INEVITÁVEL - 01/2017
Um dia você achou estar cansado quando na verdade estava era
exausto de tudo e de todos e todas aquelas músicas reverberando sua mente. Você
farreou pra caralho até seu fígado ir pra merda e não satisfeito, fez ele ir
ainda mais pra merda, como se estivesse o desafiando pra uma briga de
digladiadores insanos em busca de uma morte indolor. Havia uma certa incerteza
de que todos que se diziam certos estavam errados. Batia na máquina
incessantemente escrevendo asneiras se achando o grande gênio da literatura atual,
escrevendo poeminhas de amor pra passar a rola em uma ou outra menininha.
Atualmente tem fugido delas (as mulheres), e não se sente mal com isso. Comeu
outra noutro dia, digo, noite, daquelas regadas à farra e cocaína, ela passou o
telefone, você anotou e nunca retornou de volta. Você a jogou no lixo assim
como um escritor machão, durão das antigas, daqueles que fumam cigarros atrás
de cigarros esperando pelo texto perfeito, se dividindo em subempregos,
ganhando um salário por mês e pensando em suicídio todos os dias da sua vida.
Agora mudando a narrativa do texto porque eu quero e
foda-se. Eu quero assim, portanto vai ser assim. Já que não posso mudar o
mundo, que ao menos eu possa mudar meu mundo usando minha única arma que tenho
à mão: meus textos.
Meu celular está no silencioso faz mais de uns meses, e tem
sido bom assim. Quer dizer, menos gente chata enchendo a porra do meu saco.
Coçando a barriga agora eu olho pra esse texto e penso que ele está uma grande
de uma merda. Mas coço a barriga novamente e torno a escrever, porque sem isso,
eu estava beirando a loucura e o suicídio. A psicóloga (do governo baby, não
tenho como pagar uma), me disse pra arrumar a velha máquina de bater desespero,
e bom, isso que fiz. Ela disse que iria me fazer bem, e imagino que tenha
feito. Não que tenha desistido da ideia do suicídio, mas a cada sentença que
vomito aqui, ele parece mais e mais cansativo e tedioso. Quero dizer, o que
seria do mundo sem mim? Já pensei nisso. O caminhão de lixo passaria do mesmo
jeito, meu emprego continuaria pagando o que paga com funcionários
insatisfeitos. Meus amigos continuariam se afundando em drogas e bebidas e
minha família, bom, minha família sobreviveria. Nenhum luto é eterno. Mas como
eu ia dizendo, acho que essa vagabunda mal paga do Estado me deu uma boa ideia.
O mundo precisa de loucos como eu, porque sem loucos como eu, o mundo é um
grande buraco com zumbis que fingem viver. Que bebem, fodem, casam, tem filhos,
fodem mais, fazem mais filhos. Os maridos insatisfeitos e as mulheres abrindo
as pernas por obrigação. O marido não sabendo comer um cu, mesmo comendo ele há
pelo menos 10 anos. O que escrevo não vai parar nos jornais, ou em blogs da
moda, pois eu não defendo esquerda, direita ou qualquer ideologia barata. Meu
alimento é o sofrimento que assisto todos os dias de falsas pessoas sorrindo
fingindo que não sofrem. Uma barata num boteco sujo tem mais história pra
contar do que pessoas assim, e talvez por isso que sempre que uma sobe na minha
mesa eu a trato como uma velha amiga.
Não existe essa de esperar acontecer, ou de torcer pra
acontecer, você tem o dever e a obrigação de fazer a sua vida acontecer, do
jeito que ela te faça feliz. Se por acaso você odeia seu emprego, você devia
sair dele. Se odeia seu casamento, saia dele. Odeia seus filhos, não converse
com eles. As pessoas que se fodam. Se afunde no seu egoísmo, viva seu mundo e
esqueça do resto. Uma hora ou outra essa bola vai pegar fogo, eu, você e todo o
resto estaremos mortos e esse texto vai ser passado. Passado de um futuro que é
preferível que nem exista.
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