OS EQUILÍBRIOS DE UM DESEQUILIBRADO – 11/2022

Deus na concepção de cada um, e também na minha, esteve presente durante o percurso da minha vida e eu talvez nunca tenha percebido.

Estava ocupado demais ficando doidão.

E como eu gostava de ficar doidão. Puta que pariu, como eu gostava.

Como naquele dia em que, caído no meio da rua Augusta, com as calças abertas e mostrando meu pau, bêbado feito gambá e sem força alguma pra levantar, e mesmo assim, nenhum carro passou por cima de mim.

Tomei sim alguns chutes nas costelas, mas na hora nem senti. Era um grupo de rockeiros cabeludos, e tinha uma moça de cabelo vermelho junto. Gritavam algum coisa mas eu não lembro.

Eu sei, eu sei que eu dizia que me amava pra caralho e que não precisava de ninguém. Mas a verdade é que eu tava mentindo.

E eu sabia que tava mentindo.

E hoje, sem garrafa e com a vida andando muito bem obrigado, se eu falar que não preciso de ninguém, estarei mentindo também.

Escuta aqui bebê, nenhum homem é uma ilha. Não somos auto suficientes a este ponto. No máximo conseguimos pagar as contas e rir umas quatro vezes no dia. Mas uma hora vamos ficar mal "sem motivo" e aí, o que nos espera é um vasto cardápio de porra nenhuma.

Carro do ano, farelo.

Remédio controlado, serve pra nada.

Vídeo game de última geração, não adianta.

A puta mais gostosa do puteiro mais cheiroso da cidade, farelo.

Nada disso aí significa alguma coisa. Quero dizer, a felicidade tem que vir de dentro pra fora, não de fora pra dentro.

Não quero ser intelectual não porra, tô só falando o que vivi e o que vivo. Sem punhetação, sem firula. Dito reto e direto sem dó.

E quando moleque, antes da cocaína, do crack, do lança, da garrafa, da maconha, das pílulas, das tentativas de suicidio, das overdoses, antes disso tudo, eu tava batendo em teclas escrevendo contos de 17 páginas em poucas horas. Nunca tive "bloqueio criativo."

E se você o tem, pode começar a considerar falta de talento.

Tô atrás dessas teclas há quase 20 anos e sempre que quis sentar e escrever, saiu alguma coisa. Bom ou lixo, saiu, e sempre vai sair.

Isso aí ainda preenche a minha vida sem depender dos outros. Pra todo o resto, volto a repetir: nenhum homem é uma ilha.

Ando na sombra e solto sorrisos amarelos, mãos nos bolsos que só tiro pra apertar mãos alheias quando se faz necessário para que eu continue vivo.

A vida real é assim.

Mas não condeno pessoal que fica na ilusão do Instagram e do TikTok, fazendo dancinha na frente de um telefone pra centenas de pessoas que eles mal conhecem (ou às vezes nem conhecem). É muito mais gostoso viver no fantástico mundo de Bob, rolando um feed desesperadamente atrás de dopamina.

Quanto a mim, tenho evitado esse tipo de coisa. Eu sou um desequilibrado. Eu sempre fui. Ou é oito, ou oitenta. Eu nunca me importei com limite. E desrespeitando meus limites cheguei ao meu desequilíbrio.

Mas tô tentando me equilibrar mais.

Exercícios na medida. Trabalho na medida. Namoro na medida. Comida na medida. Visitar os pais, só na medida. Amigos na medida. Estudo, seriado, jogo, tudo dentro de um certo limite.

Você aí pode estar pensando "Cara chato com uma vida chata" e eu te digo: sim, você acertou.

Mas um cara desequilibrado como eu PRECISA de limites. Eu não posso nem querer ser MUITO feliz. Eu tenho que ser feliz só o SUFICIENTE. E triste o suficiente. E é isso, galerinha do mal.

Enquanto nesse momento um garoto de 21 anos, milionário, está ocupado passando a rola numa garota de 20 boazuda, sem se preocupar em acordar cedo amanhã, 99% das pessoas do mundo, que são as fudidas, estão indo dormir pra suportar mais um dia de existência que deverá ser vivido amanhã.

Caminhando firme e forte a uma aposentadoria de fome e problemas de saúde sem ter o dinheiro pra pagar um bom plano, dependendo do SUS pra absolutamente tudo.

Sim, este é o lado realista, niilista, pessimista ou qualquer outro ista da minha literatura. Se a gente pode chamar esse texto de literatura, é claro. Eu prefiro chamar de "texto" e somente isso.

Apenas uma formação de letras, palavras e sentenças que não chegam em lugar nenhum e possivelmente serão esquecidos dentro de no máximo uma semana.

Mas eu não tô nem aí, papai.

Não tô nem aí pra esse farelo todo.

Só tô caminhando firme em direção ao abismo que todos vão chegar. Mais equilibrado do que antes. E mais desequilibrado do que a maioria das pessoas.

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