O INFERNO É UM CUBÍCULO – 03/2014
Quando abro essa garrafa de cachaça exatamente às 7h15 duma manhã de
terça-feira eu finalmente percebo que sim, existe algo errado. De volta ao
inferno, trancado sozinho num cubículo, tendo como companhias garrafas e
textos. Penso nos grandes heróis da literatura mundial, que se isolaram e foram
de uma certa forma esquecidos pela sociedade. Essa mesma sociedade que dia após
dia cansa de lutar pelos trastes e degenerados presos em cubículos, e que são
alimentados somente pelos seus péssimos textos, que acabam se tornando
repetitivos, assim como suas vidas, os infernos nos cubículos. E por mais que
tentamos achar algo prazeroso o suficiente para preenchermos nossas vidas, para
tentar sair do cubículo e principalmente do inferno, nós, somente nós, sabemos
que esse inferno todo é o que acaba salvando-nos do suicídio. Quando esvaziamos
uma garrafa e escrevemos péssimos textos, sentimos que de uma certa forma somos
exemplo para pessoas que ainda não entraram, somos apenas imagens, como placas,
que mostram para não entrar nisso, não se trancar em cubículos, não escrever
textos repetitivos e muito menos começar a beber às 7h15 duma terça-feira. Sim,
destinados ao inferno cumprimos o nosso papel social, e de uma certa forma isso
nos reconforta. Assim como nossos textos chatos e repetitivos e o álcool
entornado em cubículos, e as garrafas vazias depois de um apagão ao meio-dia, e
as vagabundas que nos chutaram, tudo isso nos reconforta e nos alimenta ainda
mais para não sair do inferno, e muito menos se destrancar do cubículo.
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