A HUMANIDADE DENTRO DE MIM - 02/2026
Eu preciso tornar isso um processo natural. Isso de
escrever. Na verdade, já é muito natural pra mim. Tão natural quanto o sujar
das minhas meias brancas em dia de chuva, não efetivamente por sujeiras fora do
meu controle, mas principalmente pelos meus passos rápidos e cambaleantes que
me fazem sempre bater o tênis sujo na lateral da minha canela,
consequentemente, sujando as meias. Tão natural quanto a cabeça acelerada com
mil ideias girando ao mesmo tempo, uma verdadeira espiral de paredes espelhadas
de cima pra baixo em eternalidade. Nunca para, nunca parou, nunca vai parar.
Aliás, vai sim. No dia que meu corpo virar matéria para alimentar outros corpos
que dependerão da minha matéria. É isso mesmo que estou dizendo: a minha morte
tendo meu corpo sendo comido por vermes para que eles possam se manter vivos. E
estou de boa com isso, de verdade.
Vamos logo pro texto porque tenho pouco tempo pra escrever.
Daqui poucos minutos tenho que buscar minha noiva no trabalho. Isso mesmo
pessoal, noiva. E com data marcada pra casamento.
Já sei. Vai ter sempre aquele babaca preso em 2013 pra me
questionar. Possivelmente vai me mandar um e-mail assim:
“Caralho Carlos, você afroxou mesmo, até outros tempos comia
buceta pra cacete por aí, tava nem aí pra porra nenhuma, só bebendo, cheirando e
quebrando a porra toda, se dizia ser um espírito livre e dizia ser alérgico a
casamento. E agora isso, mermão? Justo você? A voz de uma geração que cresceu
com pais divorciados e que jurou nunca repetir o erro deles, vai colocar tudo a
perder se amarrando com uma pessoa, colocar ela debaixo do mesmo teto que você
pra no fim ter a possibilidade de tomar um chute no rabo e sair destruído dessa
porra toda? Parece que você, Carlos, não é mais aquele durão de antigamente né?
Acho que a literatura vai morrer também, né? Vai falar de que se não for de
cachaça, droga e buceta? E agora, Carlos Reis? Vai pra onde?”
Brother, já meto logo uma frase de coach pra acabar com teu
barato: o adoecimento é a falta de mudança. Pode fazer um imã de geladeira com
essa, postar nas redes. Vai comer gente assim, pagando de intelectual. Talvez
seja nisso que se resuma tua vida.
Mariana é uma moça legal, estamos juntos faz quase sete
anos, apesar de tudo ela me conhece muito bem, nunca repensou nosso
relacionamento e não tenho dúvidas que é a pessoa certa pra eu meter essa
empreitada aí. Nos conhecemos com ela pedindo textos meus pra ler (ela jura já
ter lido todos os meus textos, portanto sabe de todas as merdas e erros que me
meti), e nisso fomos conversando até chegar onde estamos. Ela é sete anos mais
nova e não passou pela fase que passei de extrema loucura e uso abusivo de drogas.
Ela nunca encostou nessa porra, e nunca vai encostar. Teve uma criação conturbada,
mas o emocional tá em dia. Não surta e não grita, mesmo nas situações mais
caóticas. Não enche meu saco quando preciso ficar sozinho. Ao contrário de mim,
é meiga e super doce. Além disso é linda e me atende bem em tudo que preciso.
Sendo assim, não vejo motivos para não seguir em frente. E por isso estamos
nessa agora.
Tudo pode acontecer no futuro, mas como disse num poema de
2014: o dia de amanhã, nem Deus sabe. E digo mais: se você decide não fazer
alguma coisa no presente por medo de dar errado no futuro, você é escravo de
algo que ainda nem aconteceu.
Mas isso não significa que desisti da literatura para ter
uma vida normal. Mariana sabe disso e me incentiva. Inclusive ela vai estar na
dedicatória dos livros que estão praticamente prontos. E agora também em
inglês, praquele degenerado da Europa ou América do Norte poder me conhecer. Já
estou postando textinhos assim em plataformas digitais e outro dia um estranho sabe
se lá de que país escreveu “Your skill is fire”. Thanks, my friend.
E agora o texto.
Tirando o que já escrevi, que não foi pouca coisa também.
Mas quando comecei a escrever ia falar de outra coisa.
Sobre a falta de humanidade.
Pessoal adora dizer que sou frio e o cacete a quatro. Que
minhas respostas são secas e monossilábicas. Que pouco falo com os outros. É
verdade. Eu tenho muito pouco pra falar com 99% das pessoas. Hoje falo mais com
Mariana e com um amigo que tentou se matar por esses dias. Inclusive ele me
disse que tentou, eu simplesmente respondi pra ele “PUTA MERDA KKKKKKKK” Não
porque não me importo, mas sim porque não quero fazer disso um acontecimento.
Quero que ele siga em frente sem precisar disso. Ah, e tem também meu
psicólogo, outro que vai estar na dedicatória dos livros pois em uma das
sessões ele me disse que “Um monte de gente escreve biografia de uma vida sem
graça, você teve uma vida interessante, deveria escrever também.” Não sei se
disse isso porque eu pago as consultas em dia ou se realmente tive uma vida
interessante. Ele me disse que não sou frio, que isso é coisa dos outros.
“Esquece essa merda aí, mermão.” esse meu amigo suicida me
disse quando eu lhe disse que achei que eu não tinha humanidade.
Mas não esqueci.
Tava pensando nisso hoje. O fato de eu pensar ter ou não ter
humanidade, já é ter humanidade. Uma pessoa sem humanidade não tá nem aí pra
porra nenhuma, só é pau no cu com todo mundo e que se foda. Como diz o ditado:
que se foda todo mundo e que meu pau cresça. Já eu por outro lado, me
questiono. O fato de me questionar já me coloca a frente de muita gente, a
maioria tá vivendo no automático com foco total no acumulo de capital e
patrimônio, sem ajuda ou religião ou terapia ou esporte ou hobby nem porra nenhuma
e quando piscar os olhos vai estar com cinquentinha nas costas discutindo no
trânsito por causa de uma buzina mal dada. Então me considero de certa forma
privilegiado.
Analisando friamente o meu questionamento sobre eu ter ou
não humanidade dentro de mim, percebi que por mais que eu não fique abraçando
qualquer estranho que me aparece na frente, eu sou bom ouvinte. E isso é ter
humanidade. Sou bom nisso não porque eu necessariamente quero ouvir, mas eu
acredito que um bom escritor e uma pessoa com desejo de se tornar sábia (não
presumindo que sou, que fique claro) de alguma forma tem que saber ouvir os
outros. Além disso, eu ajudo qualquer um que eu efetivamente possa ajudar,
desde que eu não me prejudique pra dar a tal ajuda. Claro que eu penso em mim
primeiro, se eu não estiver bem, não consigo ajudar ninguém. Por fim, não sou
um psicopata uma vez que sinto amor incondicional pelos animais, e pela emoção
real que sinto ao ver animais sendo mal tratados, abandonados ou mortos.
Inclusive prefiro nem ver. Também me emociono a ver animais sendo bem cuidados
e felizes por estarem acolhidos e vivos, com seus devidos tutores. Não derramo
lágrimas, mas a emoção é perceptível pra mim.
Inclusive eu e Mariana temos cinco gatos (um deles mora com
a minha sogra por não ter se adaptado ao convívio com os outros quatro), e
francamente, gosto muito mais dos meus gatos do que de muita gente da minha
própria família. E a resposta pra isso é óbvia: gatos não me dão retornos. Eles
não me criticam, eles não se irritam comigo. Não me pontuam quando faço uma
merda. Simplesmente demandam carinho, cuidado e atenção. E enquanto eu der isso
a eles, eles vão me retribuir. E nossa existência vai ser perfeita, como é
hoje.
Quem diria que quando as garrafas, os pinos de pó e as putas
fossem embora, o assunto dos meus textos fosse gatinhos e casamento? Nem eu,
meu amigo, nem eu.
Coço a barriga do meu gato maior, ele é o único macho no
meio das outras, que obviamente são fêmeas, pesa pelo menos uns 8kg e é bem
desajeitado e carente, toda hora mia pedindo alguma coisa fora de hora, e
sempre tá colado nas irmãs querendo lambeijos. Observo tudo isso e por alguns
momentos o mundo parece um lugar muito mais pacifico do que realmente é. Por
aquele momento penso que nada mais existe além daquela situação. Me desconecto
da realidade por uma fração de segundos, quando de repente o jornal que passa
na TV volta do seu comercial e a âncora anuncia uma tragédia aleatória.
E geralmente isso acontece a noite. Me lembro dos problemas
que tenho que resolver no dia seguinte no trabalho e começo a anotar na agenda
tudo que tenho que fazer pra não esquecer de nada. Um erro pode ser fatal.
Muita gente depende de mim. E eu não jogar tudo pro alto pegando todo o crédito
bancário que tenho disponível e sumindo por aí, é também ter humanidade.
E errou quem disse que me encontro totalmente regenerado.
Não estou. Erro e ficou fudido igual todo mundo. Penso em desistir e fico horas
olhando pela janela remoendo meu passado e ansioso pelo meu futuro. Mas eu
estou tentando. Eu realmente tô tentando. E isso já é algo suficiente pra mim e
pra todos que eu realmente amo também. Inclusive para Mariana e meus gatos.
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