SOBRE ÁCIDO E IGNORAR MENSAGENS – 02/2023

Não é exatamente que eu não a amasse, na época. Com certeza eu não a amava, mas não era por isso. Era questão de desinteresse mesmo. Total. Cem por cento. Não é por mal, relacionamentos são assim mesmo, porra. Ou se interessa ou não. E na maioria das vezes, se desinteressa. E isso tudo era mais agravado pelo fato de na época eu ter acabado de comprar mais LSD do que eu poderia conseguir consumir nos próximos três meses. Mas que era sim, a minha meta consumir tudo. Sem pensar nas consequências, obviamente. Eu nunca pensava, não começaria a pensar naquele momento.

A questão é que as ligações dela começaram a se tornar frequentes, e eu não atendia. As mensagens não respondia. Na verdade respondia a primeira, as que vinham depois eu abria, lia e não dizia nada. Entenda, não dizia nada por que realmente não tinha nada a dizer. Muitas vezes é isso que acontece comigo: não digo nada pois tudo o que tinha pra dizer já fora dito antes. Mas ela achava que eu tava ignorando ela ou coisa assim. Que depois que comi ela, simplesmente ela tinha se tornado apenas mais uma da lista. Ela achava que chovia mulher me procurando, quando na verdade, eu conversava na época com várias, mas estas sempre recusavam meus convites pra fazer qualquer coisa. Só queriam ter um cara completamente drogado pra poder falar as coisas sem julgamento. E eu era esse cara.

Voltando então para as drogas.

Eu havia descoberto o LSD há pouco, consegui uma boa conexão que me arrumava em grandes quantidades por pouca grana, então fiz um saque de três mil reais da minha reserva de emergência, e, desempregado, comprei tudo de ácido. "Deus vai colocar um emprego no meu colo", eu pensava. E geralmente acontecia isso. O telefone iria tocar alguma hora me chamando pra fazer alguma coisa. Combinei então de não pegar muito pesado com isso, mas o vazio que existia dentro de mim era coisa grande, portanto eu precisava alimentar ele sempre mais do que o suficiente. Eu sabia que as coisas iriam sair do controle, mas eu não ligava a mínima.

Esta moça que estava me procurando na época era oito anos mais velha, não tinha filhos e nem ex-maridos, era relativamente inteligente e tinha uma boa perspectiva profissional. Um bom partido para a maioria dos caras. Eu gostava, mas nunca me senti completamente conectado com ela. Quer dizer, quando se está sozinho, qualquer orelha que te escute ajuda. Mas o excesso disso nunca me fez bem. E naquela época era muito pior. Quero dizer, três mil reais de ácido dentro de casa, sem nada pra fazer além de ficar muito chapado todos os dias de forma inconsequente. Dentro desse quadro eu não queria mais assunto com ela, nem com ninguém. Eu queria ficar louco e falando sozinho, óbvio. Assim como é a literatura. Como foi, durante toda a minha vida.

"Carlos, atende o telefone, estou te ligando e você não me atende, mas estou vendo você online no whatsapp. Vai me ignorar mesmo?"

Eu olhava a mensagem dela tentando decifrar enquanto a minha visão estava toda borrada e colorida devido ao efeito das drogas que eu tinha ingerido naquele dia. Não planejava responder. Não respondi.

Nisso se passaram quatro dias, em que fiquei completamente chapado todos os dias. No quinto dia fiquei careta e, quando estava melhor, resolvi ir falar com ela e explicar a situação.

"Escuta Suzy, eu estava muito louco esses últimos dias, desculpa não ter te respondido. É que não tinha nada pra responder mesmo."

"Certo, que bom que está melhor" ela disse, e continuou "E agora, quando vamos nos encontrar?"

"Acredito que nunca mais. Obrigado por tudo."

Respondi já aguardando os xingamentos que viriam. Eu sairia como o filho da puta da história, e por mim tudo bem. Eu estava acostumado a isso. Naquela altura imaginava que nunca ficaria completamente sozinho. O que não demorou muito a acontecer e me ensinou uma importante lição quatro anos mais tarde.

No fim das contas ela que me ignorou e não me respondeu mais, o que foi bom. Tomei um banho, comi um bom prato feito no restaurante da esquina, tomei um litro de suco de laranja, voltei pra casa e não fiz nada o restante do dia. No dia seguinte acordei e pensei "Tenho que acabar com esse ácido. Bora ficar bruxo."

 

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