FELICIDADE – 06/2016

Eu tinha 17 anos quando Gilberto me chamou pra beber na sua casa. Ele sabia que eu estava começando a beber, e por isso, bebia sem medir esforços. Ouvia Metallica, Iron Maiden, Megadeth e me achava foda por isso. Eu não era. Eu era como todo adolescente comum. Lia Nietzsche diariamente e queria morrer. Meu pai não existia, e eu mandava minha mãe à merda. Minha namorada estava prestes a desistir de mim. Passava dias trancado num quarto lendo. E escrevendo poemas terríveis. Cheios de rimas e metáforas. Falando de morte, suicídio e falta de referência paterna. Falando sobre o que eu queria mesmo falar. O mundo não fazia sentido, e eu achava que a bebida podia dar um sentido a ele.

Pois bem, fui na casa de Gilberto. Marcamos na linha do metrô pra que ele me encontrasse. Ele dirigia o carro do pai e fumava maconha diariamente. Tinha largado a faculdade e comia duas moças sete anos mais velhas e que eram gêmeas. Quando entrei no carro, perguntei:

- E aí mano, beleza?

- Claro, e aí, suave?

- Sim.

- Deu perdido na namorada?

- Sim, achei necessário.

- Beleza.

- Hey. Tem vodka e coca lá?

- Putz cara, só breja.

Fiquei decepcionado, mas aceitei. Afinal, a festa era na casa dele, eu nada podia falar.

Andamos nas ruas da cidade sem cinto e sem respeitar sinalizações. Atravessamos sinais vermelhos, não respeitamos os indicadores de velocidade e fomos rebeldes sem causa naquele instante. Ele riu e disse pra mim que estávamos ficando velhos, afinal, ele estava fazendo 17 e nossos amigos estavam já na casa dos 19. E aquele saudosismo de quando a gente tinha 14 e era livre, bateu. Mas não tão forte. Eu disse que todo mundo fica velho, e isso é importante pra gente poder morrer um dia. Ele disse que eu devia parar de ler Nietzsche e não ser tão pessimista. Eu disse que a vida que era pessimista, e eu só ia no embalo dela.

Chegamos na casa dele sem problemas. Ele disse:

- Vai lá na geladeira pegar uma cerveja. E desculpa pela falta de vodka.

Eu disse que tudo bem. Fui na geladeira e a abri. Vi uma garrafa de vodka Natasha cuidadosamente deitada ao lado de uma garrafa de coca cola. Lindas, como sempre são. Sorri. Fui ao céu e voltei. Peguei as garrafas e montei um drink. Bebi um gole longo e depois fui na sala. Pedi pro Gilberto ficar de pé, esbravejei “Seu grande filho da puta! Eu te amo!” e dei um abraço efusivo e um beijo no rosto. Aquilo havia sido a maior felicidade que eu havia tido nos últimos meses.

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