O POUCO QUE SOBROU – 07/2022

O trabalho tem me desgastado física e emocionalmente nesses últimos meses. Parece um ciclo vicioso sem fim. É incrível pensar que boa parte das pessoas passa uma vida toda se fudendo de trabalhar em troca de merreca e não pensa em estourar os próprios miolos nenhuma vez. Diria que são corajosos. Ou talvez covardes demais pra confrontar a realidade cinza que está ao redor delas.

Um amigo num rolê que eu tava há uns oito anos atrás, depois que voltei do banheiro e cheirei o último risco de cocaína que a gente tinha, me disse uma frase que nunca esqueci: "Não importa se você tem a CORAGEM ou NÃO TEM A CORAGEM de olhar, o abismo estará sempre lá." Não sei o que motivou ele a soltar essa do nada. Acho que foi tristeza pelo fato da cocaína ter acabado e a gente não ter nem o dinheiro do busão pra voltar pra casa. O que ele quis dizer é que OLHAR é questão de escolha. A maioria escolhe não olhar. Uns olham sem querer. Outros fazem questão de olhar.

Faço parte do último grupo.

Não que eu esteja aqui pra "embelezar tragédias" (termo clichê horrível que uso em quase todos os meus textos, mas agora que escrevi vai ficar aí), até por que, de tragédia hoje minha vida não tem nada. Eu diria que é um ciclo vicioso onde fico exausto demais, e por isso não consigo fazer nada, somente ficar trocando entre 3 aplicativos às vezes por horas, rolando a tela sem propósito algum, e logo na sequência, eu fico ansioso e tento resolver tudo de uma vez, resolvo meia dúzia de coisa, depois fico exausto e volto pra fase inicial.

Show de bola (joinha).

Estou tentando trocar minha depressão pelo cansaço, e adivinhem, tem dado certo! Geralmente fico cansado ao ponto de não conseguir pensar em absolutamente nada, após 14, 16 ou até 18 horas trabalhando de forma ininterrupta. Bebo café, coloco música alta pra tocar e fico me esforçando pro meu olho não fechar. No fim do dia, fico cansado o suficiente pra não pensar em colocar um fim em tudo. E nem pra sair por aí gastando dinheiro com cachaça barata até meu fígado explodir e nem comprar cocaína até meu septo furar.

Um dia de cada vez, bebê.

Eu entendo uma pessoa que se mata. Eu realmente entendo. Viver nesse mundo é algo louco demais, uma pessoa em sã consciência, que fica olhando o abismo não consegue suportar por muito tempo. Eu mesmo tentei me matar oito vezes, não me orgulho disso, mas pelo menos serviu pra me mostrar que mesmo que eu tente, não vai rolar, o que me fez desistir da ideia.

Esse texto não tem ensinamento nenhum, não vai te fazer ganhar dinheiro, não vai te ensinar princípios e nem valores, não vai dar lição de moral e muito menos te ajudar a pegar aquele gatinho ou aquela gatinha. Tudo que foi cuspido aqui foi cuspido exclusivamente pra saciar um sentimento em mim de que ainda tenho algum prazer em alguma coisa. No caso a escrita. E hoje, mesmo depois de meses sem bater nessas teclas, percebi que conheço palavras e consigo (ainda) montar frases com algum (ou nenhum) sentido. Resumindo: uma parte importante de mim não morreu, por mais que tantas outras estão morrendo dia após dia.

Não temos escolhas. Desde o dia que nascemos não temos escolhas. Ou a gente faz parte da sociedade, ou vive como um ermitão e é taxado de louco. Ou enlouquece e sai por aí sem roupa, rasgando dinheiro e mostrando o bilau, peru, piu piu, trolha, pau ou simplesmente "penes" pra estranhos esperando algum tipo de empatia. A insanidade é por vezes, inevitável.

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