TUDO NO SEU DEVIDO LUGAR – 01/2024

Carlos em 2009, saindo do metrô depois de um dia de trabalho fudido, ganhando pouco mais de um salário mínimo, indo pra casa onde com certeza iria brigar com a esposa Angélica, isso depois da segunda ou terceira dose de vodka Natasha. Motivo da briga: ciúmes de alguma das partes. No caminho até sua casa, tocando num celular Motorola músicas armazenadas num cartão de memória de 4gb de tamanho, baixadas pelo Limeware ou Ares, ou ainda, de algum blog de metal. Daqueles que tinha o domínio "blogspot.com". Oito horas da noite, andando em São Paulo sem temer um assalto ou uma facada no estômago. Livro debaixo do braço, A Origem das Espécies, Charles Darwin. Pensando naquela dose de vodka Natasha que estava esperando por ele. Por mim. Eu sou o Carlos.

Chego em casa, beijinho rápido em Angélica, vou pra geladeira, pego três cubos de gelo, coloco em um copo largo e raso, pego a garrafa de vodka, encho o copo, viro a primeira dose numa talagada só, coloco a segunda dose, dou uma bebericada e vou pra pia. É minha vez de cozinhar.

"Angélica!" Grito pra ela escutar lá na sala "Coloca o primeiro do Metallica aí pra tocar."

Ela não responde, só dá play no disco que começa a tocar na caixinha de som do computador. Angélica está entretida no Orkut. Eu nem sei o que é isso. Trabalho o dia todo no computador, final do dia não quero chegar nem perto de um. Meu telefone está no vibra e ninguém vai me ligar esse horário. Graças a Deus.

Preparando o jantar e também o almoço do dia seguinte, já mandei a segunda dose de vodka pra dentro, estou preparando a terceira e o telefone fixo toca. Angélica atende.

"Alô, quer falar com quem? Hã? Sim, ele mora aqui sim, é a esposa dele. Carolina? Que Carolina? Do que, do trabalho? Escuta aqui moça, ele é casado, você nunca mais ligue aqui!" E bate o telefone com tudo. Angélica vem com a fúria de um touro correndo pra cozinha. "Quem é Carolina?"

"Trabalha comigo."

"Você comeu ela é?"

"Não porra, ela sabe que sou casado."

"E por que ela tem o número da nossa casa?"

"Ela pediu e eu passei, não vi maldade."

"Cadê seu celular, ela te liga também?"

"Claro que não, nunca me ligou."

"Escuta aqui Carlos, se você estiver me traindo você sabe que eu corto seu pau fora né? Você sabe que eu sou capaz disso!"

"Eu sei sim, Angélica. Mas fica em paz. Vai lá pro seu computador, me deixa aqui em paz bebendo e cozinhando. Tô cansado pra caralho."

Ela volta pra sala e pro computador. Toca nesse momento Seek and Destroy. Boa música. Tomo a terceira dose e sirvo a quarta. Agora estou começando a ficar realmente relaxado.

Voltando agora pra 2007, Carlos com 1,80m de altura e 60kg, cabeça raspada, todas as camisetas do seu guarda roupa são pretas sem estampa. Calças jeans simples, sem detalhes. Chamam ele de "personagem de desenho" por sempre se vestir igual. Pouco tempo antes, havia se trancado no seu quarto e em dois meses se afundou nos piores filósofos alemães. Leu dez livros. Antes de casar com Angélica. 17 anos e rebeldia sem causa. Tocando Fear of the Dark bem alto, da caixinha de som do computador, descendo a escada de casa. Minha mãe na sala sem conseguir ouvir a TV direito.

"Abaixa essa porra desse som, Carlos!"

"Já já tô de saída mãe."

"Vai onde?"

"Sei lá, vou sair por aí."

"Você tem sumido várias vezes, isso aí não é bom. Você por acaso tá usando drogas?"

"Tô nada mãe, não enche."

"Mês passado você ficou quatro dias fora. Ligava no seu celular e só chamava, isso quando não tava desligado. Onde você tava?"

"Tava por aí, no Luciano, no André, no Michel. Por aí."

"E Angélica?"

"Também tava comigo. Na maioria do tempo."

"E a mãe dela?"

"A mãe dela não liga."

"Se você engravidar ela você tá fudido, vai pra rua, eu não vou criar filho de ninguém!"

"Tá bom." Respondo secamente.

Vou na cozinha, pego uma latinha de cerveja, abro, bebo tudo numa talagada só, jogo a lata no lixo, volto pra sala, antes de subir pro quarto pra desligar o som, minha mãe novamente aborda.

"E o que você fica fazendo com esse povo aí?"

"Nada porra, ficamos falando trivialidades, discutindo coisa besta, essas coisas."

"Tá bebendo né?"

"Às vezes bebemos". Na verdade, bebíamos sempre.

Subo pro quarto, desligo o som, pego meu livro do Nietzsche, A Gaia Ciência. Saio de casa sem beijar minha mãe no rosto, sem me despedir. Vou pro ponto de ônibus pensando o que iria acontecer nos próximos três dias. Eu não voltaria pra casa. Eu não queria voltar nunca.

Carlos agora em 2024, na mesma estação de metrô da época do casamento da Angélica, fone bluetooth tocando metal de alguma playlist aleatória do Spotify ou Deezer, livro embaixo do braço, “Invente alguma coisa” do Chuck Palahniuk (autor de clube da luta). Sem pensar na vodka, sem mulher em casa pra brigar. Só os gatos pra ficarem miando pedindo ração e carinho. TV smart com streamings diversos, séries, etc. Chegando em casa e pacificamente indo cozinhar tomando um copo de coca cola. Faço a janta e o silêncio é ensurdecedor. Conecto o telefone numa caixa de som, Lateralus do Tool começa a tocar. Fico perdido nos meus pensamentos cantarolando as letras. Conheço praticamente todas de cor. Converso com os gatos fingindo entender o significado dos seus miados. Criando na minha mente um diálogo só nosso. Angélica não tenho mais notícias. Minha mãe está sozinha fudida afundada na depressão. Nos falamos uma vez por semana, numa ligação de dez minutos. Não temos assunto.

Tudo está no seu devido lugar. E eu não poderia ser mais ingrato se eu tivesse reclamando disso.

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