A VERDADEIRA INTELECTUALIDADE – 06/2015
1.
E o que falar desses grandes manjadores de poemas e poesias
e contos e prosas e leitores ávidos dos gênios da literatura mundial? Sempre
com suas pomposidades extravagantes, tomando bons vinhos, fumando bons
cigarros, se achando os melhores por bater em teclas. Por bater em TECLAS! Nada
além disso. Eles não são melhores ou piores do que eu, ou do que você, ou do
cara que vende picolé na praia. Essa intelectualidade tá me cansando, gosto de
lidar com gente que deita no chão e lê jornais velhos, e assiste o Jornal
Nacional e nem por isso se sente alienado. Gosto de gente burra, porque eu
tento ser burro. Cansei de ser intelectual, de tentar dar um sentido pro mundo,
um sentido pra minha vida, ou pra qualquer vida em volta dela. Agora eu quero
me divertir. Não quero entender mais nada, não quero sentar na mesa do bar e
falar de política fumando cigarros de filtro branco. Quero bater um papo, ou
melhor ainda, ficar calado, e nada além disso. Eu já tenho que pensar em muitas
coisas, tenho que pensar em pagar minhas contas, em não passar fome, em fazer meu
trabalho direito, em não tomar esporro do meu chefe, em como eu faço pra
consertar a minha pia que tá com vazamento de água. Eu tenho que exercitar
minha mente muito mais do que eu a quero exercitar. Então, se eu saio pra ir ao
bar, tudo o que menos quero falar é sobre poesia, ou sobre Rimbaud, ou sobre os
beats ou o livro novo do Bukowski. Quero beber e dar risada, nada além disso.
Todos podiam enfiar seus malditos e geniosos intelectos nos seus rabos, que por
mim, o mundo continuaria bom. Eu ainda iria sorrir quando estivesse embriagado
o suficiente pra deitar no chão e ficar cantando Doors me sentindo o Jim
Morrison (mesmo que eu não tenha o mesmo talento dele com as letras, a música
ou as mulheres). Beleza é uma palavra chata, obrigação, afff, mais chata ainda.
Eu só quero sentar e bater em teclas, não ser melhor ou pior, não chupar o
Olavo de Carvalho ou a Socialista Morena. Não quero reclamar do governo, quero
me divertir. Eu tô no mundo pra me divertir, o resto, eu engulo seco (já
contando os minutos ansiosamente pra me divertir mais), e assim a vida fica
mais agradável, e me parece um pouco melhor. E se tu não pensa assim, ÓTIMO,
menos uma pessoa que é importante pra mim. Porque o que mais importa não é o
quanto tu é inteligente, mas o tanto que tu é feliz.
2.
Três homens estavam no carro aquele dia: eu, Maicon e
Luciano. A gente tinha bebido demais (como sempre), mas adoramos exagerarmos
mais. Passamos por uma rua movimentada, bêbados na rua, vômito, mulheres sendo
vadias, homens sendo promíscuos, aquela merda de sempre. Parecia Carnaval, mas
não era. Tava rolando algum festival de rua, eu não sei dizer. Gente pra
caralho, mar de gente. Tanta gente que mal cabem todas no texto.
Vi duas meninas lindas do outro lado da rua. Pensei em
chegar nelas pra bater um papo, quem sabe pegar o telefone, eu não sei, algo
assim, depois chamar elas pra tomar uma cerveja (elas não, uma de cada vez),
falar que desisti de ler os gênios, e que agora estava me dedicando à garrafa,
e que se ela achasse isso atraente, poderíamos ter uma chance. E quem sabe,
depois de um tempo, a gente pudesse se beijar, e depois de mais um tempo, eu
poderia arrastar ela pra minha cama e a foder como se não houvesse amanhã. Aí
depois a gente podia namorar, e com o namoro viriam as brigas, até que
terminaríamos de vez, uma hora ou outra. Cortaríamos contato, fatalmente. E
dois grandes conhecidos se tornariam os mais estranhos possíveis um pro outro.
Lance de que quando trombasse na rua, virasse a cara sem fazer contato visual.
Coisa pesada. Eu tava acostumado a isso, e lidaria bem. Enfim, pensei nisso
tudo, e acabei desistindo. Encostamos no primeiro bar um pouco menos cheio
dali.
- Amigo, trás uma cerveja por favor - acenei pro garçom.
- Qual?
- Qualquer uma, eu só quero beber, e rápido.
- Cê que manda, chefe. - ele disse, saindo rindo na
sequência.
- Nossa vida é uma grande merda que a gente tá remexendo,
tentando achar uma moeda de ouro dentro. Mas nunca achamos. - Luciano soltou
essa pérola filosófica ABSOLUTAMENTE DO NADA.
- Tanto faz - Maicon disse, acendendo um cigarro - e teu
livro Carlos, a que pé anda? - ele virou pra mim, perguntando.
- Uma merda. Mas não quero falar disso. - respondi.
- Porque não?
- Puta negócio chato. Vamos beber. - eu disse, apontando pra
cerveja que chegava.
Servimos três copos, brindamos, demos um gole. Mais três
copos, outro brinde, e outro longo gole. Isso era alcoolismo, o resto é passeio
no parque.
- Cansado dos escritores? - Luciano perguntou.
- Mas é claro...
- Enfim, e o resto da vida?
- O de sempre, o de sempre... Hey, o que acham da gente
beber mais e falar menos, que tal?
- Por mim pode ser. - disse Maicon.
As cervejas desciam como água, a paz fazia parte dos nossos
seres, mesmo que por meros instantes. Toda alegria é passageira, e toda dor
também é. A questão é a forma como encaramos uma ou outra. Desde que a gente
aprenda a não engolir tudo tão dolorosamente, ou a curtir tudo de forma tão
vazia, tá tudo certo. O mundo é um lugar suportável na maioria das vezes, nós
que complicamos demais. Assim como os escritores complicam demais, querendo
intelectualizar tudo.
Beber calado num boteco é a coisa mais intelectual a fazer.
Pena que são poucos que fazem isso.
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