A TARTARUGA E O PARA RAIOS - 10/2019
E geralmente nos dias tristes e/ou cansativos em que tudo se
manifesta do jeito contrário que deveria ser. Do contrário muitas vezes do que
vem sendo. Geralmente nesses dias você esquece dos seus pensamentos de antes. E
fica completamente tomado por uma fúria semelhante à irracionalidade.
O que dizer, já que basicamente, tudo foi dito?
Já bati no meu peito um dia dizendo que eu aguentava os
problemas nas minhas costas, tentando mostrar que aguentava, como também já
passei dias chorando abraçado numa garrafa de cachaça, e o que posso dizer é
que hoje sou calejado, apanho com absoluta certeza, mas consigo bater de volta,
e não importa em que velocidade ou intensidade eu bata, o importante é sempre
bater.
Mesmo que seja pouco. Ou praticamente nada. Eu tô lutando.
Tô lutando contra mim mesmo. Que na verdade sempre foi meu pior inimigo.
Num tempo muito distante existiu uma tartaruga que todos
zombavam pela demora pra chegar nos lugares. Haviam vários coelhos de várias
cores, laranja, lilás, verde e principalmente azuis (que eram os mais bonitos,
claro) e pulavam de maneira serelepe mostrando que tinham mais poder ou ainda,
mais capacidade pra lidar com distâncias.
Um belo dia, o rei da floresta (Leão), reuniu todos e disse:
- Escutem. Eu mando nessa merda. Tô cansado dessa porra de
picuinha ridícula entre a tartaruga e os coelhos. E por isso, resolvi organizar
uma competição. Quem conseguir vencer uma corrida daqui até a floresta vizinha,
vai ter direito de bater no peito e dizer "Eu sou foda."
Não havia dinheiro ali pra dar prêmios. Eram todos animais.
O grande dia chegou e a tartaruga partiu, de boa. O coelho
foi saltitante e correndo com toda a empolgação do mundo, colocando sua vida
ali. Só que eles não contavam com uma pequena surpresa: um ataque de gatos
selvagens, de várias cores também.
"CRIE GATOS!!!!" eles diziam, enfurecidos, e
pularam pra cima do coelho inicialmente (já que ele liderava com folga).
Picotaram ele todo. Numa piscina de sangue misturado à couro legítimo de
Pernalonga, tudo teve fim. Arranhões, mordidas e todo tipo de violência
gratuita.
Quando chegaram na tartaruga, fizeram a mesma coisa. Só que
ela se escondeu no casco. Ela tinha uma casca muito dura, o que basicamente
fudeu dentes e unhas dos gatos.
"CRIE GATOS, CRIE GATOS, CRIE GATOS!!!!" gritaram
até perder a força. Acabaram por desistir.
A tartaruga então foi, sem pressa alguma e ultrapassou a
linha de chegada. Havia um banquete com vinho e carne de javali lhe esperando.
Essa história realmente aconteceu, e tudo passou como se
fosse real demais numa viagem minha de LSD há uns quatro anos atrás, quando eu
basicamente mastigava essa merda todo fim de semana, e quase desenvolvi
esquizofrenia por ficar cutucando tanto meu sistema nervoso central.
Como pode o ser humano criar tanto, e ao mesmo tempo não
criar nada? Seres desprovidos do mínimo de empatia. Deus, como somos ridículos.
Uma vez ouvi uma entrevista do Ronaldo Fenômeno pra Globo,
pouco depois que a seleção tomou no cu na copa de 98, o cara tinha sei lá, uns
21 anos, e disse:
- Podem vir pra cima de mim, eu tenho as costas largas.
Querem um culpado? Sou eu.
Aquilo me marcou, eu tinha só uns 8 anos de idade e ali eu
entendi. Não é sobre saber bater. É sobre saber apanhar. Esse é o segredo. Se
você souber apanhar, o cara que tá batendo cansa de tanto bater e acaba
deixando pra lá. Parece simples. E realmente é.
Hoje eu sou um para raios. Recebi nas últimas vinte e quatro
horas, umas três ou cinco ligações de pessoas atoladas em problemas, algumas
delas chorando e pedindo respostas. Mal sabem elas que eu nem sei as perguntas.
Logo eu, que não choro tem uns bons anos.
Que pareço ter perdido qualquer sinal de humanidade. Logo
eu. O para raios.
E não há muito a dizer pra eles. Só digo que tudo vai ficar
bem, e, em vista da resposta mais genérica do mundo, eles reagem bem, como se
precisassem ouvir aquilo ou sei lá. Seria inclusive mais fácil se eles
gravassem isso no celular e ficassem dando repeat. Simples assim.
Eu sei que é escroto demais pensar dessa forma, mas é assim
que penso. E sempre pensei assim.
Eu sei que tem alguma coisa em mim que ainda respira, e os
processos funcionais do meu coração ainda estão sendo perceptíveis, então ele
está aqui, dentro de mim.
Talvez ouvindo Radiohead ou Vento no Litoral aconteça alguma
coisa. Ou talvez nada deva acontecer. E os dias devem seguir da mesma forma:
cuidando mais dos outros do que de mim. Por que cuidando dos outros, eu esqueço
de mim. E essa é a melhor parte disso tudo.
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