O PRESENTE É O FUTURO PASSADO – 03/2026
Tudo ocorreu de uma forma muito simples no dia de hoje. Falando
de escrita, o meu processo é praticamente o mesmo há quase vinte anos, e tenho
muito orgulho disso. Quer dizer, quando penso em continuidade lembro
imediatamente do Fausto Silva, conhecido como Faustão. Os intelectuais adoram
criticar o programinha dele (que eu particularmente sempre achei uma bela
merda, mas nunca tirei o mérito dele), mas é fato que o cara ficou quase trinta
anos no ar fazendo o mesmo programa no mesmo dia e no mesmo horário.
Desenvolver uma rotina e ser bom em segui-la, obtendo algum tipo de prestígio ou
sucesso, não é pra qualquer um.
Já eu não tive o prestígio ou sucesso, mas desenvolvi a
rotina, o processo.
Eu tava lembrando no início desse mês do primeiro texto que
escrevi, em 2005. Eu tinha um computador de mesa, daqueles com os monitores
brancos de tubo, um teclado brutão igualmente branco (ambos já amarelando,
processo comum naquela época), e o processador eu não lembro qual era, sei que
para abrir o word ele demorava muito, então eu geralmente abria o bloco de
notas que era mais rápido. E isso que fiz. E o processo de escrita foi algo
muito simples pra mim, eu comecei a digitar e as rimas do poema saiam quase que
automaticamente, em menos de dois minutos eu já tinha terminado. Aqueles dois
minutos pareceram de alguma forma que deixaram de existir, foi como se eu como
corpo e espírito tivesse saído do espaço tempo como conhecemos. E a partir daí,
eu pouco mudei no meu processo: o “projeto” do texto fica na minha cabeça, às
vezes por semanas, às vezes por minutos, eu sento com um disco tocando e uma
garrafa do lado (no caso de hoje é sempre água, diferente de antes que já foi
vodka, cachaça ou vinho) e naturalmente o negócio sai, sem sacrifício algum,
sem forçação de barra, sem “bloqueio criativo” nem nada disso. Sejam para
poeminhas de dez linhas, sejam aforismos, sejam contos mais longos e também foi
assim para meu romance de cem páginas, que escrevi e revisei em menos de quinze
dias. Nesse momento eu me desconecto com o mundo e não existe mais nada entre
mim e a total liberdade. E isso talvez explique a facilidade.
“Mas escrever merda é fácil, qualquer um consegue.”
Não, meu amigo leitor, a maioria nem merda consegue
escrever, fica olhando para a tela em branco e as palavras ficam engasgadas. A
ausência de texto é muito pior do que um péssimo texto. Ao menos para mim.
Bom, como sempre, dei uma leve divagadinha antes do assunto
do texto. E esse texto, para variar, vai ser feliz.
Eu tive um amigo por quase dez anos. Quando conheci esse meu
amigo eu já vi que era uma pessoa muito inteligente, articulada e naturalmente
tinha liderança. Na época ele ainda não tinha nada, mas os anos foram se
passando e financeiramente ele construiu muita coisa: empresas e mais empresas,
lucros absurdos, grana em contas offshore e criptoativos pra tentar fugir da
Receita Federal, carros importados, passeios de lancha. A porra toda. E eu na
rabeira, sendo seu fiel escudeiro, trabalhando pra caralho e ganhando uma boa
grana também.
Mas é como minha avó me disse uma vez: Deus não dá asa pra
cobra. E disse outra além dessa: olho grande não entra na China.
Emocionalmente esse meu amigo nunca esteve bem, tava sempre
estressado e irritado e fatalmente isso começou a se refletir nos negócios,
chegando ao ponto dele quase perder tudo, mas não perdeu. Nesse tempo, acabei
me afastando e fui seguir minha vida, mas sempre estava em contato com ele, e
ele sempre metido em negócios e mais negócios, fazendo grana trabalhando sem
fim. Por mais que eu tentasse alertar, ele ignorava e dizia que a vida era uma
só, que ia pro arrebento mesmo e que se foda.
Tá aí o caso, esse amigo morreu recentemente com menos de
cinquenta anos, infarto fulminante. No enterro dele, caixãozinho de madeira
simples, meia dúzia de gatos pingados, só eu e mais alguns, além da família é
claro. Sem glamour nenhum. Só levou pra debaixo da terra o terço enrolado no
braço e a roupa do corpo.
Fiquei com aquilo na cabeça uns dias, e por um momento
pensei em chutar o balde de novo, viver como eu vivia há uns anos atrás, já que
a morte está sempre à espreita mesmo não havia motivo algum pra que eu não
buscasse o que eu sempre busquei desde moleque: prazer imediato. Mas depois
repensei que na verdade, no fim do processo de uso abusivo de substâncias eu já
nem tinha prazer mais. Tava bebendo simplesmente pra não tremer e nem sentir
dor no corpo. Não tinha festa, não tinham amigos, não tinha mais nada. Acho que
nem texto tinha mais, quando tinha eu não conseguia escrever muito, e perder a
capacidade de fazer isso estava me fazendo muito mal. Então decidi que pra mim
não dava mais.
De qualquer forma me relembrou que os momentos bons passam
muito rápido, e que os ruins também passam. Esse pouco tempo que vou passar
aqui, é só um fragmento de algo muito mais grandioso do que eu. Eu sou apenas
um grão de areia num deserto, e a minha vida é completamente insignificante no
longo prazo. Se eu morrer hoje, um grupo de pessoas iria ao meu enterro, se eu
morrer daqui dois anos, já é outro grupo. As pessoas, assim como eu, estão
somente de passagem. Umas passam nas vidas das outras e poucas ficam, e o
significado que elas nos dão e que nós damos a elas, é praticamente nulo. Por
isso hoje eu tô bem desprendido das pessoas e das coisas, em vista de onde
estive e onde estou agora, eu já cheguei muito longe, mas muito longe mesmo.
Então o que tiver que acontecer, vai acontecer.
Hoje entrei numa comunidade do discord com algumas pessoas
que têm alguns interesses parecidos com os meus, e o meu desejo de “fazer
amizades e conhecer pessoas” seguiu nulo. Em menos de cinco minutos, observei
as interações e tudo ali pareceu sem propósito algum. Imediatamente abandonei a
comunidade. Sendo assim, sigo eventualmente trocando memes com dois amigos sem
perguntar como eles estão. O fato de eu saber o nome e sobrenome deles, já é
intimidade o bastante. Logo mais a nossa relação vai deixar de ser um ponto do
presente para ser um ponto do passado.
Que beleza!
Meu passado me fez e todo sofrimento passado me conduziu até
esse momento de agora, sem tirar nem pôr, tudo foi necessário para que eu fosse
a pessoa que sou hoje. E tudo aquilo que antes eu achava ser enorme, e
construía a imagem de um monstro, percebi que era pequenininho. Tão
pequenininho que eu consegui superar. Sejam com textos, com lágrimas,
exercícios, comida, cachaça, cocaína em excesso e eventuais cachimbadas de
crack. Não recomendo, mas foi o que fiz. E hoje a discussão que tive no trabalho
com meu sócio pareceu pequena demais para que eu desse alguma importância. A
esposa dele me olhou como se estivesse se sentindo mal, eu simplesmente falei
baixinho pra ela “Tudo isso vai ser passado um dia.” Acho que ela não entendeu
absolutamente nada. Nem era pra entender mesmo. Depois disso entrei no meu
carro, liguei a ignição e coloquei o disco 2112 do Rush pra tocar. Em menos de
dois minutos eu já estava me sentindo bem novamente e meu dia foi tão comum
como todos os outros 364 dias do ano. E é isso que tornou ele tão especial pra
mim.
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