COMO NOSSOS PAIS – 01/2019

A vida passa muito rápido, quando damos conta já estamos velhos demais pra retornarmos àquele momento mágico que já se passou (e que possivelmente não vai voltar mais). Eu tentei de tudo pra me descobrir, pra preencher o meu vazio interior, mas por enquanto ainda sigo sem respostas pra isso.

Talvez não encontre nunca.

Dizem que o destino da vida é o caminho, e talvez estejam certos, porque se a gente conseguisse aquilo que a gente quer, a vida perderia a graça. Estar vivo é como ser um gato, e a felicidade é como um barbante. O gato está sempre tentando pegar o barbante, nunca consegue por completo, o toca eventualmente, mas nada além de suspiros de sucesso. Nada além do quase. Essa palavra destruidora de sonhos. Ninguém lembra do segundo colocado, nunca. Bater na trave não é a meta. Infelizmente não é possível que todos sejamos vencedores.

São muitos seres humanos para poucos prêmios de primeiros lugares.

Pra falar de uma maneira honesta, a grande maioria das pessoas do mundo não vai deixar sua passagem registrada por aqui, a maioria não é famosa, nem rica, não vai deixar nenhum legado importante. De fato, dentro de mais três ou quatro gerações, as pessoas nos esquecerão por completo. Não seremos nada, nem lembrança. Somente restos mortais deteriorando em algum cemitério.

Lidar com isso tem sido a minha dificuldade, talvez. Saber que a minha existência não passa de mero acaso, de que estou por aqui não por um propósito maior, mas simplesmente por ação genética.

Vamos colocar desse jeito:

Meu pai é um cara fudido emocionalmente, conheceu minha mãe que também é uma fudida emocionalmente, claro que meu pai mentiu bastante pra conquistar ela, ele só queria uma foda sem compromisso, mas as coisas foram acontecendo, o sexo foi se tornando cada vez mais constante, vieram as brigas e depois as reconciliações, minha mãe tentava se afastar do meu velho, mas a lábia dele era boa demais. Não dava certo. Um belo dia, o espermatozoide do meu pai fecundou a minha mãe e ela engravidou do meu irmão, e depois de mim e depois de ninguém mais.

Mera situação biológica, meus amigos.

Possivelmente meu filho vai ser um fudido emocionalmente também, e a mulher que decidir passar o resto da vida do meu lado também será, e a sociedade vai continuar caminhando sem alteração nenhuma. Vão haver sentimentos, perdas, conquistas, bons empregos, carros do ano, roupas da moda, amigos cada vez mais raros, fracassos, vitórias e tudo permanecerá no seu devido lugar, como sempre permaneceu.

Nossos pais nos criaram para sermos vencedores, e nos decepciona demais saber que agora somos todos coadjuvantes nas nossas próprias vidas. Ninguém nos alertou das derrotas, das mágoas, tristezas, perdas, alcoolismo, unhas encravadas, divórcios, assassinatos, ataques cardíacos, overdose, pobreza na África, acidentes de carro, cirrose, suicídio ou comida vencida. Fomos criados em redomas de vidro, sendo protegidos de tudo e de todos, ignorando qualquer sentimento de remorso ou culpa, escutando os mesmos caras que nossos pais escutavam, nos discos, livros, arte, cinema e etc, achando que aquele lugar nunca sairia dali, achando que nossos pais estariam pra sempre dos nossos lados.

E então veio a adolescência, e com ela o afloramento de várias inseguranças físicas, psicológicas e mentais, misturadas com muita raiva e falta de amor próprio, vontade de fazer tudo e de não fazer nada ao mesmo tempo, tédio e preguiça, tiros de festim querendo mudar um mundo que nunca quis ser mudado. Brigas com os pais, festas, drogas, álcool e mais brigas, música pesada, Nietzsche, Bukowski, Californication (o seriado e a música do Red Hot), cabeça raspada, mais álcool e mais drogas, entrando numa espiral aparentemente infinita. Achando que o mundo estava errado, esquecendo sempre do mais óbvio: olhar pra mim mesmo.

Meus pais estão cada vez mais velhos e cansados, minha mãe em uma depressão profunda em que eu particularmente já não vejo como reverter, meu pai trabalhando como nunca e ganhando o básico pra se sustentar, e em vista disso tudo, posso afirmar que o fim deles está cada vez mais próximo. Tenho que acostumado com a ideia de ser um cara com quase 30 que mora sozinho e trabalha pra caralho pra pagar contas, o sonho de publicar meus livros está cada vez mais enterrado, assim como meus pais e meus avós enterraram os sonhos deles, e vejam, não me sinto tão mal com isso.

O que me entristece é saber que vou acabar como meus pais estão acabando, deteriorando enquanto o mundo tenta ainda dar seus suspiros, que sabemos, são efêmeros.

Eu acreditava nos meus heróis, mas agora percebi que todos morreram de overdose de drogas ou excesso de cachaça. Assim como eu iria morrer. E como posso morrer se eu voltar a descer todas as minhas frustrações numa garrafa. Antes eu achava que o mundo não me entendia, agora eu percebo que sou eu quem não entendo o mundo.

Não é uma questão de ser o campeão ou o melhor ou coisa assim, só é injusto demais vermos esses corpos todos rastejando por aí, dia após dia, esperando que com mais dois mil reais na conta por mês as coisas vão melhorar, ou comer a buceta da moça mais linda vá resolver, ou o maior carro com o maior equipamento de som possa esconder toda a tristeza que aquela pessoa sente.

A maioria está só intoxicada pra não precisar ouvir seus próprios barulhos. Quanto mais surdo e cego, melhor.

Eu ainda não encontrei as respostas e nunca as vou encontrar, sigo chutando pedrinhas na rua, me masturbando, ouvindo discos, enchendo minha conta bancária, comendo fora e consequentemente ganhando peso, batendo em teclas e esperando que Deus mude alguma coisa. Apesar de ter 99% de certeza que ele não vai fazer isso.

Ele tá ocupado demais resolvendo coisas mais importantes.

Como o caso daquele cara que reza todas as noites pra ganhar na loteria. Ou o cara que sempre que acorda de ressaca diz: "Deus, se eu sair dessa, prometo nunca mais beber." e volta a beber no dia seguinte. Ou fazendo aquela adolescente de 18 anos conseguir tirar a sua habilitação pra andar no carrinho que papai deu-lhe de presente por passar numa faculdade particular.

A maioria das pessoas está ocupada demais pensando em assuntos inúteis demais. Como se inteligência formasse pessoas melhores, ou tornasse-as portadoras de um excelente caráter. O mundo está girando e essa porra de planeta ainda irá pegar fogo em sua própria rotação.

Aí não restará mais nada.

Quanto a mim, estarei no sofá da minha sala, com um notebook de quinhentas pratas no colo, escrevendo textos ruins para imbecis interessados em lê-los. Ou simplesmente escrevendo para as paredes. O que dá quase na mesma. Ou melhor, o que dá na mesma.

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