SAPATO 36 – 02/2023

É aquela história padrão, repetitiva de sempre.

Toca Sapato 36 do Raul Seixas em algum streaming qualquer, coço a barriga e penso em tudo que acreditei um dia e agora não acredito mais. Aquela posição afrontadora que não tenho mais. Sou só mais um tijolinho na parede.

Papai dizia pra eu não cometer os mesmos erros que ele cometeu. E eu, num ímpeto maluco, como um cego sozinho andando na contramão sem nem ao menos tentar desviar dos carros, fiz exatamente o contrário. Fiz questão de cometer todos os erros que ele cometeu.

Só nunca bati em mulher. Mas de resto temos: o casamento frustrado, as traições, o alcoolismo, a cocaína, o trabalho excessivo, dinheiro com puta, amigos falsos, brigas em bares, insanidades em geral. Etc etc etc.

Não vou falar tudo. Tem quatro livros com todas as histórias que lembro. E teriam muito mais se o álcool não criasse uma capa de gordura nos meus neurônios que me deu vários apagões. Estou falando de VÁRIOS.

Metade da minha vida nem lembro mais. E talvez seja melhor assim.

Voltando pro meu velho pai, ele está chegando naquela idade em que eu finalmente percebi que ele vai morrer um dia. Sempre quis ser rico, nunca conseguiu. E agora ele finalmente desistiu da ideia. "Vou morrer mesmo, que se foda. Não faço questão. Você e seus irmãos são bem capazes de conseguir aquilo que eu não consegui. Tá na hora de vocês." Ele me disse umas semanas atrás.

Estava bêbado e seus olhos transmitiam uma dor muito muito forte. Ele percebeu que vai morrer logo mais. E pior que tudo. Percebeu que perdeu muita coisa no decorrer da vida. Não tô falando dos carros e dos empregos bons não. Tô falando de não ter me visto crescer. Nem eu e nem meu irmão.

Ele sacou isso. E tá sofrendo.

Sempre foi durão, mas agora tá amolecendo.

Eu já o perdoei, sério mesmo. Isso me ajudou a conseguir superar meu vício. Mas não adianta nada enquanto ele não se perdoar. E ele tá sofrendo pra caralho pra conseguir isso.

Bom, se você leu até aqui, meus parabéns. Não sei se te dei dopamina o bastante ou se daqui a pouco você vai simplesmente rolar o feed e procurar coisa melhor. Coisa melhor esta que vai te dar dopamina o bastante pra conseguir 10, talvez 20 segundos de prazer, ocasionando talvez risadas. Despertando interesse sobre um assunto qualquer que será perdido dentro de no máximo 24h.

Ninguém mais tenta escrever nada que demore mais de 30 segundos pra ser lido ou assistido.

É a verdade, amigos e amigas. A literatura está morrendo igual meu pai. E todo mundo que ama ou já amou ela um dia, está com os olhos transbordando angústia.

Eu também tô.

A geração de hoje não sabe nem o que estudar, não se sabe o que vai existir de trabalho dentro da sociedade nos próximos anos. Inteligência artificial, essas coisas aí. Não entendo muito bem. Sou um primata que fica teclando uma telinha, letras que saltam na luminosidade e que se apresentam através de palavras e consequentemente textos. Corretores que me fazem passar menos vergonha e evitam que eu seja descoberto como um analfabeto funcional.

Meu conhecimento é pobre. Pobre e burro.

Não há lição de moral nenhuma aqui, somente vontade de me libertar de uma angústia que eu não conheço muito bem.

E por mais que eu nunca tenha amado muito meu pai, por mais que nunca tivemos muita proximidade, e por mais que eu também seja um cara durão, sem medo de nada e auto suficiente que pago minhas próprias contas, eu também estou assustado com a possibilidade dele ir. De eu nunca mais o ver. E isso talvez me faça chorar depois de quase 6 anos que não choro. E me traga um sentimento de solidão gigante nesse mundo onde todo mundo perdeu ou vai perder o pai.

É isso aí, porra. Faz parte. "Faz parte, porra. A vida é isso aí." Ele sempre me dizia quando eu tirava nota baixa e ele, sentado no sofá com uma garrafa de 51 na mão olhava pra mim desapontado mas consciente da minha condição.

Espero que após ler esse texto, você role o feed e ache algo que te traga a dopamina que você não achou aqui.

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