for um grande fracasso. "Muita gente vive de forma medíocre, e está tudo bem." O psicólogo do meu amigo disse. Não meu amigo, não está tudo bem. A vida é uma só, você acha mesmo que vou aceitar uma vida medíocre? Depois que eu morrer, já era. Não terei outra chance. Minha única chance é agora. E esse ano eu já tô chegando nos 34. Eu vou piscar e já já tô com 50. E aí? O que eu fiz? Na real? Muito pouco. Fiz muito pouco até agora.

Fiquei anos da minha vida muito doidão, e essa parte aí não construí nada além de vagas lembranças de experiências boas e ruins. Então agora é isso, é recuperar o tempo perdido, meu amigo.

É, eu sei, tem muita gente da minha idade já estabilizado, comprando apartamento, trabalhando home office ganhando em dólar. Comprando carro zero. Eu sei disso, tô muito longe disso. Mas esse texto não é uma choradeira não, tô dizendo isso pra reafirmar que ninguém tem pena de mim, ninguém vai me abraçar e dizer "Olha só ele, coitadinho, ele não teve boas oportunidades na vida e agora tá tendo que correr em dobro". No mundo dos adultos não existe pena, só existe uma vontade de potência que transforma pessoas em animais dependendo da situação.

O mundo é um lugar tenebroso, meu amigo. Olho por olho, dente por dente. Não existe melhor ditado do que esse. Representa mais a humanidade do que qualquer baboseira oriental. No fim, inevitalmente, você estará sozinho, olhando para trás e pensando se teve uma existência boa ou ruim. E digo mais, se quiser chorar ou reclamar, você contrata um psicólogo que é um profissional pago pra isso. Ou vai pro colinho da mamãe ou do papai, por que eles sim te amam incondicionalmente. E os gatos e os cachorros. Os peixinhos, as tartarugas, os porquinhos da índia. Esses te amam incondicionalmente. O restante, é puro interesse. Implícito ou não, é interesse.

Vamos lá, agora pro real negócio desse texto.

Quando mais novo eu ficava responsabilizando as pessoas por tudo, principalmente pelos meus fracassos, emocionais e profissionais, e obviamente me fiz de vítima outras duzentas vezes. Uma criancinha birrenta dizendo que o mundo não era justo, e que tudo dava errado. Agora, mais velho, entendo que o mundo não é justo mesmo, tem gente que já nasce com muito mais oportunidades, mas isso faz parte. Se eu quero alguma coisa, cabe a mim correr atrás. Eu, somente EU, sou responsável por sair da minha existência medíocre. Mais ninguém. Ou eu simplesmente aceito a mediocridade e vivo assim até o final dos meus dias. Deixo como legado um fracassado preguiçoso irremediável, me enquadrando na maioria. E a maioria vive muito bem assim. Por que eu não?

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