EU E A CERVEJA – 02/2015

puta sol, daqueles de rachar

acordo com um raio de luz na cara, praguejando a maldita estação

(verão)

ou já será outra?

eu não sei, sou péssimo em geografia

(menos em geografia política, posso detalhar a revolução russa de trás pra frente

mas hoje não,

baby)

baby,

péssima palavra

foda-se

 

voltando:

sol do caralho, cansaço, desânimo leve, sim, super de leve

abro a geladeira

um fardo de cervejas

ou uma caixa, que seja

(constituem dozes latas fechadas, pros leigos)

geladas

boas cervejas

pego queijo branco, requeijão

monto meu café da manhã

a cerveja lá, eu aqui... pois é

 

me alimento bem e vou ocupar a porra do meu dia

abro a geladeira mais umas duas vezes até o almoço

e as latinhas se mantêm lá, intocadas

elas me olham, elas me desejam, mas eu não sei

só sei que tem alguma coisa errada

(comigo, não com elas)

e aí que peguei água, essas duas vezes

tem suco também, mas ouvi dizer que suco em pó te fode

mais do que drogas pesadas

então é melhor evitar

né?

 

pego as coisas pra fazer meu almoço

e a vida parece pacífica

sabem, o sol não me irrita mais

até abri as portas e as janelas pra ele entrar mais

esboço um sorriso, contido, mas sincero

(tem dias que eu gargalho sozinho, mas isso é coisa de louco

como hoje não estou louco, só fico rindo mesmo

igual um babaca de filme de ação

quando tá pra matar alguém

...

comparação péssima, mas agora vai ficar ai mesmo)

e, porra, cozinhar é muito bom!

e a comida estava ótima

eu como sozinho, mas ainda assim, faço comida pra caralho

(tenho sentido muita fome, ultimamente

desde que comecei com os exercícios

pesados)

e então eu guardo as coisas na geladeira

e a cerveja me olha

posso jurar que caiu uma lágrima dela!

brincadeirinha

era só uma “gota de suor”, ela tá bem gelada

Deus! me perdoe

eu não sei o que tá acontecendo!

 

e a tarde foi agradável

foi tão boa, que nem merece ser citada

(esse texto é sobre um problema conjugal

não sobre meditações e contato com a natureza)

e tudo parecia tão bonito, de repente

a solidão parece tão pavorosa

mas no fim

parece ser uma boa lidar com ela

e viver bem nela

e o bom é que eu não agüento falar mais de cinco minutos com as pessoas mesmo

ficar um dia sem ver elas e sem falar com elas

é como um sonho

que pode ser realizado

não que eu seja misantropo

(mentira, talvez eu seja)

é que as coisas parecem mais agradáveis quando vivo em função de mim

e não dos outros

sabem?

o lance de “fazer o que der na telha”?

e o outro lance de “ser feliz consigo mesmo”?

pois é...

 

noite

e o sol se foi, e veio a lua, e essas porras ai

e as nuvens e etc

e ainda assim, a paz parece estar presente

existem momentos de conturbação, sempre existem

mas esses momentos tranqüilos parecem infinitos

quando acontecem

e lastimamos muito quando acabam

 

abro a geladeira e elas estão lá

doze malditas latas, fechadas

me olhando

eu as olho e falo

“desculpa! porra! eu ainda as amo, a questão é que não quero!

sei lá, só de pensar na idéia de abrir uma, me sinto cheio

nada contra, sabem que as amo!”

eu fui durão um dia

e não sei que diabos está acontecendo aqui

tava acostumado a beber até a cerveja acabar

eu e ela éramos um bom casal...

mas eu não sei, relacionamentos acabam, e é doloroso num primeiro momento

mas depois, se a gente não aprende a viver sem

a gente acaba acostumando

 

a dor passa

mas o sentimento de amor e carinho

não

 

talvez seja coisa de momento

os grandes casamentos tiveram crise

porque não eu, e ela, a cerveja?

somos como todo mundo

merecemos algumas coisas desse jeito

e se não for assim, não vai ser nunca

ela vai esperar hoje,

e talvez amanhã, e talvez mais outro dia

e quando tiver que ser

a gente volta

e aí eu direi feliz, como disse hoje

“obrigado, as coisas estão bem”

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