MENTIRAS DE UM ANIVERSÁRIO EM SODOMA E GOMORRA – 04/2026
1.
Eu e Leticia nos conhecíamos há muitos anos. Ela era uma
mulher baixinha, com peitos bonitos e olhos claros, muito bonita e muito
requisitada por todos os caras do nosso grupinho. Não era segredo para ninguém
que todos eles a desejavam, mas no fim das contas, ninguém conseguia progredir
no flerte. Ela geralmente ficava com caras de fora do nosso grupo de amigos,
caras bem diferentes da gente. Quanto a mim, nunca tive interesse algum nela,
sexualmente falando. A julgava como uma boa amiga, e não tinha interesse de
mudar nossa relação para além disso. Além do mais, ela tinha várias amigas, e
me apresentava todas, mesmo eu sendo um absoluto traste. Eventualmente, eu
ficava com uma ou outra amiga dela. Nesta época eu bebia mais do que um cavalo
no cio, tomava vodka todos os dias, quando não bebia começava a me tremer todo,
então era essencial que eu me mantivesse embriagado vinte e quatro horas. E
assim eu o fazia.
Naquele final de semana, Leticia faria aniversário e me
convidou pra ir pra uma balada em um dos points mais movimentados da cidade
quando o assunto era esse. Eu costumava chamar esse point de “Sodoma e
Gomorra”. Lá se encontrava de tudo: drogas, prostituição, roubos, violência, pessoas
doentes das mais variadas formas, sexo de todos os jeitos possíveis e
imagináveis e tudo que fosse perversidade. Já faziam uns anos que frequentava o
lugar, e isso me ajudava a ter um pouco da malandragem necessária para sobreviver
ali.
Eu e Leticia trocávamos mensagens na sexta feira em uma rede
social já praticamente extinta atualmente.
- Carlos, quero que você vá na minha festa, mas eu tenho um
pedido pra te fazer, é muito importante para mim que você me ajude nisso.
- Claro Leticia, pode dizer, o que você quiser, o
aniversário é seu.
- Não quero que você leve cocaína pra balada.
- E qual o motivo pra isso?
- Você fica transtornado demais. Meus amigos da faculdade
estarão lá, eles são pessoas mais tranquilas, não vivem essa realidade que a
gente vive aqui.
- Eu entendo, e se isso é importante pra você, eu farei. Vou
ficar só bebendo e vou tentar não beber muito.
- Muito obrigada, Carlos. Então a gente se encontra lá
amanhã. Beijos e se cuida, não vai exagerar hoje.
- Pode deixar.
O aniversário seria no dia seguinte. Era sexta feira, estava
um calor do caralho por causa do verão. Existe um sentimento estranho no calor
que parece nos obrigar a beber mais. Eu estava no meu quarto sem camisa e
usando uma cueca samba canção. A garrafa na minha mão estava chegando ao final
e graças a Deus eu tinha mais três lacradas na cozinha. Estava sozinho e não
pretendia sair pra mais nada.
Pouco após eu terminar meu papo com Letícia, minha mãe
chegou em casa com seu namorado. Era um sujeito poucos anos mais velho do que
eu, alcoólatra orgulhoso que sempre negava qualquer problema que tivesse com
bebida. Dizia que “bebia socialmente”, bem diferente de mim que estava num
processo de aceitação bem evoluído, ciente do meu problema e convicto de que
morreria assim. Eu estava a fim de curtir a viagem, nada além disso. E ir até
as últimas consequências.
- Carlos, vamos lá na loja buscar um pó?
- Gabriel, eu tô de boa hoje, vou ficar em casa. Tenho um
aniversário pra ir amanhã, preciso dar uma segurada.
- Vamo caraio, eu pago. Peguei uma moeda no trampo hoje.
- É pra buscar quantos?
- Vamo pegar só cinco, só pra ficar de boa.
- Bora. – Respondi.
Coloquei uma bermuda e uma camiseta de uma banda chamada
Dimmu Borgir, desbotada pelos anos de uso, chinelo de dedo e fomos lá. Gabriel
pegou cinco e eu peguei mais dois, totalizando sete. Dividimos três pra mim e
quatro pra ele. Passamos a madrugada na cozinha com música rolando, bebendo e
usando o que tínhamos comprado.
Pela manhã, tomei um banho e fui dormir.
2.
Acordei bem e sem ressaca, olhei na minha gaveta e ainda
tinha mais um pó fechado. Decidi que usaria aquele imediatamente pra chegar na
festa da Leticia sem nada. Abri a garrafa e liguei o som, coloquei o disco
Baladas Sangrentas do Wander Wildner pra tocar e comecei os trabalhos.
Enquanto a música rolava, a garrafa se encontrava ao alcance
do braço e eu estava sentado na minha poltrona de corino preto rasgado enquanto
eu jogava Super Nintendo emulado no meu computador com processador Celeron do
mais fajuto possível. O jogo era Tetris Attack. Eu passava horas do meu dia
nisso, refletindo. Como era gostoso o sentimento de sempre salvar seu progresso
no vídeo game, bem diferente da vida real em que inevitavelmente lidamos com
perdas, muitas delas irreparáveis. Vejam bem, por mais que eu tivesse um
conhecimento técnico e teórico das coisas adquirido através de anos de
excessivas leituras feitas compulsivamente numa busca por respostas infinita, e
uma inteligência um pouco acima da média em relação aos outros idiotas que estiveram
comigo estudando em escola estadual durante a minha vida toda, eu me sentia
extremamente mal e com uma auto estima em frangalhos. Me cobrava demais e não
conseguia ter foco. Projetos pipocavam e eu não avançava em nenhum deles. Ideias
de cursos, encontros para discutir filosofia, leituras de poemas a céu aberto,
intelectuais lendo meus textos e me telefonando dizendo que eu tinha tudo pra
revolucionar a cena da literatura nacional, que eu poderia um dia viver disso.
Balela, tudo isso era balela. O conforto do meu quarto e do meu joguinho valia
muito mais do que me arriscar mesmo com a mínima chance de dar tudo errado e eu
me frustrar depois. Eu preferia fugir disso tudo. Idealizava uma vida pacata
num sub emprego sem maiores responsabilidades, ganhando um pouco acima do
salário mínimo, morando num quarto no centro da cidade compartilhado com mais
quatro idiotas iguais a mim, dormindo em beliches e compartilhando garrafas. Fim
de ano férias com uma viagem de ônibus para Bertioga, nas folgas lavar roupas e
limpar a casa ao som de cantores bregas como Wando e Reginaldo Rossi, uma ou
outra buceta que pintasse por aí, sem esperança alguma de um relacionamento
sério. Solidão, textos e garrafas. Isso deveria ser o suficiente para que minha
passagem pela Terra fosse completamente inútil. Como eu era ali, naquele
momento. Um traste, um degenerado, um potencial perdido, um filho da puta, um
bêbado e drogado, um desperdício de potencial que envergonharia todos que
acreditaram em mim algum dia.
Coloquei mais pó em cima da mesa, bati e aspirei outra
linha.
Aqueles pensamentos iriam passar.
Quando olhei pro relógio, já eram quase 16h. Teria que estar
na tal festa às 23h. Ainda não tinha comido nada.
Resolvi sair pra ir ao mercado comprar comida, comprei três
pães franceses e um miojo que comeria cru, como recheio do pão. Aproveitei e passei
no caixa eletrônico, saquei uma nota de vinte reais, fui na “drogaria” e
comprei mais dois pós. “Vou usar no caminho pra balada, ela disse que não
queria que eu usasse NO LUGAR, não no caminho.” Menti confortavelmente para mim
mesmo enquanto colocava os pós no bolso.
Cheguei em casa, me alimentei e o restante foi chatice.
Quando chegou o momento de sair, tomei um banho e fui em direção à Sodoma e
Gomorra.
3.
Cheguei sozinho no evento e encontrei Leticia na fila com
duas amigas e um amigo. As duas amigas namoravam, o amigo também. Todos muito
bem comprometidos e com alianças de prata enormes em seus dedos anelares
direitos. Me aproximei do amigo e começamos a conversar, o nome dele era
Fabiano, tinha vinte e dois anos, não trabalhava e fazia faculdade com Leticia.
Seu pai o ajudava financeiramente e tinha uma boa vida de jovem de classe média
alta.
- Cara, como é pra você vir pra uma balada mesmo namorando?
– eu perguntei.
- É tudo uma questão de confiança. Eu confio na minha
namorada e ela confia em mim também, então não tem erro. Ela mesmo sai pras
baladas sozinha com as amigas dela.
- O importante é não mentir, né?
- Sim, sempre falando a verdade.
- Meus parabéns amigo, eu não tenho essa maturidade.
- E você não namora?
- Jamais, eu não posso me meter nisso.
- Mas por que?
- Valorizo minha liberdade e sou egoísta demais pra pensar
em outra pessoa. As pessoas passam na minha vida temporariamente.
- E tudo bem com isso?
- Tudo bem.
A fila só crescia naquele sábado. Todas as pessoas prontas
pra entrarem em um lugar onde quase tudo é permitido. A ânsia pela liberdade
externalizada em locais como esses, onde os instintos se afloram e quase sempre
tomamos decisões erradas para nos arrependermos depois. Mas veja bem, era
sábado e todos éramos jovens, sendo assim, nos é permitido fazer coisa errada
pois temos a desculpa perfeita para isso.
Entramos e eu fui direto ao bar. Peguei uma dose de vodka
pura nacional, da mais barata e voltei ao grupinho. As meninas pegaram drinks
sofisticados que não conheço e não recordo dos nomes. Fabiano pegou uma long
neck de cerveja a um valor altíssimo. Ficamos todos reunidos dançando enquanto
tocava Artic Monkeys.
Lembrei dos pós que eu tinha levado, no caminho acabei não
usando nenhum. Não seria bom se Leticia me pegasse usando droga, eu havia
prometido que não usaria. Imediatamente tive uma ideia genial: é só usar em
grande quantidade, assim acaba rápido e ela não vai perceber. Fui no banheiro,
entrei em todas as cabines que possuem vasos sanitários, nenhuma delas tinha
tranca. Escolhi uma qualquer e me fechei, escorando minhas costas na porta e
apoiando meu pé direito no vaso pra impedir que qualquer pessoa entrasse.
Peguei um saquinho do meu bolso e despejei todo o conteúdo na mão de uma só
vez. Geralmente esses saquinhos eu dividia pra umas seis vezes, quando usava
moderadamente. A mão cheia, aspirei tudo de uma vez. Senti uma tontura muito
forte juntamente com uma ânsia de vômito, minhas pupilas dilataram
imediatamente e meu coração sairia pela boca em poucos segundos. Tentei fechar
os olhos e respirar fundo, tudo isso durou cerca de trinta segundos. Já me
sentia melhor e feliz.
Sai do banheiro e voltei em direção ao grupinho, mais
animado do que o Paulo Ricardo nos anos oitenta. Era claro que eu não estava
normal. Leticia já me olhou irritada, mas não disse nada. Eu também não disse e
tentei fingir que nada tinha acontecido. Continuei bebendo com bastante força
pra ver se o efeito diminuía e na terceira dose de vodka comecei a me sentir
melhor e mais calmo.
4.
Já era por volta das duas horas da manhã e estávamos todos
bêbados. Num ímpeto de loucura, Leticia levantou a blusa gritando “VAMO TODO
MUNDO FICAR PELADO!”, imediatamente atraiu vários olhares masculinos, mas eu
logo a contive e baixei de novo.
- Ah Carlos, você é muito chato! – ela gritou.
- Aqui não é lá na nossa terra, os caras aqui são malandro,
vai por mim. Isso aí pode dar uma merda do cacete, Leticia.
- Chato chato chato!
Não respondi e continuei dançando. Distante de mim a essa
altura, Fabiano estava beijando uma moça aleatória. Chamei as meninas e
perguntei:
- Quem é aquela moça que Fabiano está beijando? É a
namorada?
- Não é nada, não sabemos quem é. – Uma delas respondeu.
“Quanta eficiência, meu amigo!” pensei imediatamente e me
senti agraciado de não estar em um relacionamento naquele momento. Esse papo de
confiança é uma merda mesmo. O ser humano não vai segurar seus instintos se estiver
se colocando em risco, principalmente naquele ambiente, e inevitavelmente as
mentiras irão nascer.
Falando nisso, observei de longe uma menina dançando.
Parecia ser bem nova, tinha cabelos pretos enrolados e cerca de um metro e
sessenta de altura. Era magra e tinha uma bunda bem desenhada num jeans
coladinho. Segurava uma long neck de cerveja e trocou olhares comigo. Eu acenei
com a cabeça e levantei meu copo de vodka. Ela olhou nos meus olhos, sorriu e
continuou dançando. Decidi que ia arriscar alguma coisa e me aproximei dela.
- Como cê chama? – Perguntei.
- Bianca, e você?
- Carlos.
- Prazer Carlos.
- Prazer. Tá sozinha, cadê suas amigas?
- Estou com uma amiga, ela foi no banheiro.
- Legal, também tô sozinho.
- E aquele pessoal que você tava conversando.
- Não conheço ninguém, uma chatice que só.
Ela não respondeu nada, continuou dançando.
- Escuta, quer ir comigo lá fora pra gente conversar melhor?
- Como assim?
- Eu tenho um negócio aqui, tu curte?
Tirei o pó do meu bolso e mostrei pra ela. Ela acenou com a
cabeça que sim. Fomos do lado de fora onde havia um fumódromo, viramos nossos
rostos e corpos para parede e discretamente demos uma cafungada cada um.
- Escuta, quantos anos você tem? – eu perguntei.
- Fiz dezoito quinta feira. Vim aqui comemorar meu
aniversário com minha amiga.
- Puta merda, você nem avisou ela que vinha aqui fora
comigo, me desculpa.
- Relaxa, tava uma chatice mesmo.
Trocamos um beijo de cinema e voltamos pra dentro da balada.
Ficamos sentados no sofá dando uns amassos. Eu já devia estar na minha sexta ou
sétima dose de vodka, e estava muito bêbado.
Fomos ao banheiro mais algumas vezes e usamos toda a droga
que eu tinha.
Por volta das cinco horas, Leticia me abordou e disse para
irmos embora. Eu peguei o telefone da Bianca e disse que ligaria “ainda hoje”.
Demos um último beijo de cinema e fui embora.
O caminho para o metrô envolvia uma subida árdua. Eu
praticamente sem fôlego, subia com eventuais paradas para mijar em bancas de
jornais fechadas. Acho que eu tinha bebido demais.
- Carlos, eu tô puta com você! – Leticia disse.
- Pelo que?
- Eu te disse pra não usar droga, ficou óbvio que você usou!
- Foi pouca coisa, eu tinha comprado pra usar outra hora mas
acabei esquecendo de usar. Então tive que usar aqui. Outra coisa, a moça que
tava comigo me ajudou a usar, então nem usei muito.
- Que se foda tudo isso, eu não te chamo pra mais nada,
entendeu? Gosto de você, mas você é drogado demais, não dá.
Não respondi nada e tomei um caminho diferente de todos. Me
despedi com um aceno de mão geral. Observei Fabiano subindo para o metrô com a
mulher que ele estava beijando na balada. “Que canalha!” pensei.
Passei numa rua que vendia drogas, comprei um pino só, o
resto do dinheiro comprei duas doses de cachaça numa padaria. Aspirei o pino
todo de uma vez, tomei as doses uma em sequência da outra e aí sim, subi em
direção ao metrô. Completamente transtornado, consegui chegar em casa. Tomei um
banho e fui dormir.
5.
Era domingo, meio dia. Acordei com a cabeça doendo muito e o
feixe de luz da janela que esqueci entreaberta atacando meus olhos semi
fechados. Levantei, fui ao banheiro vomitar, depois disso escovei os dentes e
senti meu estomago roncar. Comi um pão puro que tinha no armário e abri uma
garrafa de vodka. Decidi que naquele dia não ia usar droga, estava muito
destruído.
Achei no bolso da minha calça o telefone de Bianca, que nem
lembrava de ter realmente anotado. Resolvi mandar uma mensagem pra ver o que
acontecia:
- E aí moça, sou eu, Carlos. A gente se beijou na balada
ontem.
Depois disso deixei o celular de lado e fui escrever um
texto. Era um texto sobre um cara que tinha uma namorada e traia ela numa
balada, no fim da história ele era assassinado pela namorada traída. Não gostei
muito, mas era o que tinha praquele dia.
O telefone tocou, era mensagem da Bianca.
- Oiiii, e como você está? Bebeu muito ontem.
- Estou bem, já estou bebendo de novo hahaha.
- Meu Deus, cara hahaha. Não sei como você aguenta, hoje não
quero sair da cama.
- Costume, pra mim o que fiz ontem é um dia normal.
- Legal.
- Mas e aí, quando vamos terminar o que a gente começou?
- A gente pode marcar sim, quando você pode? – ela
perguntou.
Eu estava desempregado, não fazia cursos e o dinheiro que
tinha na conta era de um emprego que eu havia recém perdido. Mas não queria
passar a imagem de “derrotado”. Eu sabia que não ia pra frente aquilo mesmo, o
que eu queria era só entrar na calcinha dela uma vez e seguir minha vida. Então
fiz o óbvio, menti.
- Olha, essa semana toda vou trabalhar, mas estou de boa na
sexta feira. Que tal você vir em casa pra gente beber e conversar melhor.
- Carlos, que papinho é esse de conversar? Pode ser direto
comigo hahaha.
- Hahaha você me entendeu então.
- Ótimo, sexta feira então.
Inacreditavelmente ela topou. Eu não iria na casa de uma
pessoa que acabei de conhecer e que nem sei onde mora. Mas acho que a juventude
dificulta o bom discernimento das coisas. Quero dizer, Bianca mal tinha
completado dezoito, via em mim um degenerado que poderia levar um pouco de
aventura na vida dela. Para ela, aquela aventura valia a pena.
A semana passou com a chatice de sempre. Bianca realmente
apareceu em casa e fizemos tudo o que tínhamos que fazer. Ela era uma moça
legal. Pensei até em marcar outros dias com ela, ver se dava certo agora. Mas
depois daquele dia, por ocorrência do acaso ou do destino, nossas conversas não
fluíram e nunca mais nos vemos. Acho que no fim ela queria o mesmo que eu.
Melhor assim.
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