A ENTREVISTA DE EMPREGO DE UM ALCOÓLATRA – 08/2015
1.
Eram mais ou menos 6h da manhã de uma segunda feira, eu
estava bebendo vodka pura, eu estava mais bêbado do que um gambá. Tava ouvindo
música, tocava nesse momento Third Eye, do Tool. Adoro a parte do ínicio que
ele fala “Eu acho que as drogas fizeram coisas boas pra sociedade, se você não
acha isso, me faz um favor: vai pra casa e pega todos os seus discos, todos os
seus livros, todos os seus filmes e queime. Porque a gente sabe que tudo isso
foi produzido por pessoas que estavam REALMENTE drogadas!” Sempre dou risada
disso, porque é verdade. A mente se liberta sob o efeito de coisas que as
libertam. Se você discorda disso, passe a apreciar somente pessoas que também
discordam.
Beber e ler poesia às 6h da manhã de uma segunda-feira,
ouvindo boas músicas. Muito bom, excelente, eu diria. Fazia um tempo que eu
procurava emprego, e nada de resultados, mas naquele instante, o telefone
tocou.
- Oi, por favor, senhor Carlos Reis?
- Quem gostaria? – respondi, tentando parecer sóbrio.
- Meu nome é Camila, eu falo da empresa Atitude e
Criatividade. A gente viu seu currículo, e temos uma vaga pra publicitário
assistente. Tem interesse na vaga?
- Puxa, mas é claro!
- Ok, a entrevista é às 9h da manhã.
- Qual dia?
- Hoje. Você consegue chegar?
- Claro, estarei aí, sem problemas.
- Obrigada, até logo.
Camila encerrou e desligou. Eu tava muito bêbado. Eu
precisava ficar sóbrio, e logo. Deus, eu precisava ficar sóbrio. Eu precisava
ficar SÓBRIO. Tem alguma coisa em mim que me impede de tomar boas atitudes
quando elas devem ser tomadas, e geralmente eu estrago tudo quando nada pode
ser estragado. O Carlos bêbado é um animal irracional. E por isso ele resolveu
parar com a vodka e abrir uma latinha de cerveja.
Fui pro banho (ainda com a latinha de cerveja, tá
tirando!?), bebendo e tomando banho, que sucesso. Me arrumei, terminei a
latinha. Saí de casa, peguei um ônibus que me levou até a estação de trem. Do
lado da estação, tinha um bar.
- Amigo, me dá um rabo de galo aí. – eu disse.
Ele serviu o copo, bebi tudo numa talagada só. Peguei mais
uma latinha de cerveja. Fui bebendo essa latinha, já não estava tão bêbado (ao
menos eu achava isso, apesar de saber que eu estava bêbado como um GAMBÁ), eu
sabia que ia dar certo, “Tudo sempre vai dar certo” e “Nunca deu merda, não é
hoje que vai dar” são meus lemas.
Quando cheguei no lugar, já tinha terminado a cerveja. Eu
sabia que tava fedendo a álcool, apesar de não perceber. Tava um calor até que
razoável na cidade de São Paulo. Fora essa porra de poluição, calotas de ar
quente e tudo aquilo que a gente vê nos jornais. Fui em direção à
recepcionista.
- OI, MEU NOME É CARLOS – gritei, estendendo a mão.
Ela me cumprimentou com uma cara de “Como assim!!??” e pediu
pra que eu sentasse pra aguardar. Sentei. Aí tudo se apagou e eu não lembro
mais de nada.
2.
Acordei em casa, eram mais ou menos umas 19h. Ainda de
segunda-feira. Meu celular tinha umas ligações perdidas. Retornei e
inacreditavelmente me atenderam. Basicamente, falaram que eu cheguei a ir até a
sala de entrevista, respondi algumas perguntas, mas acabei pegando no sono.
Fiquei apagado por uns 10 minutos, aí me acordaram. Quando me acordaram, eu saí
da sala, passando pela recepção e gritando “EU SOU O REI LAGARTO, EU POSSO
FAZER QUALQUER COISA”, e mostrando o dedo do meio pra recepcionista e pra todos
que estavam esperando ali. Sai batendo a porta. E aliás, não consegui o
emprego.
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