BLACK FRIDAY – 02/2013
1.
- Você é feliz? - Renatinha perguntou com aquele sorrisinho
no rosto.
- Ahhh cara, sei lá, ultimamente estou meio pra baixo, mas
vamos indo né - César respondeu com aquela cara tímida dele.
- Bom, tenta ficar bem... Você é muito especial!
- Valeu Renatinha, valeu. Agora vou indo, já terminei meu
projeto. - César disse com aquele olhar frio, dando um beijo no rosto dela.
César saiu por volta das 18h do trabalho. Ele era um dos
grandes intelectuais de uma multinacional, trabalhava na área de publicidade da
empresa. Com apenas 28 anos já ganhava mais do que muita gente que tem 40, e
era adorado pelos seus chefes. Passava uma imagem de bom moço, estava bebendo
pouco, não ia pras noitadas, morava sozinho num apartamento ali em Santana, na
Dr. César, estava bem localizado, tinha um bom carro, um Honda Civic 0km. Seu
trabalho lhe sugava bastante, e naquela altura da vida ele estava se sentindo
muito sozinho, muito mesmo. Via pouco seus amigos e as pessoas que ele via
bastante, com certeza amigos não eram. Ele sabia que o pessoal no trabalho o
invejava, mas ia seguindo vivo, ainda que com um sentimento de tristeza
latente.
Era sexta-feira. Chovia uma garoa fina, estava bem nublado
em São Paulo, ele foi pro seu ap. Chegou lá e fez o que fazia todas as noites.
Ficava sozinho, estático. Não tinha muita motivação pra nada, ele não se sentia
muito bem, isso era sempre, mas naquele dia bateu errado, ele não estava mais
aguentando aquele sentimento que lhe corroia, como a ferrugem corrói o metal.
Ele pensava como Bukowski pensava, achava que a vida e ele não se davam bem,
ele tinha que comer a vida pelas beiradas, era como se engolisse baldes de
merda. Ele tinha uma boa vida, mas a solidão é um dos piores malefícios de
todos, te faz surtar. Em uma fração de segundos ele teve uma ideia meio maluca,
mas que naquele momento lhe pareceu sensata.
Saiu de casa, eram cerca de 20h, ainda garoava naquela sexta
fria. Quando ele era mais novo ele costumava se drogar bastante, assim como
muitos publicitários, portanto ele ainda conhecia alguns lugares que não
prestavam. Passou numa biqueira, ali no Jardim Brasil, resolveu fazer umas
compras. Pegou cerca de 15 gramas de cocaína, um smack de heroína. Pensou em
pegar maconha, mas ela não serviria pra concretizar sua ideia. Passou no
mercado, checou a lista de compras:
- 1 garrafa de whisky Black Label
- 1 garrafa de vodka Absolut
- 1 maço de cigarros Marlboro vermelho
Pronto. Ele estava pronto pra concretizar sua ideia, estava
realmente carregado naquela noite, seria "a noite", a sua última
noite de sofrimento. Logo aquilo tudo iria acabar, as pessoas, a falsidade, o
cansaço do mundo, a solidão, tudo que existia de ruim logo se tornaria somente
um corpo num caixão, sem mais preocupações, sem mais problemas com mulheres...
Chegou em casa, fez um balanço da sua vida. Lembrou dos seus
diversos traumas, chegou a pensar em mulheres, mas isso ele já tinha desistido
de vez faziam uns 5 anos. Eram longos 7 anos sem namorada, só no sexo casual,
ele abraçou a ideologia de "ficar com quem você não gosta e se você
começar a gostar, termine", de uma forma bem consciente. Mulheres,
definitivamente não eram o motivo daquele suicídio, talvez inconscientemente,
mas na cabeça dele, isso não era com certeza. Era o resto do mundo mesmo,
aquilo havia cansado ele. Já não tinha mais paciência pra ficar de papinho, não
queria mais assistir o mundo girar, pessoas nascerem, pessoas morrerem, isso
tudo havia cansado ele. "Você é feliz... Que papinho mais chato, se fuder
viu" César pensava enquanto acendia o primeiro cigarro da noite. Parece
que tudo tem que ter um objetivo, e isso cansava ele, ele já não tinha mais
planos, já tinha dinheiro, comia mulheres bonitas, já tinha vivido tudo o que a
vida pode lhe oferecer, não fazia mais sentido estar ali né?
2.
Pois bem, deu inicio ao processo todo. Abriu a garrafa de
whisky, serviu um longo copo, colocou uns cubos de gelo. A vodka ele guardou no
congelador "talvez nem tome essa merda hahahaha", pensava enquanto
entornava o whisky. Decidiu começar com a heroína e depois ir mandando cocaína
em cima de cocaína, certamente ele teria a tal overdose, e sozinho, iria
morrer. Ele nunca tinha injetado heroína, mas resolveu tentar. Pegou uma
seringa no quarto e uma colher e um pouco de água na cozinha. "Não deve
ser muito diferente dos filmes", jogou a heroína na colher, pegou água, e
acendeu um isqueiro em baixo, pra tentar diluir o pó. Quando o pó parecia bem
diluído, pegou a seringa, deu uma boa puxada. Dispensou a colher, pegou um
cadarço do seu tenis Nike, amarrou o braço esquerdo com força, até a circulação
parar. Pegou a seringa com o braço direito e injetou a droga de uma só vez na
veia que estava mais pulsante. Bateu a letargia de forma instantânea, ele
desmorou no sofá. A respiração ficou rápida e ofegante, mas ele ainda estava
consciente. Passado uns dez minutos se levantou, bebeu mais um pouco do whisky.
Foi no aparelho de som, pensou numa boa trilha sonoro pro momento, cogitou The
Doors com The End, mas desistiu. Resolveu morrer ouvindo aquele album que ele
sempre idolatrou, Dark Side of the Moon do Pink Floyd. Colocou o cd em modo de
repetição "pronto, Floyd a noite toda", acendeu mais um cigarro e foi
em direção aos pinos de cocaína. Despejou um deles, que tinha 1.5g em cima da
mesa da sala. Nesse momento tocava o finalzinho de Breathe
For long you live and high you fly
But only if you ride the tide
And balanced on the biggest wave
You race towards an early grave.
Montou cerca de 8 carreiras bem gordas e grandes. Nesse
momento ele percebeu que a noite ia ser longa "nem morrer é fácil
hahahaha" pensou e mandou as duas primeiras, já bebendo mais whisky,
matando o copo. Continuou fumando seus cigarros, resolveu pegar logo a garrafa
de whisky, naquele ponto nada mais importava, muito menos beber no copo ou no
gargalo. Bebeu mais um pouco, mandou mais duas carreiras.
Ele foi mandando carreiras, fumando e bebendo. O primeiro
pino já havia se esgotado, estava na metade do segundo. Estava agitado, não
ficava sentado por nada, andava de um lado pro outro, atônito, mexendo no
cabelo, bufando, os olhos se revirando. Nesse momento tocava o finalzinho de
Money
Money, so they say
Is the root of all evil today.
But if you ask for a raise it's no surprise that they're
giving none away.
"Será que escrevo uma carta de despedida?" pensou
enquanto tomava seu whisky. Na verdade, na verdade mesmo, não tinha de quem se
despedir, ele havia se tornado um misantropo, odiava a tudo e a todos, não
falava mais com a sua família, não fazia sentido se despedir de ninguém
"péssima ideia, péssima ideia mesmo!" e mandou mais duas carreiras de
cocaína, e depois de assoar o nariz mais duas, matando o segundo pino.
Olhou pra um quadro branco que ele tinha na sua sala, que
ele escrevia seus pensamentos em suas noites de solidão. No momento não havia
nada escrito ali, decidiu deixar um recado. Pegou o canetão preto e escreveu em
letras garrafais:
"ME DESCULPEM POR TER MORRIDO! AO MENOS MORRI FAZENDO
AQUILO QUE ME CONFORTA, QUE SE NÃO ME DEIXA FELIZ, AO MENOS RASGA OS CULHÕES DA
MINHA TRISTEZA!"
Abriu o terceiro pino, montou mais 8 carreiras. A garrafa de
whisky estava chegando na metade, ele não dava sinais de vômito, talvez por
causa da cocaína, não se sabe. Ainda tinha muitos cigarros, mais da metade
certamente. Cheirou mais duas carreiras, já não sentia mais o rosto todo. Deu
mais uma golada no whisky, e acendeu mais um cigarro quando tocava Brain Damage
The lunatic is in my head.
The lunatic is in my head
You raise the blade, you make the change
You re-arrange me 'till I'm sane.
You lock the door
And throw away the key
There's someone in my head but it's not me.
And if the cloud bursts, thunder in your ear
You shout and no one seems to hear.
And if the band you're in starts playing different tunes
I'll see you on the dark side of the moon.
"Eu te verei no lado negro da lua..." e mandou
mais duas carreiras, seguido de mais um trago da bebida e continuando aquele
cigarro que acabara de acender. Continuou mandando bastante, ele estava bem
resistente aquela noite, mas droga não seria problema, ele tinha o suficiente
para matar umas duas pessoas, era fato de que ele morreria naquela noite, era
só questão de tempo e de força de vontade. E quando um suicida está determinado
ele consegue se matar, é que as pessoas desistem muito rápido.
3.
Quando ele abriu o quarto pino bateu uma bad trip. Começou a
pensar nas coisas, chegou a chorar, pensou em todos os seus traumas, os
abandonos, as surras, as frustrações e em tudo que pudesse lhe fazer chorar
naquela noite. Assoou o nariz ainda mais, tirando catarro pra abrir espaço pro
pó. Segurou o choro por um momento, mandou mais duas das gordas e longas
carreiras. Nesse momento ele começou a cair na real do que estava fazendo,
encarou que sim, ele ia morrer, ele ia para um mundo completamente desconhecido,
ia saber como é estar do outro lado. O disco do Floyd já estava tocando tudo de
novo, e nesse momento tocava On the Run
Live for today, gone tomorrow, that's me, HaHaHaaaaaa!
Aquele som frenético, aquele barulho de helicóptero, tudo
aquilo o deixava ainda mais paranóico e assustado. O medo bateu, ele bebia o
whisky feito água, já estava quase no fim da garrafa. Ainda tinha uns 6
cigarros, mas cocaína, isso ele ainda tinha seis pinos fechados. Conseguiu com
muito esforço matar o quarto pino da noite "caralho, já nem entra mais
essa merda!" reclamava do nariz entupido. Matou a garrafa de whisky, abriu
o quinto pino, despejou sobre a mesa, montou mais 8 carreiras. Foi na cozinha,
pegou a garrafa de vodka, voltou pra sala, mandou mais duas carreiras gordas.
Por um instante teve medo da morte, parecia que foi uma atitude precipitada,
talvez só fosse uma sexta feira amaldiçoada, negra, o tempo chuvoso talvez
tivesse deixado aquele dia mais triste, talvez no sábado as coisas melhorassem.
Cheirou mais duas carreiras, bebeu um trago da bebida, agora vodka, e repensou
"não não, as pessoas não vão mudar, tudo vai ser a mesma coisa, se não
piorar né?" e decidiu prosseguir com a sua ideia suicida, quando tocava
The Great Gig in the Sky, já no finalzinho...
And i am not frightened of dying,
Any time will do, i don't mind.
Why should i be frightened of dying?
There's no reason for it,
You've gotta go sometime
Terminou o quinto pino e então desmaiou, com a garrafa de
vodka pela metade e uns 3 cigarros ainda no maço. O cheiro de morte subiu
naquele apartamento bem decorado e César finalmente conseguiu escapar daquilo
que o corroia.
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