A VIDA É BELA, PORRA – 10/2018
"Afinal, o que eu tinha prometido pra mim mesmo anos
atrás?"
Eu me perguntava isso quase todos os dias, quase todas as
horas e quase todos os momentos daquela época sombria. Meus passos eram até
mais tristes, eu não sorria mais, eu não queria nem mais beber, havia trocado o
alcoolismo pela depressão raiz, daquelas que são super valorizadas por todo
mundo, mas que só quem sente na pele vê o sofrimento. Acordava todos os dias
sem vontade alguma de sair da cama, me alimentava mal e diariamente pensava em
suicídio, mas eu era covarde demais pra tal coisa, pra tal passo. Por isso, me
trancava em casa e esperava o tempo passar.
"A vida está no ar. Basta respirar ela e pronto, Deus
faz o resto do milagre!"
Uma amiga minha me falava tentando me animar. Eu só pensava
em eliminar qualquer esperança de melhora e continuar afundado em depressão.
Infindáveis noites de sábado em que eu não queria aprender a viver, e me
afundava em copos de café e cigarros, música triste e pensando no que eu tinha
prometido pra mim mesmo anos atrás.
Eu estava sem chão.
Perdendo toda a luz e desistindo de iluminar qualquer
caminho que poderia me fazer querer seguir alguém pra algum lugar.
Pensei muito no que havia me tornado, e esse deve ter sido
meu maior erro. Remoí todo meu rancor por dias e dias, me torturei e me auto
flagelei, desisti de mim mesmo e depois retornava a tentar apenas respirar.
Passei por psiquiatras e psicólogos que não entendiam meu caso e desistiram de
mim, deixei de sair com pessoas por achar que elas me sufocavam, mas ao mesmo
tempo, a solidão me sufocava também.
Crises de ansiedade eram completamente normais, e eu sabia,
eu sempre soube que não existiria milagre, eu ficaria deitado na lona, ou no
fundo do poço, enquanto eu quisesse e/ou pudesse ficar assim.
O bom e velho valor da amargura!
Nada como a boa e velha melancolia!
Como um foguete sendo disparado sem previsão de volta, a
tristeza era uma realidade tão real que ardia meus olhos ter que me olhar por
dentro, ter que me encarar, ter que pensar em morrer e não poder falar
diretamente: "QUERO MORRER!"
Porque isso soaria brutal demais. Doentio demais. Amargo
demais. E principalmente, trágico demais. Dramático demais.
"A vida é bela!"
A vida é bela. Eu sabia que ela era. Ainda sei. O texto está
escrito no passado pois isso é passado. Eu prefiro não falar o ano. Prefiro
dizer que isso não me afeta mais. Mas me afeta. O sofrimento ainda é real
demais. Parece que aconteceu tudo ontem.
Lidar com a dor é doloroso, obviamente. E não é bom ficar
pensando muito nisso. Pra isso, tenho uma tática: jogo tudo no papel e esqueço.
A maioria dos meus textos está perdido por aí, eu consegui escrever 4 livros e
tem mais uns 500 textos que não estão em livros, que não estão salvos em lugar
nenhum. E que bom que estão assim.
Perdidos.
Como eu estive nessa época.
Como ainda estou, em alguns dias, atualmente.
Hoje acordei me sentindo um cara muito foda, e termino meu
dia me sentindo um completo lixo. Degenerado. Normal.
Eu sei que dessa época obscura que citei acima, sempre vai
ter um pingo escondido em algum lugar. E, eventualmente, esse pinguinho vai
crescer e crescer e tentar tomar conta de mim novamente.
Como um oceano nascendo.
Mas eu não vou deixar.
Não vou deixar porque hoje quem manda nessa porra sou eu. Eu
me tornei aquilo que jamais pensei que me tornaria. Hoje eu sou auto
sustentável. Meto o dedo na cara das pessoas e digo o que devo dizer, sem
pestanejar. Sem achar que sou fraco demais.
Eu sou aquele cara fudido que mata as pessoas nos filmes em
câmera lenta.
O rapaz que come a mocinha no final, depois de derrotar o
vilão.
Hoje eu tenho uma péssima notícia pra quem queria me ver no
chão: eu não fracassei, meu amigo. Eu. Não. Fracassei. Porque hoje eu não bebi
nada alcoólico, porque hoje eu saí da minha cama e fiz o que tinha que fazer.
Porque hoje eu sorri pra um cara que tava na rua e dei um lanche pra ele não
passar fome. Hoje eu fiz a diferença no mundo, mesmo que de leve, mas eu fiz. E
amanhã pretendo fazer o mesmo. E se alguém ou alguma coisa quiser me atrapalhar
nisso, eu farei o que sempre fiz. Vou sorrir e esperar a coisa ruim desmoronar
sozinha. Porque eu sou capaz de mudar o mundo. Mas o mundo não é capaz de me
mudar.
Ah. E o que eu havia prometido pra mim mesmo anos atrás? Que eu seria uma pessoa melhor a cada dia que passasse. E venho sendo. E isso me satisfaz.
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