EU VEJO GENTE MORTA – 11/2020
Eu recém completara 21 anos de idade e já estava macambúzio
a beça com tudo que vinha acontecendo na minha vida. Acordava pelas manhãs e
pensava que não passava de um injustiçado, um maldito entre outros milhões de
malditos, primeiro por ter nascido num país de merda como o Bostil, com belezas
naturais e recursos de sobra mas com pessoas lixo a frente da porra toda, o que
havia tornado nosso país o país do "jeitinho", onde se tem manobra
até pra tomar refrigerante grátis de uma máquina. Além do mais, eu, no auge da
minha arrogância achava que eu era demais pra uma sociedade de menos, achava
que eu tinha que estar ganhando muito dinheiro e comendo as melhores bucetas da
cidade, coisa que são poucos que de fato conseguem, muitos por mérito próprio
mas a maioria por sorte (ou herança).
Depois de uns meses desempregado, correndo pra cima e pra
baixo tentando arrumar um trampo na minha área de formação, resolvi abdicar de
quatro anos de faculdade e comecei um emprego numa empresa de telemarketing.
Era um emprego honesto, registrado, com horários de descanso, folgas e
benefícios, mas eu achava um saco. O bom era o horário. Entrava às 17h30 e saia
às 23h50, sendo assim eu evitava pegar trem e metrô em horário de pico, fora
que podia acordar tarde todos os dias e não precisava ter um compromisso muito
rígido com horário. As ligações também eram poucas após o horário comercial,
sendo assim, eu passava grande parte do tempo do meu trabalho conversando com
as pessoas que ali estavam. Não que eu fosse de ficar falando, mas quando não
se tem o que fazer, geralmente a gente faz isso no tempo livre, uma vez que
temos que ficar disponíveis caso o telefone toque.
Tinham umas duas ou três meninas daquele lugar que eu achava
interessante pra tentar comer ou algo do tipo. Tomar um sorvete ou um porre de
cachaça, quem sabe. Mas eu não me esforçava em nada pra conseguir alguma coisa
com elas. Estava um pouco descrente do amor devido ao recente divórcio que eu
havia passado menos de um ano antes. Acho que é um luto válido e que muitos
passam.
Geralmente eu acordava às 14h, tomava café da manhã e
começava a beber, ia bebendo durante o caminho pro trabalho e lá seguia
bebendo, saia do trabalho, pegava metrô, trem e ônibus, chegava em casa por
volta das 1h30 da manhã, começava a cheirar cocaína e a beber sem parar, ficava
assistindo vídeos na internet de pessoas morrendo, primeiro eram os acidentes,
depois pessoas sendo assassinadas a facadas, tiros ou pauladas, e por último
desenvolvi uma estranha tara em assistir suicídios, eram suicídios de todos os
tipos e jeitos, desde enforcamentos, tiros contra o crânio, envenenamentos,
doses excessivas de medicamentos, cortes nos pulsos e nos pescoços, enfim,
passava a madrugada toda trancado no quarto com as luzes apagadas, bebendo,
usando cocaína e assistindo gente morrer. Não recomendo isso pra ninguém, hoje
quase 10 anos depois disso, parei com a bebida, as drogas e evito assistir
gente morrer. Até hoje eu acredito que sou fudido mentalmente por manter uma
rotina dessa por meses, todos os dias sem exceção. Qualquer ser humano que faz
isso perde a sua humanidade. E eu não sou diferente.
Um dia no trabalho a minha chefe "Maiden" (apelido
dado a ela por ser muito fã da banda de metal Iron Maiden) me chamou pra
conversar, era o meu primeiro feedback em quase dois meses de empresa. Eu
sempre tive problemas pra ouvir críticas. Não seria fácil.
- Carlos - Ela começou - Seu trabalho está bom, mas tem
algumas questões que precisam ser pontuadas. Vamos ouvir essa ligação.
Colocou uma ligação que atendi, escutamos e não parecia ter
nada demais.
- Percebe que ali você deixou escapar uma gíria? Nesse outro
ponto você levantou o tom de voz com o cliente? Essa informação que você passou
foi errada.
Ela pontuou outras questões mas disse que no atendimento eu
estava indo muito bem pro pouco tempo de empresa que tinha.
- Carlos, agora eu preciso dizer outra coisa pra você.
Espero que você esteja pronto pra ouvir.
- Pode falar.
- Você precisa beber menos. Todos na empresa comentam. Eu
sei que você tem bebida alcoólica na sua garrafinha.
- Não sei do que tá falando. - Respondi.
- Claro que sabe.
- Não sei não senhora.
- Escuta, todos percebem o seu cheiro, só você que não. A
gente sabe que você trabalha bêbado.
- Eu bebo socialmente, Maiden. Nunca bebi no trabalho.
Ela pegou na minha mão, olhou bem fundo nos meus olhos e
continuou.
- Aqui é seguro falar, pode se abrir comigo. Na empresa nós
temos um setor que ajuda pessoas como você. Estamos dispostos a te ajudar.
- A senhora vai me perdoar, mas eu não tenho problema
nenhum. Nem com bebida e nem com nada.
Tirei minha mão da dela. Ficamos em silêncio mais cinco
segundos quando disparei.
- Posso ir embora agora?
- Pode ir, Carlos.
Voltei ao meu posto de trabalho e passei o dia todo com
raiva dela e com raiva de mim mesmo. Não que eu achasse que tivesse algo
errado, só me considerava diferente das outras pessoas, talvez até um retardado
mental ou alguém com algum transtorno psicológico não diagnosticado, e que,
naquele momento, não queria diagnosticar porra nenhuma. Queria mais é que tudo
fosse pra casa do caralho.
Naquela semana eu chamei um amigo do trabalho pra beber
depois do expediente. Miguel era um cara levemente alcoólatra, não como eu, mas
ele me acompanhava bem nas doses. Também usava drogas de forma moderada. Havia
recém se divorciado, era pai de uma menina de menos de um ano de idade. Mais da
metade do pagamento dele era pra pagar pensão, então por isso ele trabalhava
pra caralho e no fim das contas tinha pouco dinheiro pra ele. Não reclamava
diretamente da filha, mas sim da ex mulher.
- Certeza que aquela puta tá saindo com outro cara e usando
meu dinheiro pra bancar o rolê dos dois.
- Deixa de pensar nisso, meu parceiro - eu amenizava - vamos
continuar bebendo. Se você ficar falando disso eu fico mal também.
- Carlos, mas pensa como é injusto. O certo seria eu dar as
coisas pra bebê, não o dinheiro pra mãe.
- Miguel eu sei disso. Mas todos temos problemas. Não
adianta você ficar choramingando nisso, não tem como mudar.
- Você tem razão. Melhor é continuar bebendo.
Passamos mais algumas horas entornando cervejas e doses de
vodka de várias marcas. Fui ao banheiro, dei um teco e vomitei.
- Cara, eu pensei aqui numa piada.
- Que porra de piada, Carlos. Cê tá bem louco, isso sim.
- Sim, eu pensei numa piada.
- Qual piada? - Ele perguntou.
- Imagina só, eu tô aqui né, cansado da minha vida e tal. E
se eu estourasse as minhas miolos?
- Minhas miolos? Não seria os meus miolos?
- Não, seria as minhas miolos - eu respondi - imagina se me
jogo no trilho do trem agora, voltando pra casa, e explodisse meu crânio e
minhas miolos.
- Seria uma sujeira do caralho, isso sim. Cala a boca, seu
merda. Me passa o pó.
Dei cocaína pra ele, ele foi ao banheiro e voltou mais
elétrico do que nunca.
Voltei pra casa e não me joguei no trilho do trem. Cheguei
no meu quarto por volta das 7h da manhã. Estava de folga naquele dia. Não
conseguia dormir. Tomei um banho, me masturbei e nada. Sai pra buscar uma
garrafa e mais pó. Fiquei trancado no quarto o dia todo pensando onde eu
chegaria na minha vida se continuasse daquele jeito. Assisti mais videos de
gente morrendo e tive algumas ideias pra concretizar um suicídio. Dentro de
menos de um ano após aquele dia eu iria tentar me matar oito vezes. Nenhuma com
sucesso. Eu olhava nos olhos daquelas pessoas e sentia uma estranha paz
habitando dentro delas. Uma pena que aquela paz não habitava em mim.
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