O ÚLTIMO BAR COM PATRÍCIA – 02/2018

Sábado a tarde. Sol de rachar e ela me chama pra tomar uma cerveja. Eu saí com Patrícia nem tanto por ela, mais pela cerveja. Não queria beber sozinho, mas se ela me chamasse pra tomar um sorvete, eu com certeza não iria. A vida fica meio sem graça sem o álcool.

"Você tem algum plano além de beber todos os dias?" Ela sempre me vem com perguntas comprometedoras como essa. Aceno com a cabeça que não e retorno pro copinho americano até a boca de cerveja.

Acho que ela espera muito de mim. As pessoas no geral esperam muito de mim, como se eu fosse um exemplo a ser seguido. Como se eu fosse inteligente o bastante para desenvolver a cura do câncer ou ainda, construir o próximo foguete pra NASA conhecer Marte ou coisa do tipo. Quanto mais inteligente eu me tornar, mais as pessoas vão contar comigo. Por isso hoje eu faço questão de parecer o mais alienado possível. E o que isso tem a ver com Patrícia? Tudo. Absolutamente tudo.

Sol rachando, cerveja gelada em cima da mesa, porção de salaminho e eu morrendo de fome. Enquanto tudo está no seu devido lugar, ela insiste em querer puxar de mim aquilo que eu não quero dar: comprometimento e opinião.

"Sabe como é né Carlos, acho que uma pessoa esclarecida como você devia se impor um pouco mais, o mundo precisa saber o que uma pessoa tão estudiosa quanto você anda pensando, a sua cabecinha alcoólatra tem algum talento. Só beber e bater em teclas não vai te dar notoriedade. Você precisa ser mais do que é. E isso depende de você."

Ela termina, respira fundo, bebe um pouco e, colocando o copo novamente em cima de mesa, dá um leve sorrisinho pra mim. Eu dou o meu famoso sorriso canalha e sem graça.

"Vou ao banheiro." Levantei e já fui abrindo o zíper da calça.

Foi a única ideia que tive pra fugir daquele papo chato.

Cheguei no urinol, coloquei meu pau pra fora, olhei pro teto e pensei "Por Deus, quanta chatice. Até quando vou ter que aguentar isso?"

 E por um momento me arrependi de ter aceitado o convite dela. Ela é uma moça legal, tem um corpinho legal e uma cabeça bacana. Mas fica querendo que eu seja o que eu não quero ser. Foda isso. Fiquei com o pau pra fora um minuto e não mijei quase nada. Balancei e guardei na cueca. Lavei as mãos e voltei pra mesa.

"Pois é Carlos, continuando..." ela dizia enquanto eu ia bebendo mais e pedindo outra garrafa "Uma pessoa sem opinião política é uma alienada, e não quero isso de você. Já pensou em fazer palestras? Você seria um ótimo palestrante, sabe conversar e é bonito, ficaria bem num vídeo do youtube. Não quero que você seja um talento desperdiçado."

Ela me provoca assim porque ela já leu alguns dos meus textos. Foi uma época boa em que eu escrevia com uma regularidade tremenda, e sempre boas histórias, apesar de parecidas. Hoje não é assim, mas na época eu devorava as teclas e botava pra fuder de verdade. Até que eu caí na real que meu talento muitas vezes só existia pra mim, porque eu geralmente escrevia bêbado e lia bêbado também. Gostava das minhas aventuras em bares, mas estava aos poucos cansando das pessoas. Patrícia foi a primeira a sofrer as consequências disso. Cada vez menos eu fui me importando com ela, e essa saída chata no bar foi a nossa última. Ela ficava me pressionando a ser um cara fodido, mas eu já estava num estágio de alcoolismo em que eu preferia ficar em casa sozinho ouvindo Sinatra, bebendo e escrevendo textos sem nexo.

Como este.

Depois dessa saída no bar, ela foi em casa mais uma vez, chupou meu pau mas não deu pra mim pois estava menstruada e tinha nojo de fuder nessas condições. Sem problemas. Enquanto ela me mamava, eu mamava uma garrafa de cachaça, e se fosse rolar algo como sexo, duvido que meu desempenho seria bom. Eu talvez nunca seja o cara foda que as pessoas esperam que eu seja, vou ser pra sempre lembrado como o cara que tinha tudo pra dar certo mas acabou dando errado.

O eterno dilema do cara talentoso demais pra ser compreendido. Do cara que fica sempre na linha tênue entre genialidade e loucura. Que tinha tudo pra ser e nunca foi. Antes me incomodava isso. Mas hoje não. Hoje eu tô feliz pra caralho com a minha alienação política, meu emprego, meu dinheirinho e minhas caminhadas debaixo do sol quente quando estou de folga.

Fico feliz só por saber que cheguei tão fundo e mesmo assim consegui subir tão alto. O que eu tenho de concreto é super valioso pra mim. O resto é só ilusão.

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