MENSAGEM NUMA CAIXA SOTERRADA EM ALGUM LUGAR FUNDO O BASTANTE – 12/2018

Deus sempre soube de todas as coisas, e ele sempre sabia de tudo o que estava planejado pra minha vida por mais ateu que eu possa ter sido em grande parte dela (a minha vida) e agora eu tô aqui. Vivo e respirando. E isso pra mim é o grande milagre, porque eu sempre achei que ia morrer sem encontrar um caminho, que eu não iria sentir jamais a sensação de felicidade sem vir do fundo de uma garrafa de bebida barata.

Ou bebida caríssima. Álcool é álcool, meu parceiro. O importante é ficar bem louco.

E agora eu tô em paz e sereno, algo raro mas possível, eu diria.

Desse momento em diante as coisas não serão como sempre foram. A vida é isso: de repente, tudo muda. Nem sempre pra pior, nem sempre pra melhor, mas sempre de maneira inconstante. Eu passando em frente aos antigos lugares que eu ia e sentindo o cheiro do álcool ou lembrando das notas de duas pratas que ficavam enroladas no bolso, do cartão velho de banco e das carreiras de cocaína esticadas dentro de biqueiras, sendo aspiradas com a mesma raiva que eu sempre senti de mim mesmo e do meu pai. Como se eu quisesse não necessariamente me matar, mas matar meus sentimentos. E eu sei que agora eles (os sentimentos) ainda estão guardados dentro de uma caixa, mas eu não quero mexer, por mais que eu saiba que é importante que eu mexa pra que as coisas continuem caminhando minimamente bem e que tudo permaneça no seu devido lugar.

Tentei mandar a vida tomar no olho do cu, sem muito sucesso. Bares foram meus abrigos, putas insensíveis foram minhas namoradas, homens sem rosto e sem brilho nos olhos foram meus amigos sinceros e leais. Meus pés caminharam sobre chamas e brasas vindas do inferno, e, pode parecer alucinação, mas eu já estive sentado frente a frente com a dona Morte, mas quando ela estendeu a mão eu não peguei, e de repente eu acordei completamente nu no chão da sala da minha casa, suando e tremendo e com os olhos cheios de lágrimas vermelho sangue, depois de quase 15 dias bebendo sem parar, abusando também de crack, maconha, cocaína e LSD. Ali era pra eu ter ido, mas eu não fui.

E agora estou aqui, sendo fruto de um milagre. Eu não vi, eu não vivi, eu sou o milagre.

O tempo voa quando você se perde no céu dos seus próprios pensamentos, e foram bons 10 anos assassinando a mim mesmo aos poucos, deixando a porra da caixa trancada, cheia, abarrotada de sentimentos muito insanos pra explicar, coisas que nem eu sei dizer, que refletem o que se passava dentro do meu ser quando eu lembrava da minha infância.

Eu particularmente odeio a minha infância.

Lá tem muitas surras, tem muita dor, palavras de ódio, violência emocional, traumas, decepções, eu chorando na porta do quarto dos meus pais, eu assustado, eu carente, eu triste e revoltado, eu engolindo tudo o que eu passava e guardando na porra da caixa. Agora tá lá, louca pra ser aberta.

Até quando eu preciso insistir em fugir de tudo e de todos? Até quando eu vou ficar me olhando no espelho só de soslaio, como se não tivesse coragem de me olhar nos meus próprios olhos? Até quando eu vou ficar pedindo desculpas pelas várias merdas que fiz, pelos homens que vi morrer na minha frente, pelas mulheres que decepcionei e fui imbecil, pelos empregos que joguei pelo ralo junto com a minha esperança de encher o cu de dinheiro e ir morar na puta que pariu sem ter que conviver com ser humano algum? Carlos Reis talvez seja desgostoso demais pra ter que lidar consigo mesmo, e se nem ele consegue, quem mais vai conseguir?

"Que tipo de ser humano me tornei?" eu me pergunto às vezes. Dependendo da situação, é claro.

Eu acho que essa pergunta não deve ser respondida por ninguém além de mim mesmo, e que todos deviam se perguntar isso pra ver se tá dando certo esse negócio de "viver", que pra grande maioria se trata apenas de ficar preso nessa bola gigante chamada de planeta, ser atraído pela força da gravidade pra não cair em órbita, ouvir música ruim, pagar contas, comer mulheres estranhas, procriar, tomar cachaça e morrer sozinho. A gente sabe disso. Eu sei e todo mundo sabe. Mas nem todos falam.

Um dia eu tava na rua brincando de esconde esconde, eu me escondi com uma menina atrás de um muro na rua da minha casa, a gente começou a se beijar, eu tinha uns dez anos e não sabia exatamente o que tava fazendo, mas eu tava gostando da coisa, e a gente foi pego e não conseguimos nos salvar. Ela estudava na mesma sala que eu. No dia seguinte, na escola, ela não olhou na minha cara e eu me senti decepcionado. Não disse isso pra ela e nem pra ninguém. Mas eu tenho certeza que o sentimento daquilo tudo ainda é real o bastante pra ficar escondido na minha caixinha.

"Você se sente feliz a maior parte do tempo? Ou viver é sofrer?"

Muitas vezes também me perguntei isso, e agora, olhando pra trás, depois de tanto me foder e olhando o que tá rolando agora, eu prefiro ainda não responder essa pergunta. Eu acho que estar vivo já é por si só um excelente argumento pra botar a vida pra fuder de verdade. Pra batalhar pelas coisas.

Pois eu, quando me levanto com o sol queimando meus olhos pela fresta da minha janela, às 6h30 da manhã, acordo disposto a fazer as coisas do melhor jeito possível, não que isso possa me fazer feliz, mas torna a vida mais suportável.

Ok.

Agora chega.

Só mais uma coisinha rápida.

Se a gente perceber a vida querendo nos abocanhar e não soubermos lidar com ela, e estivermos completamente sozinhos e perdidos, existem algumas opções que já estive a fundo tentando, como foi da vez em que me embriaguei sozinho no meu aniversário de 26 anos, eu tava num bar imundo do centro da cidade, uma puta tava querendo passar a mão nas minhas bolas, dois nóias tavam dando tiro comigo numa farinha ruim pra caralho e o dono do bar cantou "parabéns pra você" prostrado sobre meu corpo caído depois de tanto encher o cu de pinga, e eu achei que assim eu tava conseguindo sair das situações difíceis que eu mesmo me colocava.

Ajudou? Sim.

Resolveu? Não.

Portanto hoje eu tento simplesmente dar risada da minha desgraça, bater em teclas, beijar e transar com alguma garota legal e que seja doida o bastante pra estar comigo, pagar minhas contas de maneira honesta, beijar minha irmã o máximo possível e abraçar mais outros seres humanos. Sendo assim, minha cabeça fica mais arejada pra lidar com os desafios que a vida coloca na minha frente, e mesmo que os problemas não tenham acabado de vez, eles parecem no mínimo mais suportáveis, o que é bom pra mim, pra minha família e pra quem mais estiver ao meu lado nessa porra de planeta.

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