VIDA, SUA PUTA SAFADA – 07/2015

1.

Eu não sabia o que fazer com meus desejos. Eu só não sabia. Entendem? Não? Foda-se, assim eu gosto mais. Melhor. Quanto mais confuso, melhor. Nenhum lugar pra ir além do bar. Nenhum bar pra ir naquele dia. Certeza? Triste. Nada nunca presta quando é feito bêbado, e quando sóbrio, pior ainda. Meu pai me telefonou (ou ligou? Tanto faz), naquela tarde. Eu tava sem meias e sem sonhos.

- Alô - eu disse.

- Oi filhote, como vai?

- Pensando no que fazer com meus desejos, e você?

- Como é?

- Esquece.

- Tá escrevendo de novo?

- Tô sim.

- Vai me deixar ler?

- Nunca. Vai que você gosta.

- Se eu gostar é um bom sinal pra nossa relação pai e filho.

- E um péssimo sinal pra minha escrita. Se teus pais gostam do que você escreve, tu escreve muito mal.

- Ok, você quem sabe, eu cansei de te pressionar pra se abrir comigo.

- Eu também cansei de tentar te amar, acho que respeito é bom. Somos cavalheiros maduros, nada melhor do que um acordo entre nós, que tal?

- Você quem sabe. Te amo.

- Ok, beijos, preciso desligar.

Desliguei e achei minhas meias. As vesti, calcei meu tênis, olhei pro relógio da parede, aí lembrei que ele tava sem pilha. Eu gostava dele assim, com o tempo parado. Quanto mais o tempo passa, mais eu me fodo. A vida é uma puta safada.

Levantei da cama, bocejei, coçei as costas, lembrei da Carlinha, dei um sorriso bobo de saudade, fui na cozinha procurar uma cerveja, e pra minha sorte, tinha. Tomei. Era Bavária, eu sabia que ia me foder no dia seguinte, mas conhecem meus lemas: pau no fundo e foda-se meu cu. Vivo a vida como um gigôlo sendo usado por amigos, mulheres e bebidas baratas. Meus textos refletem o mínimo do que eu sinto, e é melhor assim, baby. Tenho só duas cartas na manga, e nenhuma delas vai me salvar nesse jogo.

Bebi a cerveja, pensei em quem ligar, pra onde sair. Parei de pensar e só saí. O tempo tava chuvoso e fechado, eu tinha uma cerveja barata, e agora meias, que agora estavam molhadas. Meu tênis tinha um maldito rombo na sola, mas eu não ligava muito pra isso. Meus problemas existenciais ocupam bem meu tempo, não preciso de mais nada. Nas esquinas putas, nas lojas patys, nos carros playboys, nas sarjetas bêbados, cada qual em seu habitat natural, cada qual em sua solidão. E eu pensando que tinha esquecido de dizer que amava meu pai. Foda-se, eu não amava mesmo.

 

2.

Encontrei um bar aberto, e lá tava rolando bilhar, karaokê e forró. Não gosto de forró, mas forró reflete sofrimento, e tudo que é sofrimento me interessa (dos sofrimentos do jovem Werther ao sofrimento da mãe que teve seu filho baleado), e isso me torna doente. Não tente me salvar, eu vou te puxar mais pro fundo do poço. Capiche? Palavras são palavras, eu tô falando da vida fora dos livros. Fora da minha vontade de embelezar minhas tragédias. Entrei na porra do bar, bati na porra do balcão, como uma porra de um homem, e disse com a porra da voz firme:

- Campeão, me dá uma Skol de litrão e três fichas pro karaokê!

E ele sentiu minha firmeza, e mal notou como eu fiquei de pau duro só de falar com esse tom de voz machista, opressor e vulgar. Voz grossa pra quem gosta de grosseria, rola grossa pra quem gosta de putaria, e assim a vida segue com as bebidas sendo tomadas.

No karaokê tinha uma fila de duas senhoras velhas e feias, um homem velho e feio e um outro cara com aparência sofrida, parecendo que tinha voltado de um enterro seguido de estupro (ou morte seguido de roubo, não sei). Coloquei minha ficha na fila e fiquei aguardando. Ir ao bar sozinho, significa duas coisas: ou tu é um bosta, ou tu é um merda. Tudo fede do mesmo jeito. Mas e daí, a vida é uma uma puta safada, eu quero me divertir com ela enquanto posso. E tenho que pagar sempre, mesmo que ela só me dê uma chupadinha de leve.

As velhas e feias cantaram forró, e quando terminaram me olharam com vontade de me devorar, de chupar minhas bolas e sentarem com aquela bunda na minha pica, mas eu ignorei. O velho feio cantou pagode de corno, e parecia triste também. Parecia que tinham arrombado o cu dele, mas eu não tava nem aí. Minhas meias ainda estavam encharcadas quando o último cara pegou pra cantar, e ele cantou um sertanejo das antigas (o que era boa música). Ahhh, esqueci de falar que enquanto eu suportava essas pessoas cantando, eu ia bebendo (sozinho, lógico), e isso me fez aguentar até que bem a espera. Bebida faz tudo ficar mais suportável, e faz o tempo passar mais rápido também. E por isso eu bebo. E se tu acha que sou alcoolátra, pode ter total certeza disso. E se vier com lição de moral, vai tomar no cu. Isso aí. Foda-se. Lição de moral me enche e me irrita mais do que meias molhadas. Gosto da minha vida assim, quem não gosta, que morra ou que vá se foder a quilômetros de mim.

Minha vez de cantar, e pra variar eu não sabia o que cantar. Escolhi um rock das antigas, e pra variar, sempre tem algum bêbado que vem querer puxar assunto e se envolver pra fazer um dueto (ainda mais vendo que tu está sozinho).

- Hey cara, posso cantar com você? - ele disse.

- Não cara, gosto dos holofotes só pra mim.

- Para de bobagem cara, é só uma música, não pega nada.

- Porra mano, tu tá sendo inconveniente assim.

- Qualé... Qualé garoto. Para com isso.

Odeio quando me chamam de garoto. Deus, porque tu não me deu porte de arma? Tudo o que eu mais queria nessa hora era sacar uma arma carregada, atirar na cabeça, no braço, nas pernas, no tronco, na porra toda. Descarregar balas estilo Rambo. Ou Tony Montana na cena final, quando ele morre no Scarface (desculpem entregar o final, assistam o filme mesmo assim), e ver aquela porra de bêbado morto, sangue misturado com álcool, álcool misturado com sangue, tudo muito lindo, e eu rindo de pau duro da cena genocida. Eu sou doente. Sei disso. Mas enquanto não me enjaularem, eu vou seguir por aí sendo um risco pra sociedade. E se me enjaularem, eu quero que me dêem choques pra tentar me curar. E camisas de força pra eu ficar me contorcendo no chão igual minhoca no asfalto quente. Isso sim é vida, o resto é morte.

- Ok - respondi só pra ele parar de encher o saco.

Cantamos bem mais ou menos. O filho da puta errava a letra o tempo todo. Eu tava sóbrio demais praquela merda. Precisava ficar bêbado. Resolvi tomar um quente. Cheguei no balcão com a violência de sempre.

- Me dá uma Maria-Mole nessa porra! - e batendo no balcão pra mostrar quem manda.

- É pra já, chefe - ele respondeu enquanto eu pensava "EU TENHO CARA DE ÍNDIO PRA SER CHEFE!? PORRA!"

- Ok - respondi enquanto ele já servia minha dose. Montou até que do jeito que eu gosto, bem pesada. Mais conhaque e menos contini.

Tomei tudo numa talagada só. Como um alcóolatra, dos veteranos. Daqueles que bebem álcool Zulu no desespero. E eu adoro desespero. Na real, tava uma merda. Mas eu bebo pra ficar bêbado e pras coisas fazerem sentido. Não faz sentido beber pra "apreciar", se tu quer apreciar, vai tomar suco de laranja. O meu suco de laranja vem com vodka. E que se foda o resto e/ou minha vida. E quando bateu aquele gosto de vômito (tô falando do drink), eu desci uma cerveja pra amaciar. E amaciou. E o cara do karaokê veio querer ser sociável. Eu não queria, eu queria beber em paz.

- Hey cara, como você chama? - ele perguntou.

- Hmmmm... - pensei num nome qualquer e disse - Flávio.

- Prazer Flávio, meu nome é Gabriel. Vamo jogar um bilhar, que tal? Eu pago a ficha.

- Beleza - respondi porque ele ia pagar, e de graça, até dedo no cu.

Começamos a partida. E eu ia bebendo. E ele também. Dois homens bêbados jogando. E eu sem cartas boas na manga e/ou na vida. Eu era o traste das meias molhadas. Senti saudades de estar em casa, com chinelos secos e a mão no meu pau, enquanto coçava ele por debaixo das cobertas. Mas ok, a vida é uma puta safada, e eu tinha que lidar com ela conforme a banda tocava.

A partida prosseguia, e eu comecei a ficar irritado. Fiquei irritado porque eu vi que o filho da puta tava roubando. Ele mexia na porra da bola sem usar o taco. Isso, NA MINHA TERRA, é roubo. Lá de onde ele veio, eu não sei.

- Cara, tu tá roubando. - eu disse.

- Tô nada, tu tá bêbado, tá vendo coisa.

- Tá me falando que eu tô vendo coisa?

- Sim, tu tá vendo coisa.

- Ah é? Que tipo de coisa? Bicho?

- Não cara, vendo eu trapacear. Sou honesto pra caralho, para com isso.

- Beleza, joga aí então, "amigo" - respondi sem fazer as aspas com os dedos, só com a mente.

Na hora que ele foi fazer sua tacada, eu peguei meu taco e VRRAAAUUUU, dei com tudo nas costas dele. O taco não quebrou, mas ele colocou as mãos nas costas de dor. Nisso, uns amigos dele vieram pra cima de mim, e eu tava bêbado e não sei brigar, então tá óbvio que levei uma surra. Socos na cara, depois me deitaram no chão e começaram a chutar minhas costelas, e eu tossindo pra porra (certeza que tava ficando gripado por causa das meias molhadas). Minha vida, meus sonhos e meus desejos nunca fizeram sentido. E ali também não fariam.

O dono do bar se incomodou com a cena de mim apanhando, e separou o bolo de filhos das putas me batendo. Me levantou e me deu um belo dum pé na bunda pra cair pra rua. E de rua eu manjava.

 

3.

Levantei e saí andando como sempre faço, e como havia feito. Minha cara estava fodida, eu sem dinheiro, minhas cartas na manga não valiam nada, minhas meias estavam molhadas e meu sapato com um buraco. Odiava meu pai, meu mundo, meus sonhos e meus desejos. Queria quebrar coisas, mas não tinha nada pra quebrar. Queria mandar o mundo à merda, mas meu mundo estava desmoronado. Queria não querer tanto, mas não conseguia. As velhas músicas sempre iam tocar ao lado dos meus textos ruins, das mulheres ruins e dos amigos ruins. Garrafas se empilhando são mero resultado de um acaso, são resultado de chegar em um ponto que não se sabe como chegou. E o problema não é chegar, é o que TE FEZ chegar. Filosofei demais. Confuso? Ótimo, gosto assim. Quanto mais confuso, melhor. Quanto mais caos, melhor. Eu queria que a polícia tivesse colado no bar, isso tornaria tudo mais insano AINDA. Adoro isso.

Fui andando até em casa, bem fodido. Não arrependido. Eu não ligo pras consequências das coisas, ninguém entende isso. Se eu tô dormindo em letargia apática, me deixem aqui assim até eu acordar. Ou nunca acordar. Foda-se, isso é indiferente pra mim, pra você e pros outros sete bilhões de seres que tão aqui tomando no cu.

Chegando em casa, primeira coisa que fiz foi um banho. Eu tava um traste. Minha mente é um traste, eu sei disso, sempre vou saber. O problema é quando esse traste acaba escapulindo pra fora da minha mente. E afeta meu corpo, ou as pessoas que estão ao meu redor. Odeio isso. Um banho, dos bons. Regenerativo. Isso sempre me anima. Parece que lavo a alma.

Saí do chuveiro, me enxuguei, coloquei uma samba canção, fiquei bem à vontade. Tava com sede, eu tava bem cansado, mas tava com sede. Precisava de uma cerveja, e urgente. Fui na geladeira, abri, cacei com uma fúria descomunal pra achar UMA maldita lata. Nada. Lembrei que tinha tomado a última Bavária antes de sair. Vida, sua puta safada.

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