CRISE DE IDENTIDADE - 01/2019
como se cada coisinha que eu fiz na minha vida fosse um
pequeno tijolo pra algo muito maior e muito melhor
como se eu estivesse destinado a algum dia ser isso que sou
hoje apesar dos trancos e barrancos
meu telefone toca e eu não atendo
ou digo que estou ocupado
como se eu fosse (agora) um cara importante
que é requisitado pra festinhas de aniversário dos filhinhos
pequenos dos meus melhores amigos que me conheceram há pouco mais de quatro
meses
e veem em mim alguém de uma generosidade enorme
um ser iluminado e com um coração bondoso e amável
disposto a fazer o que for pra ajudar o próximo
o rapaz do telefone que não pára de tocar nunca
e pra piorar a porra toda ainda é conselheiro amoroso dos
amigos
como se entendesse alguma coisa de mulher
rs
como se tivesse desbravado por completo esse maravilhoso
universo feminino
tão complexo e tão fascinante
além de ser o principal pilar da sua família toda,
financeira e emocionalmente
agora Carlos Reis é muito mais do que Carlos Reis imaginou
que seria um dia
Carlos Reis anda bem vestido, com tênis de marca e roupinhas
caras compradas na galeria do rock
e no Shopping Light
vai no mercado e compra as coisas sem olhar os preços
dá vinte pratas na mão de moradores de rua sabendo que eles
vão beber o dinheiro todo
e ele sabe disso porque já esteve no lugar dos caras
Carlos Reis sofre de um problema simples:
crise de identidade
Carlos Reis não sabe quem ele é, e nem o que se tornou
se olha no espelho pelas manhãs, olha nos olhos e vê em seu
reflexo um sujeito desconhecido e estranho
tenta entender esse cara mas não entende
isso tudo é novo demais pra ele
e esse cara não parece que vai embora tão cedo
por isso busca se habituar ao seu novo hospedeiro, muitas
vezes sem sucesso
Carlos Reis anda rindo sozinho sem motivo aparente
ou ficando extremamente sem graça diante de situações antes
corriqueiras
parece que ele ainda possui sentimentos, mas que foram
mascarados por tantos anos que agora ele não os reconhece
ou não sabe lidar com eles
há uns 10 anos atrás, Carlos Reis teve a ideia de pegar
todos os sentimentos que teve na sua infância e guardar numa caixa
ele trancou essa caixa tão bem que nunca a abriu
e enterrou ela em algum lugar muito muito profundo, sem a
intenção de mexer nela nunca mais
mas agora ele tá chegando num momento decisivo:
ele vai mexer na porra da caixa
e não sabe o que vai acontecer
talvez por isso ele tenha andado ansioso e um pouco agitado
com as coisas que estão acontecendo na sua vida
psicologicamente falando, deve ser normal
e se não for, que se foda
ninguém é completamente normal
somos todos uns fudidos
isso não é uma maldita competição
agora eu vou soltar uma das coisas mais bonitas que você vai
ler nas próximas semanas
e muitos vão duvidar que Carlos Reis disse isso
(ou podem achar que é esse cara estranho que Carlos Reis se
tornou quem disse)
e espero que se lembre disso quando estiver lendo as
desgraças habituais nas redes sociais que tu mexe todos os dias
lá vai
basicamente mais da metade dos meus amigos vivem repetindo
pra si mesmos que não vão conseguir
e sentem um desespero enorme quando tem um objetivo grande e
que parece impossível
ficam ansiosos e não sabem como lidar com toda essa explosão
de sentimentos
só que, no fim das contas, tudo acaba se encaixando
e se deu certo pros meus amigos, funciona pra qualquer um
portanto, fiquem tranquilos:
vocês vão se formar
vão arrumar bons empregos
vão encontrar o amor das suas vidas
vão viajar e curtir a vida
e poderão beijar a felicidade em alguns momentos
como todas as pessoas normais
e termino com o que eu sempre digo pra todo mundo:
vai dar tudo certo
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