FLIPERAMA E CACHAÇA – 07/2023
Muitas vezes eu escrevi para poder suportar as horas para
que eu conseguisse chegar vivo ao outro dia. Era esse o ponto da minha
insanidade mental.
Hoje tô sossegadinho perto de antes, mas não tô cem por
cento não. Se um dia eu tiver sem problema nenhum, pode me enterrar. Eu sou um
cara que cresce na dificuldade.
Bonita essa né? Crescer na dificuldade. Algum coach já deve
ter dito em algum vídeo aí, mas que com certeza não vi. Essa aí surgiu agora. A
intenção do texto é outra.
No ano de dois mil e três eu estava numa terça feira sete
horas da manhã matando aula. Sugestão essa do meu amigo Jean. Jean era um cara
que tinha um ambiente péssimo em casa, por isso era muito carentão. Ele sempre
queria estar acompanhado. Não era um cara bonito, portanto era ignorado por
todas as garotas. Também não era inteligente. Inclusive era também chato pra
caralho muitas vezes. Eu dava trela pra ele por que eu também era sozinho.
Costumava ficar no fundo da sala lendo e não conseguia me relacionar com
ninguém, fiz isso uns dois anos, até que um dia justamente ele se aproximou de
mim me perguntando se eu tinha alguma doença. Eu disse "Acho que não, mas
não tenho certeza." E a partir daí começamos a conversar. Voltando pra
dois mil e três.
"Carlos, tem aqui na rua da escola um fliperama, gosta
de fliperama?"
"Nunca joguei" disse.
"Vamo lá, vou te ensinar. Tem grana?"
"Tenho dois reais."
"Dá de boa."
"Não posso cara, preciso carimbar minha carteirinha, se
tiver falta vai que minha mãe resolve ver. Ela vai saber que matei aula."
Nisso Jean sacou um carimbo escrito "PRESENTE".
Não sei como tá hoje, mas antes a gente tinha uma carteirinha com os dias
letivos, e a escola carimbava todos os dias que você ia. Era uma forma dos pais
que se importavam saber se os filhos estavam ou não matando aula. Meus pais
nunca viam, mas eu era um cuzão e tinha medo deles verem. Mas Jean tava em
outro nível, ele literalmente fez um carimbo pra poder matar aula sempre que
quisesse e encher a carteirinha dele de presença.
"Tá vendo essa beleza?" Ele disse mostrando o
carimbo. "Isso aqui é a nossa liberdade. Então vamo."
Topei e fomos. Chegamos ao lugar e era uma espécie de casa.
Na garagem, tinham uns produtos de limpeza de um lado, umas garrafas de bebida
do outro lado e uns fliperamas no fundo.
"SEU ARNALDO!" Jean gritou.
Um minuto depois desceu um senhor de roupão, abriu o portão,
nos deixou entrar, ligou o fliperama. Dei os dois reais pra ele, ele nos deu
oito fichas. Depois disso ele voltou pra dentro da casa e nos deixou sozinhos. Tínhamos
treze anos na época.
Colocamos a primeira ficha e começamos a jogar. O jogo era
The King of Fighters 98. Eu era péssimo naquilo.
"Olha só Carlos, eu vou te ensinar a jogar com esse
cara aqui, o nome dele é Ralf, vou te ensinar todos os golpes dele. Depois te
ensino os próximos." Acenei que sim com a cabeça e ele me ensinou.
Consegui desenrolar um pouco e a achar o negócio divertido.
Jean pegou uma garrafa de bebida, era uma garrafa de meio
litro de cachaça, garrafa de plástico. Se bem me lembro era Pedra 90. Ele
abriu, deu uma golada e me passou. Eu nunca tinha bebido antes.
“Eu não bebo cara" respondi.
"Cala a boca e bebe logo caraio, eu não vou beber
sozinho."
Acenei que sim e golei. Achei gostoso. Bebi mais um pouco.
Passei pra ele e ele bebeu mais.
Ficamos ali boa parte da manhã jogando e bebendo. Quando deu
nove horas, Jean pegou a garrafinha, encheu de água, fechou e colocou de volta
no lugar. Tudo que consegui pensar foi "Esse cara é um gênio!"
"Carlos, chupa essa bala aqui, daqui a pouco o seu
Arnaldo acorda e ele não pode saber que bebemos."
Pouco tempo depois disso, seu Arnaldo acordou e veio ao
nosso encontro.
"E aí meninos, jogaram muito?" Perguntou. Dissemos
que sim. "Certo, toma mais duas fichas pra vocês, por conta da casa."
Jogamos mais um pouquinho e depois fomos embora. Essa foi a
primeira vez que bebi.
A partir daí ficamos fazendo isso praticamente todos os dias
durante quase um ano. Eu fazia as contas de quantas vezes eu podia faltar em
determinadas matérias pra não reprovar. A carteirinha estava toda carimbada com
presença, mas os relatórios dos professores a gente não tinha como acessar.
Pouco antes do Jean abandonar a escola, a gente começou a estender esse
fliperama em outro lugar, onde a bebida era liberada. O dono vendia bebida pra
menor sem pudor algum. Então era de manhã no Seu Arnaldo e a tarde no Seu
Francisco. Tinham uns caras que fumavam também, eles colocavam cinzeiro no
fliperama. Era uma outra época.
Não havia preocupação de chegar meio bêbado em casa por que
a minha mãe trabalhava o dia todo, quando ela chegava eu já tava dormindo.
Então ela nunca soube desses meus dias de fliperama e cachaça.
Sobre Jean, ele um dia simplesmente parou de aparecer.
Pessoal disse que ele largou a escola pra ir trabalhar. Não sei de fato o que
aconteceu, a gente não tinha internet e nem tinha trocado telefone na época. Eu
sei que parei de dar essas escapadas por que sozinho não tinha a mesma graça. E
também parei de beber, fiquei até meus dezesseis anos sem uma gota de álcool.
Espero que Jean não tenha tido a vida que tive. E que hoje
ele esteja bem, onde quer que se encontre.
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