MAIS UM FIM DE SEMANA PERFEITO – 10/2014
1.
Meus finais de semana estavam se baseando em beber sozinho.
Geralmente trabalhava pra caralho a semana toda, nadava, corria, meditava, eu
estava mesmo mudado, e isso não me incomodava em nada. Estava indo bem no meu
trabalho, a cada dia que passava eu era cobrado mais, estava exercendo funções
acima sem ganhar o dobro do salário que me era de direito, mas tudo bem, eu
estava feliz assim. Pois bem, aos fins de semana estava bebendo sozinho, estava
nessa altura com Clarisse, ela era insana e drogada, morava numa casa sem
mobília e tinha bom papo. Algumas vezes eu dormia na casa dela, nossa relação
era boa, muito boa eu diria. Era simples assim: quando não bebiamos,
trepavamos, e quando não trepavamos, bebiamos, era uma boa mulher. Mas nem
sempre eu aparecia lá, tinham dias em que eu estava estressado e cansado, meu
trabalho me sugava muito mais do que eu tinha pra dar, e aí eu pegava um fardo
de cerveja e ficava bebendo de leve na sexta ou no sábado, ou em ambos os dias,
pegava minha latinha de cerveja, me reclinava na poltrona do meu quarto,
colocava Cartola, Jobim ou Sinatra pra tocar e ficava por ali mesmo, bebendo de
leve e ouvindo boa música. A vida estava em paz, e eu torcia todos os dias pra
que ela se mantivesse assim.
2.
Naquele fim de semana eu iria trabalhar somente no domingo à
noite, estava de folga sábado, e domingo eu entraria somente às 20h. Teria
praticamente dois dias de folga. Na sexta pela manhã passei no mercado, comprei
dois fardos de cerveja, um pacote de amendoim e deixei em casa. Trabalhei,
cheguei do trabalho. Coloquei o álbum Matita Perê do Jobim, alguns amendoins
num potinho, abri a primeira latinha de cerveja e tentei relaxar os ombros. Meu
telefone tocou.
- Oi Clarisse - eu disse.
- Oi Carlos! Tudo bem?
- Tudo sim, e você?
- Também... E aí, tá fazendo o que de bom nessa sexta à
noite?
- Bebendo de leve e ouvindo Jobim - eu disse, aumentando o
som pra ela ouvir o gênio. Nessa hora tocava Águas de Março. - E por aí?
- Nada de bom, só bebendo mesmo. Você viu o Aécio no debate,
como ele foi escroto!?
- Clarisse, escute. Eu não vi o debate - disse, bebericando
minha cerveja - sabe que não ligo pra política, meu voto é nulo, mas sabe
também que eu não gosto da Dilma, e que se fosse votar em alguém seria no
Aécio. Mas enfim, se lembra que eu te disse pra não falarmos de política ou
feminismo? Estamos bem, mesmo com algumas discordâncias, pra que fuder com
tudo?
- Não entendo você, Carlos. Você nem é rico, não entendo
como apoia um cheirador que bate em mulher.
- Bom, ele cheirar acho tranquilo, os grandes líderes se
drogam e ninguém fala nada. A diferença é que com ele, a merda foi parar no
ventilador. E ele errou de bater em mulher... mas caralhos, chega disso.
- Ok. E aí, você vem aqui amanhã?
- Não vou não. Tô cansado e estressado e irritado. Deu um
monte de merda no trabalho essa semana, preciso ficar sozinho. Sozinho não, na companhia
de Jobim! - aumentei de novo o som, agora tocava Ana Luiza.
- Porra. I miss you.
- Miss you too. Mas tô cansado demais.
- Vai trabalhar esse fim de semana?
- Entro às 20h do domingo.
- Dorme aqui de domingo pra segunda. Podemos almoçar juntos
na segunda. Cozinho pra você.
- Hahaha, o feminismo vai te odiar por isso, cê sabe né?
- Somos amigos, gosto de cozinhar pros meus amigos. Minha
comida é boa, para de encher o saco.
- Ok, até domingo estou recuperado. Estarei aí.
- Ótimo, Carlos. Curta seu fim de semana solitário. Tente
ver pessoas.
- Obrigado, você também. Um beijo.
- Beijos.
Desliguei o celular e prossegui bebendo e pensando na vida.
Um colega meu de trampo havia comprado um carro, eu e ele ganhávamos a mesma
coisa, meu pai vivia me enchendo o saco pra pegar um carro, mas eu simplesmente
não via necessidade, e por isso era julgado. Ele tinha pego um carro popular, e
vivia reclamando no trabalho que estava sem dinheiro, que tinha que pagar
parcela mensal, seguro, manutenção, gasolina, sim, ele basicamente trabalhava
pra pagar o carro. "Que idiotice", eu pensava. Eu me julgava um cara
rico, já bebi vodka e cerveja das mais baratas, agora eu bebia com qualidade,
poderia ir pras noitadas se quisesse, poderia comprar roupas da moda e, enfim,
várias coisas, mas gostava de viver com simplicidade. Era meu jeito. Prossegui
bebendo de leve até pegar no sono.
3.
Sábado acordei tarde. Coloquei Cartola no som e abri mais
uma latinha de cerveja. Meu telefone tocou lá pelas 13h.
- Fala sujão - atendi, sabendo que era Luís do outro lado da
linha.
- Fala seu puto. De boa?
- Sim cara. E aí?
- Também. Quais os planos pro fim de semana, meu chapa?
- TÁ TOCANDO CARTOLA! - eu berrei e aumentei o som, nesse
momento tocava As Rosas não Falam - estou bebendo de leve e ouvindo boa música.
E você?
- Consegui liberdade da minha namorada. Para de ouvir esse
merda e vamos sair pra beber!
- Não fale assim do gênio! E não me ofenda, não sou sua
namorada pra você ficar tratando igual lixo!
- Mas Carlos, eu a trato bem. E te trato melhor ainda. Vamos
sair, carai. Ou você tá com alguma foda ai?
- Claro que não, né mano.
- Você se ocupa bem com as mulheres, por isso a pergunta.
- Elas que se ocupam comigo, depois somem e eu não entendo
nada.
- Para com esse papo melancólico. Como estou bonzinho hoje,
vou colar na sua casa mais tarde. Pode ser?
- Sim, mas traga cerveja. Ainda tenho bastante amendoim, mas
não sei se a cerveja durará.
- Tudo bem, gato. Precisamos botar o papo em dia mesmo.
- Ok man. Que horas você vem?
- Vou tomar um banho aqui, passar no mercado e vou. Acho que
no máximo umas 15h tô ai. Beleza?
- Sim - eu disse golando a breja - até mais tarde. Beijos,
gatchenho.
- Beijos, meu chapa.
Desliguei o telefone e prossegui bebendo e pensando. Gosto
disso: beber sozinho e pensar na vida. Tentei virar fumante só por causa disso.
Acender um cigarro, virar uma cerveja e pensar na vida. Deve ser algo bem foda.
Ainda bem que não fumo, isso foderia minha natação. Enfim, pensava na vida. Eu
estava bem, aliás, muito bem, mas até quando isso duraria? Precisava de planos,
precisava investir meu dinheiro em algum curso, alguma coisa, sei lá. Já tinha
uma boa grana guardada, mas não sabia ainda o que fazer com ela. Eu estava
aproveitando o lado bom da vida. Havia me fodido, havia me fodido ao ponto do
meu fígado chorar, bebia vodka barata e não tinha mulher, cheguei ao ponto de
mandar tudo se foder, quase morri, mas agora estava bem e feliz. Queria curtir
a juventude que nunca pude curtir. Ou estava casado, ou estava sem dinheiro, ou
estava trabalhando demais, ou era tudo isso junto... Agora eu tinha encontrado
um equilíbrio em tudo, e por isso estava aproveitando. Perdi alguns amigos por
causa de mulher, quase perdi um irmão (não é de sangue, mas é meu chapa), por
causa de um lance com uma ex-namorada vadia minha, mas perdoei a merda que ele
fez. Aquela vadia não valia nada, ele sim me ajudou na pior fase da minha vida.
"Maycon, foda-se o que houve. Não vou mais deixar vadias me separar dos
meus amigos. Tammie está tendo o que merece agora, e só me resta ter pena do
atual namorado dela", pensei como se ensaiasse um discurso pra falar pra
ele. Nossa, divaguei demais! Bebi mais um pouco quando a campainha tocou.
4.
Levantei da poltrona, lógico que levei minha latinha de
cerveja, abri a porta feliz e entusiasmado. Saudades desse puto desse Luís!
- E aí, seu merda! - eu disse, apertando a mão e dando um
abraço e um beijo no rosto (sempre fazemos isso, se você julga que pelo fato de
eu beijar ele no rosto eu sou gay, foda-se)
- Fala, seu alcoólatra de merda!
- Ex-alcoólatra! - eu retifiquei ele
- Agora você tem classe, a merda não fede tanto, mas ainda é
merda.
- Hahaha, entra aí, sujão.
- Trouxe cervejas!
- Ótimo! - respondi.
Fomos até a cozinha, peguei uma latinha pra ele e outra pra
mim, porque a minha já estava no final. Aproveitei e coloquei a cerveja dele
pra gelar. Ficamos na sala. Coloquei Los Hermanos pra tocar, o álbum era
Ventura.
- Você sempre com mau gosto, né seu bosta? - ele disse,
dando uma golada grande da cerveja.
- Vai se fuder, já te falei hoje que não sou uma das suas
vadias. Me trate bem ou não lhe darei sexo mais tarde hahahaha
- Ok mano, que se foda.
(Adendo: curioso isso que se dá nas relações entre amigos
homens. Um xinga o outro, mas existe um carinho desgraçado nisso. Esse puto
esteve comigo na época da Balalaika e em que eu não tinha dinheiro pra comer
pão francês. Agora estava namorando, claro que ele namorava uma mulher careta e
quieta, mas não importava, ele estava feliz e eu também, por ele. Foda-se o
adendo, só queria dizer que é bizarro a gente se xingar e ser amigos. Coisa de
homem, sabe como é. Se Clarisse me ouvisse dizendo isso, me chamaria de
opressor).
- Mas me fala aí, seu merda, quais são as novidades? - ele
perguntou, bebendo sua cerveja.
- Cara... - pensei, dando uma golada na cerveja - tá tudo
tão... bem. Não sei dizer. Acho que me sinto em paz demais. Sabe quando as
coisas andam?
- Tô ligado, cara. Que ótimo. Era uma merda te ver antes.
Fico feliz que isso esteja acontecendo. E o trabalho?
- Bom, rola algumas vezes um estresse aqui e ali, mas tá
super de boa. A grana é alta, a responsa é grande, mas o povo é gente fina e
meu chefe é bacana. E o cursinho?
- Cara, estou estudando horrores. Yumi me ajuda muito (Yumi
era a namorada asiática dele), uma vez que ela já está fazendo medicina. Acho
que esse ano eu entro na porra da faculdade. Tô focado em entrar na USP em
medicina.
- Cê vai entrar, man. Sei disso. Você é inteligente pra
caralho. Relaxa. Alguma hora as coisas acontecem. Olhe pra mim e veja o exemplo
vivo de que o fundo do poço pode ser usado como trampolim.
- Cara, verdade - ele disse bebendo mais cerveja - mas e as
namoradas?
- Hahaha - ri e matei minha breja. Abri a outra latinha,
bebi uma longa talagada. Pedi um momento, dei outra talagada imensa, sobrou
quase nada da latinha. - man, não namoro, e você sabe o porque.
- Sei nada. Sei que volta e meia aparece mulher, mas você
não engata com nenhuma delas.
- Sim, eu sou exigente horrores. Uma mulher pra ficar comigo
tem que ser muito parecida com a minha pessoa, e geralmente encontro ou oito ou
oitenta. Ou é bêbada demais ou certinha demais. Acho que namoro não vai
acontecer tão cedo.
- Para de ser tão amargo - ele disse, matando sua cerveja -
você tem que tentar. Para de ser exigente.
- Não é questão de exigência - eu disse, matando minha
cerveja - é outra coisa. Quer mais uma latinha?
- Claro!
Fui na cozinha rapidamente pegar mais uma latinha pra ambos.
Voltei.
- Pois bem, explicando: não namoro por namorar. Não quero
iludir uma pessoa só pra eu ter uma foda fixa. Não é assim que a banda toca. Se
for pra namorar, que seja alguém parecido comigo.
- Tammie era assim...
- Claro, eu e Tammie tínhamos tudo pra dar certo, mas ela é
uma vadia que não consegue ser fiel. E por isso não deu certo.
- Tem falado com ela?
- Sim, somos amigos hoje. Enfim, estou saindo com uma mulher
que é bacana, mas não a vejo como uma namorada.
- Porque?
- Somos muito diferentes... Nunca daria certo. Mas nos
divertimos bem.
- E sua vida está boa assim? Sexo casual, bebedeiras
solitárias nos fins de semana... Já pensou em planos?
- Tenho muitos, a diferença é que não me sustento em pessoas
pra colocar eles em práticas. Faço tudo sozinho. Quando preciso de ajuda, tenho
meia dúzia de amigos. E isso basta.
- Oras sim - ele disse bebendo mais - mas e família,
casamento, essas coisas? Você já está com vinte e quatro anos.
- Sei lá, man - eu disse bebendo mais cerveja - algumas
vezes me bate uma inveja dos meus amigos casados e com filhos, mas logo
desencano. Falando nisso, encontrei Augusto outro dia (Augusto era meu melhor
amigo, ele estava casado e com filho)
- Ele tá bem?
- Sei lá - bebi mais e ele também - mas ouve a história. Eu
estava indo pra casa de Clarisse, encontrei ele na rua de casa tentando fazer o
carro pegar. Eu como bom amigo, empurrei o carro, pegou. Ele perguntou pra onde
eu ia, disse que estava indo pra casa de Clarisse, perto da atual casa dele. Me
ofereceu carona. Eu aceitei - golei a breja e prossegui - entrei no carro com
um fardo de cerveja e outra latinha já aberta na minha mão. Ele disse que
precisávamos encontrar a mulher dele com o filho, por mim de boa.
- Mas peraí - Luís interrompeu - porque a mulher dele não
estava no carro com ele?
- Parece que ele estava na casa da mãe dele, e ela odeia a
sogra. Enfim, fomos buscar a mulher dele. Ela não quis entrar no carro.
- Eita. Mas porque?
- Disse que o carro era da mãe de Augusto, que não queria
nada dela e todo aquele papo de mulher, sabe como é - eu disse, matei minha
breja, ele também, e concordou - e aí ela ficou batendo boca com ele e eu ali,
esperando ela entrar no carro.
- Mas e aí?
- Aí que... Vou buscar mais brejas.
Fui na cozinha, peguei mais duas latas e voltei.
- E aí que - brindamos as latinhas, demos mais um gole - eu
disse "Augusto, seja feliz ai na sua vida de casado. Tô indo pra casa da
minha amiga pra beber e trepar. Boa sorte" E então meu ciúmes passou e vi
que sou feliz pra caralho.
- Porra man, que foda. Preciso falar com ele.
- Sim, a vida dele é boa. Chegar em casa e ter uma mulher e
um filho tem sua parte boa. Mas ao menos com sexo casual e bebedeiras eu não me
estresso, apesar de ser muitas vezes algo vazio.
- Verdade mano - ele disse, dando uma golada - mas eu sou
diferente. Gosto de namorar. Sair de sábado à noite, dar aquela trepada de
sempre e ir no cinema. Sou romântico demais.
- Eu também sou - respondi, bebendo - mas a questão é que
elas me tratam como uma puta. Então ajo assim com elas. Quero uma namoradinha,
mas é difícil. Por motivos já ditos.
- Alguma hora aparece, sabe disso né?
- Sei sim. Tanto que nem me preocupo mais. Quando tiver que
ser, será. Não penso mais em "JÁ tenho 24 anos, preciso namorar, penso
AINDA tenho 24 anos, tenho que curtir". E na hora certa, aparece uma
namoradinha.
- Aí sairemos nós quatro hahaha (ele disse com menção a
Yumi, eu, ele e minha namorada)
- Claro! Só adianto que Yumi irá odiar ela. Ela vai ser
insana demais.
- Como assim!?
- Veja bem - bebemos mais breja e matamos mais uma lata cada
um - ela vai ser do tipo que berra e xinga e é barraqueira e vai tentar me
matar a facadas. Yumi é sossegada demais pra isso. Mais uma? - perguntei
sinalizando a cerveja, ele acenou que sim. Fui na cozinha e voltei.
- Yumi que se foda nessa hora - ele brindou comigo - somos
amigos, e isso que importa.
Prosseguimos bebendo e conversando trivialidades. O papo
fluía bem. Ouvimos boa música. Eu queria ficar sozinho, mas existem algumas
pessoas que me motivam a ainda acreditar que teremos um bom papo quase sempre.
Luís é uma dessas pessoas.
Bebemos o suficiente pra pegarmos no sono. Eu na minha cama
e ele no sofá.
5.
Ele levantou e ainda era sábado. Tiramos um cochilo, apenas
isso. Ele se levantou, pegou uma latinha de cerveja pra ele e outra pra mim.
Demos um brinde e bebemos mais. Sei que beber não é o melhor, mas gosto de
beber. Me ajuda a abrir a mente. Beber sem ser alcoólatra é sensacional. Tomar
uma com prazer. Se sentir bem e feliz. Luis estava nas nuvens, eu também, todos
tinham seus demônios, mas eu estava bem. Só naquele momento da minha vida
estava tudo ótimo. Não me critiquem pelo meu otimismo, todos já me viram beber
até desmaiar, todos já me viram passar necessidades, todos já me viram sem
mulheres. Já tive tudo, aí perdi tudo, e agora eu tinha tudo de novo. A vida é
só uma gangorra fodida. Ou estamos muito em cima, ou muito embaixo. Logo logo
eu poderia estar por baixo de novo. Mas não valia a pena pensar nisso agora. O
que valia agora era viver um dia de cada vez, aproveitando cada segundo, cada
milésimo de segundo. Obrigado vida, eu te amo.
Luís se despediu de mim. Ele ainda sairia com a namorada no
domingo. Era estranho estar alheio às paixões. Pessoas vivem nisso. É o grande
plano: arrumar alguém que te ame e compreenda, ser feliz e encher o cu de
dinheiro. Eu só pensava no ser feliz. Era isso ou nada. Fui dormir satisfeito.
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