UM CAFÉ PESSIMISTA E SEM PROPÓSITO – 01/2021
Não me considero um grande cativador de massas, não me
considero uma grande liderança, influenciador, pensador e muito menos
intelectual. Meu desejo maior boa parte do tempo é sumir e voltar em alguma
época talvez menos cansativa. Não digo menos dolorosa (já doeu muito mais) ou
menos triste (com certeza já foi muito mais triste), mas neste momento, menos
cansativa.
Responsabilidades pós 30 anos de vida desgastam o cabra.
E a gente mal percebe isso destruindo a gente. Aliás,
percebe sim.
Queda de cabelos e o que resta se tornando brancos, rugas
cada vez mais nítidas em cada canto do rosto, a barriga que parece nunca
desaparecer mesmo com alimentação regrada e exercícios regulares. Uma angústia
inexplicável, muito diferente da angústia de quinze anos atrás, não tão
mórbida, mas com certeza mais ansiosa.
Incertezas.
Porra, num mundo incerto desses, nossa única certeza vai ser
a morte, todos temos que aceitar isso, caralho. Mas segue incerta a data dessa
morte.
Essa semana tomei café preto, puro e sem açúcar. Vou
contextualizar: mês passado (praticamente todo) foi um grande inferno, tive que
trabalhar mais do que o usual (que já é coisa pra caralho) e enchi meu cu de
energético sete dias por semana. Dormir menos e produzir mais, lógico. Acontece
que isso não tava me fazendo muito bem, tava começando a mijar exatamente da
cor do energético, meus rins estavam doendo às vezes, fora a agitação. Tava
realmente pegando pesado com essa merda, resolvi entrar em processo de
recuperação e abdicar de uma vez nesse ano. Já são 16 dias limpo, e não tenho
sentido falta.
Não tomo café quase nunca, e quando tomo geralmente é de
manhã, e ontem resolvi tomar a noite, numa quantidade um pouco alta, achando
que seria quando tinha vinte anos: tomava pra caralho e conseguia dormir muito
bem. Amigos mais velhos me falavam que isso um dia acabaria, eu achava que eles
estavam falando merda. Resumindo, fui dormir tarde pra caralho, e acordei cedo
pra caralho. Dormi pouco.
Parte do processo de ficar velho é entender que seu
organismo já não processa mais alimentos e bebidas da mesma forma que há 10
anos atrás. E eu preciso aceitar isso. Não tem como retomar os anos que se
passaram. Como dizem os otimistas, a gente tem que sempre olhar pra frente no
intuito de ser melhor.
Um velho ditado chinês falava em "ser melhor que ontem
e pior que amanhã."
Não sei se é chinês ou se algum amigo bêbado me disse em
algum rolê de três dias seguidos que fazia há anos atrás. Ou numa mesa de uma
pastelaria chinesa enquanto a gente tomava Itaipava.
Sinto falta de algumas coisas de quando era mais novo (como
o lance do café), e também a questão de escrever muito e com um mínimo de
qualidade. Minha vida mudou demais nos últimos anos, não estou tendo quase
nenhum tempo ou até mesmo vontade pra sentar em frente à velha máquina de bater
sofrimentos.
E hoje abro essa exceção pra não ficar olhando pras paredes
estáticas ao meu redor.
Parece que perdi um pouco da minha essência.
Agora sou responsável por muita coisa, muita coisa depende
de mim, eu preciso estar sempre bem, eu preciso sempre transmitir calma em
situações de crise. Basicamente escrevi na sentença anterior o que é ser um
adulto. E é terrível.
É como eu digo pros meus amigos mais novos e que começam a
trabalhar pra caralho: "Só mais 40 anos disso e você se aposenta".
Tento transmitir otimismo.
Não julgo as pessoas que ficam fazendo memes sobre tirar a
própria vida. Elas talvez não tenham ainda a habilidade necessária pra suportar
emocionalmente os boletos, acidentes de trânsito, crises profissionais e
solidão.
Sim, solidão. Amigo é coisa de criança, adultos têm
conhecidos ou colegas. Que saem entre si de vez em quando pra comer alguma
coisa e relembrar do passado.
Escuta, eu não queria ser tão pessimista, mas além de uma
crise biológica, estamos em crise financeira e principalmente crise
existencial. Suicídios, loucura e alcoolismo cresceram muito no último ano.
Fonte? Datafoda-se. Mas eu tenho quase certeza que estou certo.
"Quase certeza que estou certo". Já fui melhor que
isso. Mas é o que tem hoje. E eu tenho que estar satisfeito. Caso contrário, eu
vou ficar mordendo correntes até eu morrer ou até aceitar.
Agora, chegando próximo ao final, vou tentar ser um pouco
mais positivo. Não que eu seja "obrigado", mas eu simplesmente não
tenho outra escolha. Se eu não tentar ser positivo, vou acabar estourando os
miolos na sala de casa. E isso não vai ser legal, amigos.
Cada um tem seu propósito, passamos boa parte da vida
procurando esse propósito, geralmente não encontramos tão cedo, precisamos de
anos sofrendo e apanhando da vida pra achar. Muitos não encontram, e passam a
vida toda se fudendo. Talvez ainda não tenha alcançado o meu propósito, talvez
a vida me reserve ainda alguma coisa melhor. Vamos ser honestos, tirando o
lance do café e da escrita, a vida melhorou bastante já. Não posso reclamar.
Mas sinto ainda que não cheguei onde eu devo ficar. Deve ter mais coisa. Mas o
que?
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