PEQUENO POÇO DE NÓS MESMOS – 08/2014

Barba coçando, solidão e cervejas num domingo à tarde, frio como o chão, esse piso sujo e imoral

Crianças na rua, pipas, sorrisos e bordas de felicidade e facilidade

Carros, som alto, ignorância, tremedeiras, sudorese, bagunça no quarto, camisinhas pela cama, latas de cerveja em cima do criado-mudo

pizza vencida, dinheiro perdido e um pouco mais... Um pouco mais

A última latinha de cerveja é sempre a mais triste, é sempre a mais melancólica, é como o último suspiro de um doente no hospital público

Quando vamos parar de pensar? Quando vamos lembrar de viver? Quando a fuga vai ser nós mesmos ao invés de pessoas, roupas, computadores, tablets e celulares com tela de toque?

quando o fracasso vai ser a maldade ao invés da pobreza? Quando jogar as coisas pro alto será sinal de coragem ao invés de confusão?

quando isso tudo vai ser fácil o suficiente pra que um adulto de vinte e poucos anos possa ser tão bom e inteligente e ingênuo quanto uma criança de sete?

É mesmo assim, errado?

Procure a paz, visite campos verdes, respire as árvores antes da fumaça dos ônibus, antes do fracasso dos metrôs, antes do desespero, antes do aroma pútrido e fétido do erro

Barba coçando, solidão e cervejas num domingo à tarde, frio como o chão, esse piso sujo e imoral

a última latinha de cerveja está próxima ao final, vejo uma claridade no fim do túnel, vejo bondade, vejo um pouco ainda, insisto nas pessoas enquanto elas desistem de si mesmas

Reflexo do caos, reflexo da angústia, da derrota, das facadas, das putas, dos bêbados

Reflexo

isso tudo está nos destruindo, está nos enlouquecendo,

como essa cerveja, por ser a última, também está me enlouquecendo

seremos assim, tão errados?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O FILÓSOFO INCULTO – 02/2026

OBSCURED BY THE CLOUDS – 07/2018

MEU AMIGO FERRADO – 04/26