CHAMADO DIVINO E A QUEBRA DE CONFIANÇA – 01/2016
1.
Chovia fino do lado de fora, eu podia ouvir pelo barulho
leve que as gotas pequenas faziam ao tocar a janela da sala do meu apartamento.
Eu tava sentado na sala, garrafa na mão, olhando pra TV desligada, pensando na
vida. Gabriela tinha ido embora, e por isso, a bebedeira. Eu sei que não
resolve, mas ajuda a esquecer. E se ajuda a esquecer, ótimo. O telefone tocou.
Achei que era Gabriela, mas claro que não era. Carlos, tu é um romântico
imbecil.
- Alô. - atendi secamente.
- Fala Carlos. É o Gustavo.
- Fala cara, tudo bem?
- Tudo sim, e você? Ainda bebendo por aquela vagabunda?
- Aham.
- Para com isso, Carlos. Tu tá bebendo há 4 dias e 3 noites.
Sabe o que isso significa?
- Sei. Que eu tô na merda.
- Não, tu não lembra o que me disse uma vez?
- Eu não lembro o que eu fiz pra Gabriela pra ela sumir,
quanto mais o que te disse uma vez.
- Pois é, eu lembro. Tu me disse que nenhuma buceta vale
mais do que dois dias de bebedeira. Tá indo contra seus conceitos?
- Meus conceitos que se fodam.
- Para com isso. Posso colar aí ou tu quer ficar mais
sozinho?
Olhei a garrafa, tava quase vazia. Litros e litros de
cachaça. Tudo dentro de mim, agora. Fodendo meus rins, meu fígado, meu cérebro,
minha paz mental, meu estômago. Fodendo minha vida. Eu tava estático dentro do
meu próprio ser. Eu era meu maior erro. Ninguém era culpado além de mim mesmo.
"Deus, onde você está que nunca aparece?", pensei. Mas cheguei à
conclusão que Deus apareceu através da ligação do Gustavo. Era uma chance de
tentar alguma coisa. No fundo eu já tava, eu não tinha nada a perder. Jurei pra
mim mesmo uma vez que nunca perderia o controle da minha vida outra vez, e eu
estava perdendo.
- Beleza, cola aqui. Vamos comer alguma coisa, pode ser?
- Ótimo! Tô indo aí ser sua vadia, vou te fazer comidinha e
te tratar com carinho.
- É o que pega, gato hahahaha. Beijos.
- Beijos.
Sentei e respirei. Levantei e comecei a recolher algumas
garrafas esparramadas. O que deprime não é necessariamente a bebida acabar, é
olhar pro lado e só ver caos e bagunça e desespero. Recolhi as garrafas, levei
pro lixo do corredor do prédio (ainda de samba canção), voltei, fui ao
banheiro, dei uma cagada que me rejuvenesceu, entrei no banho e fiquei uns bons
15, 20 minutos embaixo do chuveiro. Chorei, consegui chorar. Eu sou um homem
durão, mas tem aquele pontinho de sentimento que às vezes aparece. Gabriela
tinha sido uma boa mulher, que tenha boa sorte na sua vida.
Saí do chuveiro, me sequei, coloquei outra samba canção,
quando a campainha tocou. Era Gustavo.
- Fala man. - ele cumprimentou.
- Fala gato, beleza?
Demos um aperto de mãos e um abraço.
- Suave. Escuta, tu tá com uma cara horrível!
- Se fosse só a cara, tava ótimo. - respondi abrindo
passagem pra ele entrar.
- Faz quanto tempo que tu não come?
- Ontem comi pipoca. Anteontem nada. E antes de antes de
ontem, eu não lembro. Serve?
- Tu tá acabado. Vou fazer uma comidinha pra ti.
- Não precisa...
- Eu disse que ia ser a sua vadia, não é? Então serei.
- Sendo assim...
Fomos na cozinha, eu tinha macarrão, queijo, molho e uma
lata de atum. Gustavo começou a cozinhar, abriu a geladeira e pegou uma latinha
de cerveja pra mim e uma pra ele. Abrimos, brindamos e começamos a beber.
- E as cachaças, acabaram? - ele perguntou.
- Sim, tomei tudo.
- Quantos litros?
- Sei lá, uns cinco.
- Meu Deus, Carlos. Não faz isso, tu sabe que não pode beber
assim.
- Eu tenho motivos.
- Mulher não pode ser um motivo.
- É o principal deles. - respondi golando a cerveja.
- Cadê aquele Carlos festeiro que sempre conheci?
- Não sei, vai procurar ele.
- Você precisa reagir.
- Ouço isso faz 23 anos. Para com essa merda, man.
Gustavo cozinhou mais um pouco o macarrão, golou a lata dele
e disse:
- Escuta, vamos comer e ir pra uma festa mais tarde, que
tal?
- Quer mesmo me tirar da fossa, né?
- Claro que sim. Cê precisa espairecer. Ficar aqui bebendo
não vai trazer a Gabriela de volta.
- Eu sei, nem quero. Imagina ela me ver nesse estado.
- Pois então - ele deu outra golada na breja - vamos sair e
se divertir. Vai ser legal, vai ser na casa do Marlon.
- Hmmmmmmmmmmmmm
- Pois então, lá é legal.
- Aham, é legal lá.
Almoçamos tomando cerveja, rindo e conversando
trivialidades. Deus pode existir, pode não existir, pode ser coisa da cabeça de
gente fanática, pode não ser, mas eu sabia que Gustavo estava tentando me
salvar. Eu sempre dizia "Não tente me salvar, eu vou te puxar pra um
buraco maior ainda". As pessoas no geral são boas, pena que não saibam ler
sinais de ajuda. Eu nunca soube, eu nunca ouvia as pessoas, nunca as ouvi,
sempre permaneço calado quando sinto que estou sendo chato, sempre fecho os ouvidos
quando não me interessa, sempre ignoro quando não tô prestando atenção. Eu era
um rato de bueiro, eu era o lobo solitário fora da matilha. Lobos são como
humanos. Andam em matilhas quando lhes interessa, mas geralmente, ficam
sozinhos. Gabriela esteve na minha matilha enquanto interessou a ela, quando
não interessou mais, simplesmente foi embora. Sem mais nem menos. Eu não a
julgo, já fiz isso. Costumo dizer que tô pagando um preço por ter sido tão
babaca por tantos anos com tantas mulheres. Gabriela foi mais um pagamento de
vários por virem ainda.
A chuva tinha parado, o Sol dava sinais de que queria
aparecer pra dar um oi, pra dizer "Hey, olha pra mim, a vida é boa".
- Vamo na festa. - disse de repente pra Gustavo.
- Porra! Aí sim, caraio!
Matamos a cerveja, eu coloquei uma camiseta de banda
(Matanza), uma calça surrada e um tênis Nike. Deixamos a louça pra outra hora.
Tinha perdido dias demais da minha vida, não queria perder mais tempo.
2.
Chegamos na casa do Marlon. Ele era um sujeito legal, tinha
praticamente a mesma idade que eu e morava com os pais, mas eles tinham viajado
naquela terça feira, e nada mais justo do que dar uma festa pra comemorar a
ausência deles. Nada contra, mas os pais deles eram do tipo conservadores, que
enchem o saco quando tu saca um cigarro pra fumar, ou quando toma mais que três
cervejas. Odeio gente assim. Moralismo de cu é rola, não gostou, vai lá pro
exército onde nada disso pode ser feito. Eu tô num país livre, sou uma pessoa
livre e só de ouvir a palavra "moral" eu sinto arrepios. Sou um erro,
mas dentro desse erro acabo sendo meu acerto. Complicado falar.
- Fala Marlon. - cumprimentei ele, aperto de mão e abraço.
Gustavo também o cumprimentou da mesma maneira, entramos e
fomos bem recebidos no geral por todos. Essas festas são sempre repetitivas,
mas de repetição eu entendo, uma vez que tava enchendo a cara pois uma mulher
foi embora, e isso que sempre fiz e sempre farei.
- Olha só quem saiu da toca! - disse Luís, de longe e já
vindo me cumprimentar.
- Aham, consegui convencer essa vadia - disse Gustavo, me
dando um tapa no ombro.
- Pois é, não dá pra ficar bebendo sozinho pra sempre, eu
preciso socializar às vezes hahaha.
- O grande escritor Carlos Reis não é tão durão assim, ein.
- Luís disse, soltando aquela sua gargalhada característica na sequência, em
que ele joga a cabeça pra trás.
- Ele só precisa de uma surra pra aprender. - disse Gustavo,
e eu quase dei razão pra ele.
- Beleza, agora que já me zuaram, cadê a minha cerveja? -
perguntei.
- Aí sim, esse é o Carlos que eu conheço.
Luís foi buscar uma latinha pra ele, uma pra mim e uma pra
Gustavo. Sentamos no sofá e começamos a beber. Tava tocando Strokes, o primeiro
disco. Esse em especial eu gosto, principalmente pela faixa
"Someday", que sempre me anima. No geral, não curto esse estilo, não
gosto desses indies malditos metidos a hipsters. Não gosto de nenhum
estereótipo, nada que as pessoas se abracem e digam "Eu sou isso, eu sou
aquilo, sou só assim e pronto". Não cara, você é um ser humano complexo,
tua complexidade é enorme demais pra se rotular assim, fácil. Existem milhões
de coisas no mundo, e tu não conhece nem 1% delas, como pode se sentir o dono
da verdade assim, tão fácil. Geração estúpida, mimada e mesquinha que tava por
vir. E por isso evitava sair de casa.
A festa rolava bem, as cervejas desciam geladas. Detalhe que
era Heineken, Marlon tinha dinheiro. Eu como fudido que sou, cheguei lá só com
a roupa do corpo e a vontade de beber.
- Vai tomar quente, Carlos? - Luís perguntou.
- Tô suave de quente.
- E você, Gustavo?
- Desce uma vodka com coca pra mim, por favor.
Luís saiu pra pegar os drinks. Enquanto ele tava na cozinha,
passou uma mestiça linda pela sala. Ela tava no quarto com as amigas. Lógico
que imaginei uma orgia, mas não sei se isso aconteceu. O cabelo dela era lindo,
tudo o que eu mais queria era cheirar aquilo deitado de conchinha com ela numa
cama de solteiro ouvindo Cícero. Mas eu sabia que era impossível, ao menos
naquele momento.
- Quem é aquela? - perguntei, apontando de leve pra moça.
- Irmã do Luís. - Gustavo respondeu.
- Sério!!??
- Sim, muito sério. Porque?
- Ela é uma delicinha.
- Carlos, sossega esse pau.
- Ele nunca sossega. Já disse que sou um insaciável em
questão de buceta. Por mim eu como uma todo dia, pelo menos 3 vezes por dia.
- Carlos, essa mina é problema...
- Olha, a considerar pelo que vejo, o problema é eu não
estar dentro dela ainda.
- Ela tem 17 anos!
- Já comi uma de 16.
- O QUÊ!!??
- Aham, isso aí - respondi bebendo mais Heineken.
- E aí, como foi?
- Ela fodia como uma égua no cio. Foi ótimo.
- Carlos, tu é o verme mais escroto que eu conheço.
- O mais escroto?
- Aham, o pior.
- Ótimo, estou no caminho certo.
Luís voltou com os drinks. E trouxe mais uma cerveja pra
mim. Abri a latinha, joguei a tampa no chão e prossegui bebendo. Nada contra
essas bebedeiras sociais, mas curto mais beber sozinho. O que é errado, mas
foda-se, não tô aqui tentando ser certo.
- Luís, tu nunca tinha me dito que tinha uma irmã. - disse
golando cerveja.
- Claro que não, tu ia tentar pegar ela.
- Calma cara, não precisa ser assim, tão rude. Seu grosso.
- Com você tem que ser assim. Tira o olho da minha irmã.
Entendeu? - ele disse, penetrante.
- Relaxa cara, esse pau aqui não entrará na sua irmã, fica
suave.
- Ótimo. - ele disse, dando uma golada das grandes no seu
drink.
Prosseguimos bebendo durante o dia todo, até o anoitecer.
Falando coisas bestas. Gosto de gente que consegue ser desencanada mas ao mesmo
tempo tem assuntos bons. A maioria tem uns papos cinzas, chatos. O mundo se
tornou um grande câncer, eu não consigo manter um diálogo por mais de 15
minutos com a maioria das pessoas. Não que eu seja mais inteligente, eu devo
ser mais burro. Espero que eu seja mais burro. Pra mim é tudo muito simples,
pena que as pessoas não entendem de várias coisas, e ficam só falando de
seriado, carros, academia, etc etc etc. Isso tudo cansa. E por isso eu bebo. E
por isso eu sempre bebo.
A festa tava boa e eu não queria ir embora tão cedo.
3.
Meu problema não é a bebida, são os excessos. Eu peco pelos
excessos, somente isso. Se eu não exagerasse com a bebida, não teria problemas.
Eu exagero com tudo: bebida, trabalho, falta de trabalho, mulheres, amor,
raiva, vícios, músicas, dramas pessoais, entre outras diversas coisas. Que não
merecem ser citadas. Até merecem, mas vou guardar pra uma próxima. Preciso ter
uma garrafa na mão, digo, uma carta na manga. Nem todo texto tem criatividade,
eu me cerco de clichês e não tô nem ligando.
Pois bem, eu estava bêbado, muito bêbado quando levantei pra
ir ao quarto tirar um cochilo. Gosto de descansar quando estou bêbado, isso me
faz relaxar pra beber mais.
- Já vai, Carlos? - Gustavo me disse.
- Já, tô estragado.
- Tá fraco ein, fióte.
- Considere que estou bebendo faz dias direto. Tu começou
hoje, sua puta.
- Comecei faz uns anos. - ele disse, sarcástico.
- Cê me entendeu, né sua puta?
- Entendi sim.
- Vai lá descansar um pouco e volta logo pra beber mais. -
Luís acrescentou.
- Pode deixar, gatchenho.
Sai e fui pro quarto deitar um pouco. O quarto estava vazio,
senti uma estranha paz quando entrei ali. Dentro de mim existe um desejo grande
de libertação, mas eu sinto também que busco uma segurança em alguns aspectos.
Gosto de paredes. Quatro delas e um teto, isso é o ideal. Se forem azuis,
melhor ainda. Gosto de azul, me trás um pouco de paz. E paz é a base de todo
ser humano. Uns buscam segurança em casamentos, filhos, amigos, mulheres. Já eu
desisti de buscar nisso, eu tento ficar sozinho e lidar com essa solidão da
forma mais tranqüila possível (mesmo que hajam dias que eu sinta vontade de
pular do alto de um prédio de 70 andares), e quando não consigo, eu me viro com
o que posso. O que não te mata, te fortifica. Nem tudo o que dizem estar certo,
realmente está. Eu sei o quanto tu busca respostas, eu também tô nessa, e pra
achar essas respostas, geralmente me tranco em quartos e penso. E ali estava
eu, sozinho num quarto, com uma cerveja na mão. Como nos velhos tempos.
Deitei na cama, pensei um pouco na vida, virei a Heineken e
pensei um pouco mais.
Quando eu estava prestes a dormir, ouvi a porta se abrindo.
Sim, vocês adivinharam. Era a mestiça irmã do Luís. E eu gamo numa asiática, é
foda. Ainda mais mestiça.
- Oi, tem alguém aí? - ela entrou perguntando, segurando uma
garrafa de vodka já quase vazia na mão direita.
- Eu tô aqui.
- Eu quem?
- Carlos.
- Que Carlos?
- Carlos Reis.
Ela riu, deu uma golada na vodka pura e berrou:
- QUE CARLOS, PORRA!!??
- Amigo do Luís, seu irmão.
- Ah sim. Como sabe que ele é meu irmão?
- Tenho meus contatos - respondi com um ar de sabedoria
milenar.
- Posso entrar?
- Entra aí.
Ela acendeu a luz e deitou na cama.
- Qual é teu nome? - perguntei roubando a garrafa da mão
dela e golando.
- Karla.
- Karla?
- Isso. Com "K".
- Prazer Karla. - respondi passando a garrafa pra ela de
novo.
- E aí Carlos, o que tava fazendo aqui sozinho?
- Pensando na vida. Gosto de ficar sozinho, você não?
- Claro que não, gosto de estar entre pessoas. Tu parece ser
doido hahahaha.
- Somos todos componentes da mesma sociedade doente. -
respondi na lata pra ela.
Ela deitou e olhou pra cima. Deitei ao lado dela. Podia
sentir o cheiro dos cabelos dela, aqueles cabelos longos, negros. Cabelos
asiáticos, da melhor qualidade. "17 anos, só 17 anos..." Pensei. Já
me meti em muito problema por causa de mulher, mas quando se trata das
novinhas, é tudo ainda pior. Não adianta, elas são descabeçadas, agem no
impulso e não pensam demais. Pra elas a vida nunca vai acabar, as pessoas nunca
vão morrer e seus amigos nunca vão se casar. Será eternamente como um sonho, um
sonho mágico em que tudo é perfeito, em que homens as desejam e as querem
sempre, em que a faculdade sempre pode esperar um ano ou dois, em que empregos
miseráveis satisfazem todas as finanças. Elas simplesmente não pensam nas
consequências dos seus atos. E eu, mesmo não sendo novo, também não penso.
Também sou impulsivo, também quero abocanhar o mundo rápido demais. Quanto
maior a altura, maior a queda. Quando o passo é maior que a perna, você
fatalmente cai. Bem vindos ao meu mundo.
Engatamos um bom papo, ela falou das amigas dela, disse que
estava pensando em fazer ciências sociais, disse que gostava de Sartre e odiava
Machado de Assis, disse que Led Zeppelin tinha feito boa música e que Floyd era
parado demais pro gosto dela. Seu filme preferido era Christiane F. e havia
lido metade dos livros do Bukowski e achado ele sujo e grosso o suficiente. Não
acreditava em signos e tinha ido nos últimos protestos contra o aumento da
tarifa do transporte público. "Um roubo, você não acha?" ela perguntou
e eu disse que sim, apenas por dizer, mas sem uma opinião formada do assunto.
Quando falei de mim, senti um enfado. Tinha um emprego sofrido no ramo
publicitário, que me pagava mal e me sugava demais, eu tava cagando pra Sartre
ou Machado de Assis, Led Zeppelin era bom, mas agitado demais, por isso gostava
de Floyd, gostava dos filmes do Jack Nicholson sem conseguir escolher um só,
Bukowski era minha meta de vida e eu nunca tinha feito meu mapa astral. Nunca
protestava por nada além do meu direito de beber em paz sem ser importunado.
Ela buscava VIVER realmente, eu só queria me esconder um pouco mais. Eu queria
ser estático dentro do meu próprio ser.
- Cadê a sua namorada? - ela perguntou.
- Eu não namoro. Tava com uma aí, mas foi embora. E você?
- Que merda ein... Então, eu sou nova demais pra isso, nova
demais pra namorar.
- Entendi hahaha.
Respondi pensando que eu já tava cheio de planos pra gente.
Sei lá, eu tomaria um sorvete com ela qualquer dia. Eu iria na exposição do
Picasso com ela. A gente podia assistir bandas covers em bares imundos no
subúrbio. A gente tinha tanto a fazer. Mas eu sabia que ela estava em outra
vibe, e se meter com ela seria um erro. Uma pena que eu goste tanto, mas tanto
de errar! Merda! Onde foram meus colhões? Espremidos, com certeza.
Quando menos percebi, estávamos nos beijando loucamente,
rolando na cama. Tinha vida em cada movimento de língua que ela fazia. Tinha
fogo em cada toque. Tinha brilho em cada olhar. Eu estava de corpo ali, mas com
a mente no espaço.
Quando as coisas estavam ficando quentes, a porta abre de
uma só vez. Gustavo.
- AI CARALHO!
Olhamos os dois pra cara dele sem saber muito bem o que
dizer. Eu e ela. Por sorte só estávamos nos beijos, poderia ter sido muito
pior.
- Calma Gustavo, eu posso explicar. - soltei a frase mais
clichê de todos os tempos.
- Não tem o que falar. Eu falei Carlos, eu falei, mas você
não me escuta, porra!
- Cara, rolou. - ela disse, tentando se defender.
- Calma, deixa que eu converso com ele. - disse pra Karla e
levantei da cama, caminhando em direção a ele.
Saímos do quarto, eu me recompondo e ele embasbacado.
- Porra cara, custa bater na porta? - perguntei.
- Achei que tu tava dormindo. So-zi-nho.
- Eu tava, mas aí ela entrou...
- Porra cara. E agora, como tu vai falar com o Luís?
- Eu não tenho a menor ideia.
4.
Deixei Karla no quarto, tomei mais umas cervejas pra falar
com Luís. Eu estava sem coragem. Fiquei escondido com Gustavo pensando em como
dizer e como agir. Eu não sabia a resposta dele, só sabia que não seria nada
positivo. Eu entendo a raiva dele, ele não quer que a irmã dele se meta com
caras como eu. Ele quer o melhor pra ela, e eu tô longe de ser o melhor pra 90%
delas. Bom, eu as faço rir e gozar, e pra mim isso deveria bastar, mas a
sociedade pede que elas arrumem esses sujeitos bem barbeados e com bons
empregos. Empregos estáveis, pra que elas casem e tenham filhos. Essa é a visão
de "bom" da sociedade. Definitivamente não a minha. Tanto que só me
meto com mulheres loucas, quanto mais loucas, melhor.
Tomei coragem e fui falar com Luís. Cheguei nele e pensei
"Bom, vou falar diretamente, foda-se".
- Luís?
- Oi Carlos, tá descansado?
- Na verdade não. Aconteceu uma coisa.
- O que?
- Beijei tua irmã.
- VOCÊ O QUE!?
- Isso aí. Eu tava no quarto, ela entrou, conversamos e
acabou rolando beijo.
- Como assim, cara!? É minha IRMÃ! Porra. Perai.
Ele saiu de cena, foi ao quarto e voltou puxando ela pelo
braço esquerdo.
- É verdade que você beijou esse cara? - ele perguntou.
Ela olhou pra mim, titubeou um pouco, olhou pra ele e disse:
- Sim Luís, beijei.
Luís olhou pra mim. Sua expressão era um misto de raiva e
nojo. Era uma fúria com uma tristeza. Eu não sei explicar exatamente. Só
estando lá pra saber. Eu me senti mal, mas ao mesmo tempo tranquilo. Eu sabia
que fiz porque quis, eu errei e tava arcando com as consequências disso. Merda,
eu sempre me meto em buracos que não posso me meter.
Luís pegou ela pelo braço, apontou o dedo em riste na minha
cara e disse:
- NUNCA mais chega perto de mim ou dela, tá entendido?
NUN-CA MAIS.
- Calma aí, vamo conversar. - tentei em vão segurar ele.
- Conversar uma porra!
Ele disse saindo e puxando ela pelo braço. Ela ainda me
olhou de soslaio, mas logo foi arrastada por ele. Isso aí, o grande Carlos Reis
se metendo em problemas de novo. Um atrás do outro, só pra não perder a
prática.
Gustavo tentou me consolar, me deu um abraço e disse que eu
tinha errado e tinha que arcar com as consequências. Eu virei pra ele e
perguntei:
- Beleza, mas será que esse erro valeu mesmo a pena?
O silêncio dele acabou sendo a resposta que eu imaginava.
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