CHUTANDO PEDRINHAS E ESPERANDO O DIA SEGUINTE - 10/2019
A história que relato hoje é 100% real, e busco aqui não
fazer uma literatura como costumo fazer, mas me livrar de um sentimento de
culpa que carrego por várias coisas que fiz (e o que escreverei aqui é uma
delas). Não almejo mais escrever bem ou ter um bom material literário. Já houve
uma época em que minha principal preocupação era divertir o leitor, enquanto, é
claro, eu me livrava do meu sofrimento. Hoje tenho duas certezas: o leitor é
sempre um insaciável, e talvez nunca se divirta de fato e eu não vou me livrar
do meu sofrimento, possivelmente nunca. Então, sendo assim, convivo com minhas
dores e mágoas e relato através de crônicas exatamente o que sinto, sem
exageros ou diminuições.
Coloco o som alto mesmo sendo quase meia noite. Aposto que
ninguém dá a mínima.
Ninguém dá a mínima pra nada. Todos querem que tudo se foda.
Essa é a verdade.
Se verdades te machucam, recomendo parar por aqui. O que se
segue é um relato do sofrimento de um homem viciado em drogas.
Enfim.
O ano era 2013, eu estava trancado no meu quarto com duas
garrafas de vodka Natasha, que era a minha preferida. Coloquei pra tocar um
show do Frank Sinatra que tinha no YouTube (hoje quase todos os shows completos
dele saíram do ar, infelizmente. Malditos direitos autorais), e fiquei ali,
sentado no chão do quarto, bebendo, com as costas encostadas na cama e
assistindo ao show. Quando fazia isso, tudo parecia pacífico e muito menos
doloroso e miserável.
Por volta da uma hora da manhã, achei 20 reais numa gaveta
da minha cômoda. Eu havia começado a usar drogas a pouco tempo, mais
especificamente cocaína, e já com umas doses de vodka na mente, bateu uma
vontade da porra de dar uns tecos. Mas pensei bem e falei pra mim mesmo:
- Carlos, hoje não. Hoje não dá. Você não vai fazer isso
sozinho.
Não deu 10 minutos e eu pensei em mandar tudo pra casa do
caralho e ir lá. Abri a janela pra constatar se estava chovendo, devido ao
barulho constante de gotas no telhado. Realmente estava chovendo muito, e eu
repeti pra mim mesmo:
- Carlos, você não vai lá. Olha essa chuva. Você é mais
forte do que isso.
Lutei contra a vontade de ir, mas acabei indo. Bermuda,
chinelos e uma camiseta velha. Chuva forte. E lá, só um mano com um guarda-chuva
esperando o próximo trouxa, que era eu no caso.
Saquei a nota de 20 e dei na mão dele.
- Me dá dois pó.
- Caralho irmão, essa nota tá encharcada.
- Para com isso, ela tá boa. Vamo, me dá meu pó.
Ele me deu os dois pacotinhos de cocaína e eu voltei voando
pra casa. Era terça pra quarta, as ruas estavam vazias de madrugada. Somente
eu, um homem perdido na chuva.
Cheguei encharcado, sujo e envergonhado. Eu realmente tinha
perdido o controle. Ali eu percebi que as coisas tinham desmoronado. Me
enxuguei e, pela primeira vez em muito tempo, lágrimas verteram pelo meu rosto.
Eu era um lixo. Um inútil. Um fraco. Um cara que não sabia controlar suas
vontades e compulsões.
Um fraco.
De qualquer forma, cheirei aquela farinha toda sozinho, não
liguei pra ninguém e nem guardei pra depois. Fui tomando a vodka e dando tiros.
Nessa hora tocava Tool, o disco 10,000 Days, que até hoje, quando escuto,
lembro dessa cena como se fosse hoje.
Eram meus últimos 20 reais. Eu não sabia o que fazer a
partir dali.
Não há nada de se orgulhar dessa história. Ela tem alguns
anos, mas eu fico muito triste de pensar nela. Ela mostra exatamente o tipo de
ser humano que sou: covarde.
Por mais que hoje eu não esteja me afundando em vodka ou
farinha, continuo fudido. Quero dizer, as pessoas que estão a meu redor e me veem
dando risada e ouvindo Blind Melon, de "bem com a vida", sorrindo e
tentando fazer os outros sorrirem, pagando meus impostos e ajudando outras
pessoas, abraçando minha mãe pra ver se ela sai da depressão, acariciando o
gato e pegando ele no colo, arrastando chinelos até a feira pra comer pastel,
contando piadas imbecis, as pessoas me veem fazendo isso tudo, mas a maioria
não percebe que existe uma tristeza enorme dentro de mim, uma tristeza bem lá
no fundo, guardadinha, que mesmo com quase um ano de terapia e quase três de
sobriedade ainda não saiu. Continua lá.
Ando pelas ruas a passos leves e olhando pra baixo.
Esperando essa tristeza passar.
Ela está dentro do meu coração. E eu a escondo o máximo que
consigo. Não quero que percebam. Talvez nunca me viram chorar. Talvez nunca
vejam.
Nenhuma lágrima escorre há muito tempo. É só aquele
sentimento chato e constante.
Enfim.
Acho que todos estamos fudidos, e não é nenhuma competição
vendo qual de nós está MAIS fudido. Busco através dos meus relatos aliviar uma
dor que nunca vai acabar de fato. Quase não tenho mais tesão pra coisa, mal
escrevi nos últimos anos, não vejo mais motivos pra isso. Tenho quatro livros
cheios de palavras, frases e capítulos, lá já foi dito tudo que devia ser dito.
O que faço aqui é só relembrar do passado e me sentir mal comigo mesmo.
Alimentar a minha tristeza enquanto a deixo escondida para que ninguém veja. E
bom, é mais ou menos assim que sigo. Chutando pedrinhas e esperando o dia
seguinte.
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