O DIA EM QUE METI UM COPO QUEBRADO NUMA JUGULAR – 02/2015
1.
- Eu sou um fudido cara, sou um completo fudido.
- Que nada cara, você é foda, todo mundo fala.
- Todo mundo quem? – perguntei, acendi um cigarro, era
Marlboro vermelho. Sei que fazia mal, mas eu tava pouco me fodendo pra tudo,
quanto mais pro meu pulmão, ele ia agüentar aquela merda, mesmo que doesse.
- Bom, tem eu, tem o Maicon, tem o Luis. Tem bastante gente.
– Luciano disse, acendeu teu cigarro de filtro branco. Acho que a morte é o
tipo de mulher que ele não flerta (como eu flerto).
- Gostam de mim porque são outros fudidos.
- Os fudidos se encontram.
- De uma certa forma, nossa merda nos torna unidos. Já
pensou nisso?
- Já – ele disse, bebeu mais cerveja – mas agora tenho que
ir embora.
- Ok cara. Vai chegar bêbado no trabalho mais um dia ein.
Quanta eficiência hahaha.
- Pau no cu, vou chegar lá muito louco e tentar dormir.
- Vai lá cara...
Peguei mais uma latinha na geladeira. Abri, golei, levei ele
até o portão, abri, ele saiu, tranquei, voltei pra casa. Fui no quarto, bebi
mais um pouco da cerveja, tirei as calças, a camiseta. Deitei. Olhei pro teto.
Bebi mais. Esperei o tempo passar pra pegar no sono. Consegui dormir a muito
custo.
2.
Levantei com a porra do sol na porra da minha cara, vindo
pela fresta que esqueci aberta na janela. “Meu mundo não faz sentido”, pensei.
Levantei, peguei um cigarro, acendi, traguei, peguei a latinha de cerveja,
estava morna, tomei mesmo assim, dei um peido e olhei pra parede. Meu quarto
era azul e por isso, tudo tinha sentido. Fui ao banheiro, mijei, lavei minhas
mãos e dei um arroto. Meu telefone tocou, era Fernanda.
- Oi Fê, tudo bem?
- Oi Carlos, tudo sim, e você?
- Também.
- Escuta, tu vem hoje pro meu niver, né?
- Caralho Fê, tô numa ressaca fudida. Tá foda. Exagerei
ontem.
- Porra mano, você me disse que vinha, seu filho da puta.
Sem chorôrô, aposto que depois do primeiro drink você vai se sentir um homem
renovado.
- Talvez sim, eu não sei.
- Vai sim. Melhor ainda, começa a beber ai, o niver é só
mais tarde mesmo.
- Boa idéia, tenho cerveja e vinho aqui, deve ajudar.
- Você SEMPRE tem bebida na sua casa, por isso sugeri. Não
cansa de beber tanto.
- Não.
- Ok. E sua namorada, vem?
- Tammie?
- Tem outra?
- Claro que não. Mas ela não vai.
- Por quê? Quero conhecer a vadia que tá tentando te colocar
na linha.
- Então, ela não gosta muito desses eventos sociais. E
outra, ela mora longe pra caralho, ficaria inviável. E ela não tá me colocando
na linha.
- Tu trocou vodka por vinho, ela tá te colocando na linha.
Não discute comigo, Carlos.
- VAI SE FODER, VADIA! – eu berrei em tom de brincadeira –
Mas tu sabe que troquei a vodka pelo vinho antes dela.
- Mas mantêm por ela.
- Talvez.
- Está apaixonado por ela?
- Porra nenhuma. Tô tranqüilo.
- Certeza?
- Não sei, talvez eu tenha certeza.
- Beleza, deixa quieto. Vê se aparece. Quando chegar, me
liga, te busco na porta. Vão rolar uns descontos e talz.
- Fechou Fê. Beijos.
- Beijos.
Desliguei o telefone, fui na cozinha, peguei três fatias de
pão, montei um puta lanche com queijo, mortadela, presunto, tomate e alface.
Tava um puta lanche gostoso, e melhor, não vomitei nem nada. Geralmente, quando
acordava de ressaca, nas épocas em que bebia pesado, eu vomitava sangue. Era
uma merda. E nem dava pra comer. Mas depois do vinho, acordava bem. Vomitava de
vez enquando, mas o que me fudia mais, era a dor de cabeça. Que dor de cabeça
terrível. Mas bom, fazia já uns três meses que parara de beber
desenfreadamente, e os resultados estavam aparecendo. Meu desempenho sexual
estava melhor, conseguia comer melhor, dormia um pouco melhor também. Eu tinha
mais ânimo pra tudo, era bacana.
Comecei a beber. Abri a primeira lata, coloquei um som.
Tocava Metallica, Black Album. Som pesado pra manter o ritmo pesado. Segui
bebendo, batendo papo com estranhos na internet e batendo poemas de amor. Nem
todos eram sobre Tammie, alguns eram ainda pra Carlinha, não havia superado
aquela vagabunda em cem por cento. Mas tudo bem, alguma hora iria acontecer.
Bebi por algumas boas horas. A vida estava sim, em uma boa paz.
Tomei banho, me arrumei, fiz a barba, escovei os dentes
(enfim, todo mundo sabe como se toma um banho, cada um sabe lavar teu cu da
forma que mais parece correta, e assim eu fiz com o meu), coloquei uma roupa
simples, eu estava simples, queria começar a ser mais simples. Quando eu
tentava complicar, tentava ser o que não era, tomava no cu. E outra, meus
amigos aceitavam, Tammie aceitava, e a vida estava parecendo ter algum brilho
de novo. Sempre preferi estar no escuro, mas enxergar um pouquinho de luz não poderia
me fazer mal. Maciota: essa era a palavra. E eu adorava ela. Coloquei meu
tênis, peguei uma garrafa fechada de vinho e sai de casa.
3.
Desci do metrô na estação Carrão, tinha ainda uma boa
caminhada pra seguir, uma puta rua, pior, subida. “Malditos cigarros vermelhos,
malditos... MALDITOS!”, pensei irritado, meu pulmão não suportaria tanta merda.
Eu maltratava ele, mas às vezes, fazia falta. Chegava a pensar em largar tudo
isso, começar a correr e me cuidar, mas pra variar, eu tinha preguiça demais, e
a idéia morria em menos de dez segundos. Meu potencial era diretamente
corrompido pela minha preguiça. E eu não ligava a mínima pra isso.
Chovia pra caralho, e eu ia subindo a rua, e meu celular
tocando barulho de mensagem, talvez Tammie, talvez meu pai, eu não sei, e
naquele momento não poderia saber. Fui bebendo a garrafa de vinho, bebia
rápido, eu tinha bebido mais da metade no caminho, mas lá não podia entrar com
bebida alcoólica. Resumindo: quando cheguei na porta do barzinho, já estava
completamente bêbado, trançando as pernas, desviando de carros no meio da rua,
rolava aquela buzinada “Saí daí, moleque bêbado do caralho!” e eu xingando de
volta “A rua é pública, caralho!” e todo aquele povo que tinha vida e não bebia
e não tinha problemas de infância (ou tinham, mas fugiam de outra forma), os
moralistas me olhando inconformados, e as senhorinhas passando na rua com seus
cachorros cagadores e sujadores de rua me olhando com olhar de reprovação. E
tudo o que eu pensava era “Foda-se a senhora e o teu rabo, eu estou no meu
direto”. Inconsequência era meu nome do meio.
Joguei a garrafa de vinho fora, entrei no bar. O lugar
estava animado, era sexta e todo mundo tava com dinheiro. Pessoas ricas bebendo
caro, mulheres ricas com seus namorados ricos, falando sobre Iphone, carros da
moda, baladas legais, viagens pra Amsterdam, herança dos pais e etc. E eu ali,
ensopado. Fui procurar o balcão. Precisava beber.
- Quanto é a cerveja, meu chapa?
- Quinze reais.
- Peraí, já volto – eu disse, fingi que sai, mas voltei na
mesma hora – então, eu já vendi meu rim ali do lado, já posso pagar QUINZE
reais numa cerveja.
O garçom riu, disse que era o preço da casa, blá blá blá, e
aquele papo de quem não quer lidar com um bêbado chato. Eu ri também e pensei
“Que se foda, vou beber essa merda e pau no cu”, e peguei minha cerveja. Bebi
quase metade dela e lembrei de ligar pra Fernanda.
- Fê, tô aqui. Cheguei.
- Onde você tá?
- Não sei, aqui embaixo do lado do balcão.
- Ancorado no bar? Mas já?
- Tô só no meu primeiro drink, você não viu nada ainda.
- E o que acontece quando você bebe o segundo?
- Eu bebo o terceiro.
- Hahaha, sucesso. Tô indo ai, vamos lá resolver a lista de
descontos.
Ela desceu, me deu um abraço e um beijo no rosto. Ela estava
deliciosa. Que peitos aquela mulher tinha. Já tinha comido ela em outras
oportunidades, mas acabamos virando amigos. Amigos mesmo, sem ser colorido. Ela
era gente boa, mas faltava alguma coisa pra manter algo além de amizade. Enfim,
ela era a aniversariante, e os peitos dela eram sensacionais e eu estava
olhando pra eles.
- Carlos, para de olhar meus peitos.
- São lindos.
- Eu sei, mas para. Hahaha, tu não toma jeito. E sua
namorada?
- Ia querer ver também. Eu devia tirar uma foto e mostrar
pra ela depois. Ela ia gostar.
- Ela é dessas?
- Não sei, sei que qualquer ser humano gostaria dos teus
peitos.
- Para de me bajular hahahah, tô ficando sem graça, seu
merda.
- Beleza, vamos resolver logo essa parada.
Fomos no caixa, eles fizeram alguma merda lá com a minha
comanda que os drinks teriam os preços alterados. A breja cairia pra doze
pratas, ótimo, quase nada de desconto, mas já ajuda. Quando se bebe por
atacado, qualquer um real que tu consiga segurar é importante.
Subimos as escadas. Estavam numa mesa: a mãe dela, meu amigo
Gil, uma amiga dela Valéria, e mais uns outros amigos. De mulher, só a mãe e
Valéria. Ela tinha muitos amigos homens, ela se dava bem com os homens. Não era
fresca, a maioria das mulheres é. Enfim, cumprimentei a todos tentando parecer
o mais sóbrio possível. A porra da noite ainda estava no começo, e eu tinha que
me manter no mínimo, de pé.
4.
Cumprimentei um a um. Valéria e a mãe de Fê eram lindas. Gil
era um grande amigo de trabalho. Tinhamos trabalhado juntos cerca de dois anos
atrás, agora ele estava em outra empresa, e eu desempregado.
- Carlos, e aí, nada de trampo?
- Nada, mano. Tá foda, tô segurando até o último centavo.
- Sei como é. Lá paga pouco, mas paga em dia, consigo viver
bem. E outra, faço o que gosto né, aí parece que acordar cedo é menos
torturante.
- Por Deus, nem me fale. Acordar cedo deveria ser crime
contra os direitos humanos. Acordar depois do meio dia é a única coisa que tá
valendo meu desemprego.
- Sim cara, ainda mais pra um escritor como você. E aí, como
anda a vida, o que tem feito de bom?
- Nada, bebendo, escrevendo. Intercalo entre essas três
coisas. Tô namorando, aliás.
- Ah para, você?
- Sim, caralho. Quem diria né?
- Tu não nasceu pra essas porras. Digo, ninguém suportaria
suas merdas. Qual é a fórmula mágica dela? Hahaha.
- Ela bebe demais. Tem problemas demais. Sei lá, uma pessoa
quando é uma fudida, acaba se unindo com os fudidos. Ela não é diferente disso.
- Para com isso cara – ele disse, bebendo. Aproveitei pra
beber também. – Mas ao menos ela é bonita?
- Sim, ela é de boa.
Bebi mais, mais rápido. Acabei com minha breja. Saí, busquei
mais, voltei. Continuei meu papo com Gil.
- A Fê tá linda hoje, né? – ele disse.
- Tá uma delicinha.
- Um pitel.
- Um chuchu.
Ambos rimos e bebemos.
- Quer pegar? – eu disse.
- Por mim eu pegava ela sempre, a gente morava junto e tinha
um monte de filhinho bonito igual a ela.
- Então vai fundo cara, tenta pegar ela. Eu mesmo só não vou
porque tô namorando. Mentira, e também porque já tive meus momentos com ela.
- Fiquei sabendo... E aí, é bom?
- O que tu acha? – olhei pra ele com uma cara de pegador,
ele riu e eu também. Bebemos. Ele foi buscar mais cerveja e voltou. A noite
estava boa.
- Enfim Gil, eu posso te ajudar a pegar ela.
- Ah é? Como?
- Simples, vou falar bem de você pra mãe dela. Essas porras
não tem segredo – eu disse com uma cara de sabedoria milenar.
- Ok. Se você me ajudar a pegar ela, eu banco umas cervejas
pra você.
- Jura? Isso me motiva, tu não tem idéia.
- Você diz que não se vende, mas qualquer drink te compra,
Carlos. Tu é uma vadia.
- Aham, sabemos disso, hahaha.
Sai de perto de Gil, fui em direção à mãe de Fê. Uma loira
alta, bonita, inteira pros seus quarenta e poucos anos. Eu por mim pegaria
também. “Meu pau é meio insaciável”, pensei, imaginando que pegaria todas as
fêmeas convidadas. Eu não valia o chão que pisava, e nem o vinho barato que
tomava todo dia (as duas garrafas dele). Mas no fim das contas, as coisas davam
certo, e eu estava bem assim.
- Oi! – eu disse com aquele sorrisão na cara.
- Oi! – ela retribuiu o sorriso, me dando um beijo no rosto.
– Tu é o Carlos, trabalhou junto com a Fê, né?
- Isso. Posso dizer que fui meio que o tutor dela no trampo.
Ensinei ela muita coisa.
- Aham – disse Fê, confirmando – vou pegar mais bebida e dar
uma volta.
- Vai lá – eu disse, pensando “que excelente”
- É mesmo? – a mãe dela disse – Mas você é tão novo! Assim,
não imaginei isso.
- Então, comecei cedo. Sou formado desde meus vinte e um
anos. Me formei cedo. E quando a Fê chegou lá no trampo, eu já tinha uma
rodagem. Então me colocaram pra ajudar ela, e foi isso que eu fiz. – golei mais
cerveja.
- Nossa, que legal! Aliás, meu nome é Soraia. Relaxa que sou
uma mãe super de boa com as amizades da minha filha hahaha – ela tomava suco,
eu acho. Não tinha álcool no que ela bebia.
- Ah sim, Soraia. Saiba que sua filha só tem amigos fodas...
incluindo eu – dei risada e bebi mais, Soraia riu também – brincadeira. Mas o
Gil ali é um puta cara – disse apontando pra ele, que conversava com os amigos
de Fê.
- É mesmo? Ela fala dele, me parece ser um cara fechado, eu
não sei.
- Isso aí é um cara FOCADO. Centrado, sabe? Quando tem um
objetivo, vai lá e conquista.
- Jura? Não creio. E eu achando que essa barba e esse
cabelão que ele tem, são de uma pessoa que não quer nada na vida.
- Hahahaha, sério? – matei minha breja – Que nada, isso aí é
só o estilo dele. Mas aparência não diz nada sobre as pessoas.
- Tem razão nisso, moço! – ela disse e matou o suco dela.
- Exatamente, ele é um cara sem vícios sabe? Eu mesmo bebo
demais, mas ele é mais sossegado – mostrei meu copo vazio pra ela.
- Hahaha, que bom, não gosto de vícios. Assim, beber de vez
enquando, até vai – ela chegou bem próxima a mim pra cochichar – Fê fuma um
baseadinho aqui e ali sabe? E por mim tudo bem também. Só não quero ela se
envolvendo com droga química, cocaína, ecstasy, essas coisas.
- Eu tô ligado – respondi, ainda bem próximo à Soraia – eu
também fumo aqui e ali, muito raramente, Gil também, mas droga química, Deus me
livre.
- Sim, isso acaba com a pessoa.
- Nem me fale, jamais que vou cheirar cocaína na minha vida,
JAMAIS, odeio isso, já vi muita gente lá no trabalho mesmo, que ficava dois,
três dias sem tomar banho por causa de droga. E digo mais, se minha namorada
cheirasse, eu dava um fora nela! Odeio cocaína, odeio mesmo.
- Gostei de você, um cara centrado e correto – ela disse e
se afastou, não precisava cochichar mais – você é bom com as palavras! Tá na
área certa.
- Comunicação é interessante mesmo. Gosto muito. Falo
demais. Eu vou dar uma volta pra pegar mais bebida e já venho hahaha
- Vai lá – ela disse e se virou pra um outro amigo de Fê.
Sai passando por Gil, o levei até o balcão do bar.
- Seguinte, tu tá bem falado pra moça. Agora a questão é com
você. Temos que esperar a Fê chegar lá na mãe dela, com certeza a mãe dela vai
falar. E aí depois, tu dá o bote.
- Como você sabe que a mãe dela vai falar, Carlos?
- Mulheres. Sei que vai, são assim mesmo.
Pedimos nossas bebidas, ele não quis pagar ainda. Eu sabia
que era questão de tempo e logo eu estaria bebendo de graça naquela merda. E
bebendo de graça, meu amigo, eu teria um problema, e não ele.
Fê passou e foi em direção à mãe dela. Eu e Gil resolvemos
ir fumar um baseado que ele havia trazido. Fomos na área de fumante, acendemos
e batemos papo sobre coisas triviais (política, economia, essas coisas que não
merecem ser citadas aqui), e demos risada. Encontramos um cara por lá, ele
serrou do nosso baseado, e se meteu na conversa. Sujeito bacana. Voltamos,
pegamos mais uma cerveja. Fomos de novo em direção à mesa da aniversariante.
- Carlos, vamo ali fumar um beck? – Fê me disse, mostrando
aquele cigarrinho bem fininho e enrolado.
- Puxa Fê, eu tô suave, mesmo. Mas chama o Gil, ele tá super
na vibe de fumar. Sabe que não gosto tanto de erva, meu negócio é beber hahaha.
- Beleza então, seu puto. Fica aí ein, não vai sumir.
5.
Sentei do lado de Valéria (era o único lugar vago, eu juro
pelo meu fígado, e eu amo meu fígado, não sou nada sem ele, então deu pra
entender que era essa a verdade). Ela me olhou, eu olhei ela. Matei minha
bebida. Eu não falava com ela, nem ela comigo. Eu estava com o copo vazio. Isso
me irritava. Olhava pro celular. Esperava o tempo correr. Nada. Gil voltou com
Fê. Me trouxe uma cerveja. Me piscou o olho. Rimos. Comecei a beber. Estava
ficando relaxado novamente. As coisas estavam no lugar, eu estava sóbrio e
beberia de graça. Tammie era legal. Acho que eu estava apaixonado. Escrevia
poemas de amor quase todos os dias. Ela não lia nem metade do que eu escrevia,
e assim parecia um pouco menos doloroso pra mim. Esse “estar apaixonado”. Eu só
queria uma foda interessante e uma companheira de copo. Pedir demais? Deus me
disse que sim. Olhei pra Váleria. Ela sorriu dessa vez.
- Oi! – ela disse e já veio me dando um beijo no rosto. Me
incomodou aquela liberdade que não dei a ela.
- Oi – eu disse, não tão entusiasmado, golando minha
cerveja. Só de saber que eu não havia pago ela, tornava ela mais interessante,
vocês não fazem idéia.
- Tu trabalhava com a Fê, naquela agência fudida de
publicidade, né?
- Sim, a gente dava um trampo lá.
- Muito puxado?
- Eu mal dormia, vomitava de nervoso, tive problemas com meu
casamento, mas eu adorava aquela porra. Ela também. Nosso trampo era
relacionado, eu contava muito com ela.
- E ela com você?
- Exatamente.
Um minuto em silêncio. Ela bebia coca cola. Gostava de coca
cola só com vodka. Olhava o relógio. Tava nervoso. Qual era o meu problema? Pra
onde a vida ia me levar? Porque eu pensava em coisas assim quando todos
pareciam estar felizes? Imaginei que eles não eram fudidos como eu, e que os
fudidos tem que estar com outros fudidos, senão eles começam a ficar mal e a
pensar merdas, e murcham como flores mortas. A poesia existia, mesmo comigo
suando e me embriagando pra fazer as coisas acontecerem e o tempo passar.
- Fê disse que você escreve – Valéria puxando assunto de
novo.
- Escrevo – respondi, golando a cerveja.
- Nossa, que legal! O que você escreve?
- Palavras – eu disse – hahahaha
Ela riu também.
- Como tu é imbecil hahaha, digo, sobre o que escreve?
- Sobre a vida, sobre os rolês que faço, sobre mulheres,
sobre amigos que beberam demais, sobre o mijo que vi na porta da balada...
sobre qualquer coisa.
- Nossa, que legal. Esse é o tipo de balada que vai escrever
sobre?
- Depende do que acontecer nela, e depende da minha vontade.
- Por quê? Tem preguiça de escrever?
- Tenho preguiça de bater em teclas. A história tá toda na
minha cabeça. Se eu tivesse grana, contratava alguém pra escrever enquanto eu
ia ditando.
- Nossa, deve ser cansativo mesmo – ela disse, golou a coca
cola dela – eu acho que não conseguiria. Tu já pensou em escrever um livro?
- Não, eu escrevo, mas acho que um livro é coisa demais. As
coisas tão bem assim. Não levo a escrita como uma profissão, mais como um
desabafo.
- Entendi.
Olhei as coxas dela. Eram lindas, torneadas, coxas morenas.
O vestidinho dela era de um cinza brilhoso. “Meu Deus, queria só por um segundo
ser solteiro e meter minha cabeça no meio dessas coxas”, pensei, sabendo que
isso não aconteceria, sabendo que eu e Tammie estávamos bem, e que aquele
prazer sexual seria só momento, e que não valia a pena. Bebi mais. Minha
cerveja acabou, Gil chegou com mais. Eu tinha um serviço de garçom, e a bebida
era grátis. Nessa altura, Gil já estava andando abraçado com Fê. “Sorte ao
casal...”, pensei e continuei bebendo. Não havia nada que eu pudesse fazer além
disso. Me falaram uma vez que se vai em baladas pra duas coisas: beber e pegar
mulher. E que você tem que escolher uma das coisas, nunca as duas. Eu namorava,
portanto, não tinha escolha. E na real, sempre preferi beber mais do que pegar
mulher.
Olhava as coxas dela. Ela percebeu. Achei que estava fudido.
Ela sorriu pra mim. Ela estava sóbria, eu bêbado. Bebi mais. Ela pegou minha
mão direita e colocou na coxa esquerda dela. Eu apertei com a força de uns mil
cavalos. Meu Deus, que delícia de coxa, CARALHO, que delícia de coxa. Meu pau
ficou duro na hora, ela sorriu mais pra mim. Respirei fundo, tirei a mão da
perna dela e disse.
- Não posso, eu namoro.
- Você namora?
- Sim, eu namoro. Namoro. Ela é gente boa. Eu namoro.
As palavras pareciam engasgar, eu não sabia exatamente o que
dizer, e nem como dizer. Saia tudo uma merda, e eu tentava me explicar.
- Cadê a tua aliança que eu não tô vendo? – ela disse, pegou
minha mão direita e procurou algum anel. Não tinha.
- Não preciso de aliança – eu disse, bebendo mais – eu sei
do compromisso que tenho com ela, e ela comigo.
- Fiel? – ela perguntou, dando uma mordida nos lábios e
mostrando ainda mais as coxas.
- S-s-sim... Fiel – disse já gaguejando. Meu pau duro, eu
tentando disfarçar. Homem é um animal irracional, se guia pouco pela cabeça e
muito pelo pau (desculpem a rima, foi sem querer).
- Ok, tu que sabe. Teu amiguinho parece estar interessado –
ela disse, bebendo coca e apontando pro meu pau.
Num extremo desconforto, me levantei e fui mijar. Era isso,
eu precisava mijar. Tirei aquele troço duro da calça, consegui apontar pro vaso
e mijei. Lavei as mãos, ele deu uma amolecida. Me senti melhor. De qualquer
forma, eu não podia ficar do lado daquela mulher. Eu ia ficar duro o tempo
todo. Voltei pra mesa, peguei minha cerveja e bebi. Eu estava bêbado (as
cervejas eram servidos em copos grandes de vidro, de quase um litro). Precisava
ir embora dali, e urgente.
6.
Dei um último gole e comecei a me despedir das pessoas. Pra
Valéria e os amigos de Fê, dei um leve aceno de mão. Abracei Soraia.
- Apareça sempre – ela disse – você me parece um cara bem
legal.
- Obrigado, Soraia! Venho sim – dei um beijo no rosto dela.
Cheguei próximo a Gil e a Fê. Abracei os dois, dando um
beijo em Fê. Gil parecia feliz. Ele estava feliz.
- Valeu por ter vindo, seu merda – Fê me disse.
- Sim cara, tu não sabe como foi importante você ter vindo
hahahaha – Gil disse rindo, mas claro que esse segredinho ficaria entre nós,
dali pra frente.
- Obrigado meus amigos. E Gil, tá ligado né? Se pintar
trampo lá, me dá um toque.
- Pode deixar mano!
Sai meio cambaleante. A fila pra pagar estava imensa. Eu não
me sentia bem, eu queria sair dali, e urgente. Estava tudo muito apertado, e o
sentimento era claustrofóbico.
Estava indo em direção ao fim da fila, com a cara de sete
punhetas perdidas. Eu tava cansado, e só de pensar no caminho de volta, meu
Deus, seria péssimo. Enfim, ia pro fim da fila, quando encontrei o sujeito do
baseado, isso mesmo, aquele que serrou o baseado e se meteu na conversa.
- E aí cara! – ele disse.
- Opa, e aí! – eu respondi.
- Entra ai mano. A fila tá gigante – ele me disse, eu entrei
no lugar que ele estava na fila.
Tinha um casal atrás de mim. Um cara e uma mina. Os dois
pareciam ter dinheiro. Eles não eram uns fudidos (como eu), eles pareciam ter
uma vida boa. Bebiam caro sempre que possível. Quero dizer, problemas todos
temos, mas quando se existe uma estrutura, seus problemas são minimizados ao
talo. Enquanto os meus, eram só maximizados. Eu estava consumido pela inveja. Só
de olhar pra ele, me senti puto.
- Escuta aqui, meu caro, você não pode furar a fila – ele me
disse. Um sujeito alto, mas bem magrelo. Eu não tive medo dele, talvez pela
bebida.
- Não cara, eu vou ficar bem aqui, eu não tô furando fila.
Fui convidado a entrar aqui, e é isso que eu vou fazer.
- Cara, isso tá errado – ele me disse com uma postura
agressiva, como se quisesse se mostrar pra sua namorada de cabelo liso, peitos
bonitos e pele bem cuidada.
Num lampejo que não sei explicar, eu olhei pra uma mesa que
estava do lado da fila, havia um dos copos grandes de cerveja. Eu simplesmente
peguei o copo com a mão direita, bati ele com violência na quina da mesa,
quebrando a borda, deixando transparecer só um vidro quebrado, como uma arma
branca.
- ESCUTA AQUI, CARA, TU VAI QUERER SE MOSTRAR PRA SUA
NAMORADINHA!? – eu disse, já metendo o copo no pescoço dele, quase fazendo um
furo na sua jugular – VOCÊ NÃO SABE COM QUEM ESTÁ LIDANDO NESSA MERDA, TU NÃO
FAZ IDEIA DE QUANTO EU SOU MALUCO!
Nisso, ele levantou os braços. Não havia seguranças por
perto, e as pessoas pareciam entretidas em outra coisa. No fim das contas, tive
sorte. Poderia ser pior, eu poderia tomar uns tapas de um segurança imenso, do
tamanho de um armário. Mesmo que isso ocorresse, eu sou pós-graduado em tomar
no cu, então, não teria problemas.
O cara ficou caladinho do meu lado, no fim das contas, ele
acabou aceitando eu ter furado fila. Pensando bem, eu errei de ter furado a
fila, e não vou culpar a bebida, e nem todos aqueles acontecimentos. Parece que
quando eu vejo pessoas, participo de eventos sociais, eu fico um pouco mais
puto e irritado, parece que não quero estar ali. Eu quero mesmo um lugar pra me
esconder e ficar tranqüilo, bebendo, ouvindo boa música, lendo alguma coisa,
batendo em teclas... Todas essas fugas parecem mais interessantes do que
eventos sociais.
Paguei minha comanda (e sim, foi bem barata, acabei
economizando bem), saí do bar. Não lembro exatamente o que aconteceu a partir
daí, porque eu tive um apagão JUSTAMENTE quando sai do bar. Imaginei que ao
menos eu iria pra casa em segurança.
7.
Acordei no dia seguinte numa rua que eu não reconhecia, numa
garagem de alguma empresa. Manjam aquelas garagens que são protegidas somente
por uma corrente de ferro, apenas pra que os carros não entrem? Então, ela era
assim. Eu devo ter pulado a corrente, e entrado. Deitei e dormi em cima da
minha mochila. Parecia um lugar agradável pra se dormir. Minhas roupas estavam
sujas, eu estava sujo no geral. Minha cabeça estava pesada, eu estava com uma
ressaca desgraçada. Olhei meu celular, mensagens de Tammie perguntando como eu
estava. “Merda”, pensei “deixei essa vadia preocupada. Não valho nada”.
Telefonei pra ela, ela atendeu.
- Alô. Carlos? Como tu tá?
- Eu tô bem.
- Chegou bem em casa?
- Não, eu dormi na rua.
- Na rua!? Como assim!?
- Não sei, parecia uma garagem, eu não sei dizer, apenas
dormi lá.
- Caralho. Caralho. Meu Deus, Carlos, que insano isso.
- Eu sei. Foi errado pra porra. Meu Deus, que merda.
- O que foi?
- Meti um copo quebrado na jugular de um cara ontem.
- VOCÊ O QUE!? Me explica isso!
- Não sei dizer, eu furei fila, a gente brigou e quando fui
ver, meti um copo na garganta dele.
- Tu podia ter se fodido, tu sabe né?
- Sei sim. Minha cabeça tá pesada Tammie. Depois nos
falamos.
- Beleza. Vai pra casa. Toma um banho. E vê se não bebe
hoje.
- Ok, farei isso. Beijos.
- Beijos.
Desliguei o telefone. Merda. Eu gostava dessa vadia, não
podia fazer nada contra isso. Ela era uma fudida, e os fudidos têm que ficar
entre os fudidos. Éramos um bom casal. Estávamos em sintonia. Nossas vidas
faziam sentido quando estávamos juntos. Separados éramos fracos, juntos, a
gente podia lidar com a vida. Isso era poesia. Eu e ela éramos poesia. “Minha
garota, minha garota...” pensei com um sorrisinho contido no rosto. Fui em
direção ao metrô, e tudo o que eu mais queria naquele momento era um banho e
paz de espírito.
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