O INÚTIL COMPLETO – 12/2022

A tecnologia mudou tanto as relações de trabalho nos últimos 50 anos que muitas vezes, muitas coisas que eu faço no meu dia, eu realmente acredito que eu NÃO estou trabalhando, mas eu estou. Posso não estar na empresa, mas absolutamente todos os dias nos últimos 6 anos eu fiz alguma coisa no trabalho: mandei um pix, tomei uma decisão, orientei um funcionário ou sócio, contornei a insatisfação de um cliente.

Nem sempre como proprietário, muitas vezes como assalariado, mas independente disso, sempre teve demanda. E quase sempre, eu não percebi que eu "trabalhei". Inclusive coloquei em aspas por que ainda não aceitei que eu realmente TRABALHEI. Depois de anos assim, se torna alguma coisa tão impregnada na sua rotina que você basicamente encaixa seus dias nessas tarefas ao invés de encaixar essas tarefas no seu dia.

Preciso ir a um evento. Mas no caminho estou resolvendo alguma coisa no trabalho usando o telefone. Não estou falando de problemas. Estou falando de coisas simples do dia a dia. E exatamente por isso parece que não estou trabalhando.

Hoje é sábado e eu não fui ao trabalho, mas o trabalho veio a mim. Não estou reclamando não, acho que faz parte. Ao menos faz parte pra mim. Não tenho muitas opções.

Quero dizer, se hoje boa parte dos meus amigos têm empregos em que eles conseguem descansar no dia de folga deles, com um bom salário, estabilidade, apartamentos comprados na planta, carros semi novos ou até mesmo zero quilômetro comprados a vista, relacionamentos estáveis e poucas conturbações na vida além do de sempre, é mérito total deles e demérito total meu.

Enquanto eles estavam correndo atrás da vida, eu tava era fugindo dela. Empregos temporários, quase sempre sem registro. Em dois ou três meses a cena se repetia: eu chegava bêbado, mandava meu chefe tomar no cu dele, pedia meus dias e ia beber. Bebia por uma semana ou mais, depois voltava a procurar alguma coisa. Estudar nem pensar, obviamente. Só os livros (de entretenimento puro) que todo jovem bêbado venera: Dosto, Fante, Rimbaud, Kerouac, velho Buk, Celine, Thompson e seu jornalismo gonzo, Werther, etc etc etc. Isso sem contar os filósofos, os sociólogos, os antropólogos, cientistas políticos, psicólogos e também um pouco de literatura sobre saúde mental. Conhecimento inútil, que nunca me garantiu emprego nenhum.

Somente bons textos. Algo que eu realmente pude me orgulhar um dia de ler, reler e pensar "Puta merda, este caralho está muito bem escrito."

Relaxem, este com certeza não me orgulha em porra nenhuma. Puro lixo. Pura vergonha alheia. Igual aqueles videozinhos que pessoal grava e coloca na internet fazendo alguma coisa absolutamente ridícula, mas que gera engajamento, e consequentemente likes, e consequentemente grana.

"Em troca de dinheiro e um carro bom, tem mano que rebola e usa até batom." Se você não entendeu essa referência, joga aí no Google, meu patrão. Ele sabe mais da sua vida do que você mesmo.

Sem emprego muitas vezes eu precisava dar meus pulos pra literalmente sobreviver.

Mudando total a rota deste texto, sem motivo nenhum. Somente por vontade minha. E aqui eu posso fazer do meu jeitinho, jeitinho especialmente lunático. Hehehe. Obrigado por isso.

Sigam o fio.

Rapidamente me lembrei de Cecília. Cecília tinha trinta e seis anos, três filhos pequenos de dois pais diferentes, ela geralmente estava dentro de algumas festas que a gente dava. Por festa entendam: música alta, cocaína na mesa, cerveja e vodka ilimitada. E conversas. Muitas conversas. Não era uma mulher feia, também não era bonita, mas tinha um papo legal. Num determinado dia, não lembro exatamente como, em detalhes, fui pra casa dela e transamos. Na manhã seguinte fui pra casa. Um belo dia minha mãe me expulsou de casa por causa da garrafa. Não tinha dinheiro, não tinha emprego e nem lugar pra ir. Liguei pra ela e ela disse que eu poderia ficar na casa dela.

Passei alguns dias lá, bebendo todos os dias, comendo boa comida e cuidando da molecada enquanto ela saia pra trabalhar. Eu era na época doze anos mais novo do que ela, e, de fato, ela me acolheu como uma mãe. Fim do dia ela chegava cansada, tomava um banho, umas latinhas de cerveja e dizia "Vai logo pra cama e me espera lá. Vou colocar as crianças pra dormir e espero que você cuide de mim." E nisso a gente transava.

No sexto dia ela disse que me amava, eu disse que amava ela de volta. Mas eu não amava. Era mais pra poder continuar ali. Não me orgulho disso, mas fiz.

No nono dia minha mãe me ligou e disse que eu poderia voltar pra casa. Agradeci ela e falei com Cecília que iria ver minha mãe. Nunca mais voltei. Nunca mais atendi as ligações dela. Pouco tempo depois soube que ela casou. "Bom pra ela", pensei e voltei a beber. Sim, eu ainda estava desempregado. E ficaria assim até acabar o dinheiro.

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