FELIZ DIA DOS PAIS, BABACA! - 08/2016
1.
Everaldo trabalhava numa borracharia desde seus quatorze
anos de idade. Estava agora com quase quarenta e com sorte tinha completado o
ensino fundamental. Sabecomé, teve que trabalhar desde cedo pra ajudar em casa.
Tinha seis irmãos e sua mãe não sabia onde tava o pai de nenhum deles. Everaldo
não teve a oportunidade de estudar, e por isso ainda tava na mesma borracharia.
Burro de carga profissional. A grana não era muita, mas dava pra sustentar a
sua família. O ciclo das pessoas pobres se repete em noventa por cento dos
casos. E no caso dele, se repetira. Ele tinha quatro filhos, todos da mesma
mulher: dona Maria. Ela também não pôde estudar pois teve filhos muito cedo,
mas fazia faxinas vez ou outra. Moravam numa favela na zona sul da cidade de
São Paulo, onde davam de comer pros filhos com muita dificuldade. O filho mais
velho chamava Douglas e tava estudando muito pra com alguma sorte conseguir
entrar numa faculdade. Claro que ganhando uma bolsa, ou que fosse numa
faculdade pública. Ele sabia que as faculdades públicas são frequentadas por
playbas e patys que estudaram em colégios particulares fodidos, mas quando se
tem dezoito anos, sonhar não custa nada. Pra ele também não custava. Todos os
dias ele trabalhava com seu pai na borracharia e estudava à noite. Aos fins de
semana, enquanto seus amigos iam pras baladinhas da região, ele ficava
trancafiado em casa estudando num livro didático que tinha pelo menos uns dez
anos de idade. Era o que ganhava na escola pública. Era sua única opção.
Naquela sexta-feira início de agosto em São Paulo, Douglas
acabara de sair do trabalho junto com o pai. O pai foi pro boteco encher a
cara, ele foi pra casa tomar um banho e estudar. Mal pisa em casa e sua mãe já
avisa.
- Douglas, o Fabricio veio aqui te procurá.
- Pra que? Ele disse?
- Não disse, mas pediu pra cê mandá um zap pra ele.
- Valeu mãe.
Entrou no chuveiro e tomou um banho frio e curto. O chuveiro
queimara novamente, mas só seria consertado quando o pagamento caísse dia
quinze. A crise econômica fudera a sua mãe, uma vez que o pessoal com grana já
não tinha tanta grana ao ponto de contratar uma faxineira. Eles mesmos faziam
suas faxinas. Portanto ela ficava mais em casa cuidando dos menores. A grana
era curta e pra quem é pobre não resta muito a fazer além de esperar os ricos
se acertarem pra colocar o país nos eixos.
Saiu do banho e mandou o tal do zap pro Fabricio.
- Fala moleque, suave? – Douglas disse.
- Suave molecote, e você?
- Também.
- E aí, nossa cara hoje é fazer um pião, bora aí?
- Vou não parsa, vou estudar.
- Que mané estudar, issae é sem futuro. Bora pegar umas
vadia.
- Vou não man, logo mais as provas tão aí, sabecomé... Quero
dar uma vida decente aí pra minha mãe e meus irmãos. Dá pra ficar o resto da
vida trocando pneu do carro dos outros não.
- Porra cara, mas cê estuda todo fim de semana, vamo
desencanar desse, que tal? Escutei que a bandidagem vai tá reunida cum nóis,
vai ser tudo na faixa.
- Pior ainda cara. Oww, cê não lembra do Felipe não? Mês
passado o cara tava metido nisso e foi de bonde fióte. Agora pra ver ele só a
cada quinze dias vestido de calça bege.
- A liberdade vai cantar pro cara, cê vai ver. – Fabricio
otimista respondeu.
- Vai nada. Isso aí só dá cadeia e morte mano, estudar é o
que vira.
- Beleza, quer ser doutor, seja. Eu não acredito nisso, mas
cê que sabe.
- Valeu irmão. Fica na paz.
Douglas cresceu com Fabricio, e os dois sempre estiveram
metidos em enroscos, mas desde que começara a namorar uma moça linda chamada
Tayná, Douglas deu uma sossegada. Uma mulher pode mudar a cabeça de um homem,
isso é fato. Tayná queria ser professora de português e Douglas queria ser
engenheiro. Isso fazia uns dois anos, o namoro não deu certo. Hoje eles eram
amigos, mas como ela namorava outro cara, evitavam se ver. O sujeito era
ciumento e valentão. Douglas sabia que nenhum relacionamento é ruim, todos eles
constroem alguma coisa, e não existe um que tenha dado errado. Eles dão certo
enquanto duraram. Até mesmo os que foram dolorosos, eles te amadurecem. Ele
tinha levado a parte boa que Tayná construiu dentro dele, e não deixou isso
morrer. Douglas sabia que era muito difícil ele conseguir dar uma guinada na
sua vida ao ponto de entrar numa puta faculdade. Mas ele tinha separado aquele
ano pra tentar o máximo que pudesse, e isso que faria. Morrer é uma merda, mas
que ao menos morra atirando. Ele pensava assim.
Enquanto estudava no quarto, sua mãe bateu na porta e pediu
licença pra entrar. Ele obviamente a autorizou.
- Filho, e seu pai? Não veio com ocê?
- Não mãe, ele parou lá no seu Batista.
- Oxe, ele disse que ia vir direto pra cá.
- Pois é. Quero só saber de onde ele tira dinheiro pra parar
TODOS os dias lá.
- Eu também num sei. – Ela respondeu.
Eles ficaram um minuto em silêncio. O seu Batista era um
daqueles bares das antigas, possivelmente Everaldo fazia fiado e pagaria quando
tivesse dinheiro. Mas tinha outra possibilidade.
- Mãe, mas e se o pai tá mentindo sobre o quanto de grana
coloca em casa? Já pensou nisso?
- Não, nunca pensei.
- Devia pensar.
Ela saiu pensativa fechando a porta. Douglas voltara aos
estudos, obviamente revoltado com seu pai, uma vez que ele sempre foi assim, um
bêbado desgraçado de merda. Nunca tava sóbrio pra nada, nunca incentivou
Douglas a nada, sempre disse que ele era um lixo e que tava perdendo tempo
estudando. Vivia dizendo que o filho dele ia passar a vida toda na borracharia
trocando pneus, assim como ele havia passado.
Quando era fim de noite seu pai chegou extremamente bêbado
em casa e fez o escândalo habitual. Douglas deitou na cama e colocou a cabeça
debaixo do travesseiro pra abafar o som da gritaria dele. Derramou uma lágrima
no colchão sem lençol e esperou o velho apagar. Quando ele apagou, saiu do
quarto e foi com a sua mãe carregar o pai pro quarto deles. O cheiro de cachaça
reverberava por todos os cômodos e Everaldo estava completamente inconsciente.
Era basicamente isso que acontecia praticamente todos os dias naquela pequena
casa na favela.
2.
No sábado da semana seguinte, a favela estava em festa. Dia
seguinte era dia dos pais, e toda a molecada tava empinando pipa e jogando bola
com seus velhos. Menos Douglas e seus irmãos. Seus irmãos estavam na rua
brincando com os amiguinhos e os pais dos amiguinhos, Douglas estava estudando
dentro de casa. Sua mãe fora na casa de uma amiga pra prosear um pouco. Tava
tudo no seu devido lugar. E claro, Everaldo tava no bar, obviamente. Bebendo
sem pensar no futuro, como sempre. Douglas estava tentando estudar, perdido em
pensamentos, como se imaginasse “E se meu velho tem razão? E se isso der em
nada? E se eu for realmente um lixo? Será que ele tá certo?” e ele começou a
lembrar de tudo o que as pessoas falaram pra ele sobre desistir de seus sonhos
e de fazer aquilo que se quer fazer. Mas não se deixou abalar e continuou
focado durante o resto do dia.
A noite caiu, naturalmente.
Sua mãe chegou em casa feliz da vida por ter tido um tempo
só pra ela. Vai no quarto do filho mais velho.
- Ainda estudando, filho?
- Ainda.
- E seus irmão?
- Devem estar na rua.
- Devem?
- Estão, estão na rua.
- Tá bom.
O pai chegou pouco tempo depois, completamente bêbado e mais
agressivo do que o normal.
- Muié, fiquei sabendo que cê tem outro.
- Outro o que, tá loco?
- Outro macho! Tá me passando pra trás, sua vagabunda!?
- Oxe Everaldo, eu não tenho outro não, nem tenho tempo pra
isso!
Douglas ouvia tudo do seu quarto tentando estudar. Sem
sucesso. Não bastava seu pai não o incentivar nos seus sonhos, o velho tinha
que atrapalhar. E isso talvez fosse o que mais prejudicasse ele pra conseguir
entrar numa boa faculdade. Os estudos fazem falta, estudar numa escola pública
com certeza atrapalha, mas viver num lar (se é que podemos chamar assim) que
vive num caos, talvez seja até pior. De repente ele ouve um barulho de tapa.
Saiu do quarto e se deparou com a sua mãe caída no chão com a mão no rosto e o
pai mexendo no pulso, como se tentasse aliviar algum tipo de dor causada pelo
impacto. Ela chorava enquanto Everaldo olhava pro filho.
- Volta pro seu quarto, eu e sua mãe estamos conversando
aqui.
Douglas olhou em silêncio e não fez nada.
- VOLTA PRO QUARTO, TÔ MANDANDO, CARALHO!
Douglas voltou, deixando uma lágrima escorrer pelo rosto.
Ficou uns minutos deitado na cama ouvindo mais tapas, em meio a gritos da sua
mãe ameaçando chamar a polícia. Seu pai sempre bebeu, mas nunca tinha encostado
na sua mãe. Ao menos não que ele tivesse visto. Ao menos seus irmãos mais novos
não tinham visto. Aquilo era demais pra ele, ele precisava sair pra tomar um
ar, e foi isso que ele fez. Mas antes de sair, resolveu mandar mensagem pro
Fabricio.
- Fabricio, tô precisando sair um pouco, fazer um rolê.
- Bora, tá por onde?
- Tô em casa. Posso ir aí te encontrar?
- Então, eu tô de saída logo mais. Quer passar aqui e depois
a gente vai?
- Demorou. Tô saindo.
Vestiu uma roupa qualquer, passou pela sala ameaçando ir à
porta.
- Onde cê vai? – Everaldo perguntou.
- Vou ver meus irmãos.
- Não, fica aqui em casa. – Seu pai disse, segurando seu
braço.
- Me larga! – Douglas fez um movimento rápido se
desvencilhando e saiu correndo pela porta.
- SEU MOLEQUE! – Everaldo gritou.
3.
Douglas chegou na casa de Fabricio, eles se cumprimentaram e
foram pro quarto dele. Lá, Fabricio acendeu um baseado e ofereceu pra Douglas,
que recusou.
- Cara, é uma honra sua presença, mas não entendi nada.
- Tô tendo problema em casa. – Douglas disse.
- Ah é? Seu velho tá bêbado?
- Tá, mas hoje tá embaçado. Não sei o que faço.
- Cê tem que esfriar a cabeça. Ao menos esse problema eu não
tenho, meu velho morreu faz anos com dívida na biquera. Tu sabe.
- Sei sim. – Douglas respondeu. – Mas e aí, vamos sair?
- Só vou ali tomar um banho rápido e já vamo, mas pode ficar
de boa largado aí no meu quarto.
- Beleza.
Fabricio apagou o baseado, guardou no criado mudo e foi pro
banho e enquanto isso, Douglas ficou olhando o guarda roupa do amigo. Não, ele
não tava xeretando, mas quando os móveis são velhos, a maioria deles não tem
portas. “Belas camisetas”, ele falava sozinho enquanto passava uma a uma.
Enquanto olhava, se deparou com uma que tava dobradinha escondida num canto.
Pegou, desdobrou e achou um 38. Tava carregado. “Ótima forma de me vingar do
meu velho”, pensou. Pegou a arma e escondeu ela muito bem escondida na cintura.
Cinco minutos depois, Fabricio voltou.
- Bora?
- Bora.
Saíram e foram pro baile que tava rolando. Baile de rua
organizado pelos traficantes. É muito comum em favelas assim que os traficantes
organizem festas pros moradores, uma vez que o poder público não é muito
presente. E se alguém aparecer, bom, é só uma festa. A música tava alta, tinha
muita mulher e muita bebida a céu aberto, além de drogas. Fabricio mal chegou e
cumprimentou um parceiro que tava com cocaína. Montou uma linha em cima do
celular e aspirou.
- Coloca pra mim. – Douglas disse.
- Ahn!? – Fabricio reagiu espantado.
- Cê me ouviu, caralho. Coloca pra mim essa porra.
- Mano, tem certeza? Cê nunca foi disso.
- Claro que tenho, coloca logo.
Fabricio montou uma carreira de tamanho médio.
- Coloca mais. – Douglas disse.
Fabricio espantado colocou mais. Ficou uma carreira grande o
bastante pra quem nunca tinha usado nada do tipo. Douglas aspirou tudo de uma
vez e sentiu a sensação de poder na hora. Ficou claramente eufórico.
A noite tava rolando entre muita bebida e cocaína, e Douglas
foi se transformando. Aquele rapaz focado, estudioso, calmo e na dele, foi se
virando numa espécie de monstro, num super homem do mal, num sujeito que
respirava raiva e ódio. Existia ali um novo Douglas. Todos os traumas de
infância foram ressurgindo a cada linha aspirada e a cada dose de vodca com
energético virada.
- Fabricio, tô chegando.
- Mas já? – Fabricio reclamou.
- Já. Já deu meia noite, tenho que ir pra casa, minha mãe
vai ficar preocupada.
- Demorou parceiro, valeu.
Douglas saiu levando uma dose de vodca com energético num
copo plástico que beberia no meio do caminho até chegar na sua casa.
4.
Quando Douglas chegou em casa encontrou sua mãe com a cara
toda machucada, mas viva. Ela tava acordada vendo TV, como se nada tivesse
acontecido. Olhou pra ele, ele pra ela e ela percebeu que ele tava diferente.
- Cadê meus irmãos? – Ele perguntou.
- Tão dormindo. Meu filho, cê bebeu?
- Um pouco mãe. Um pouco.
Ele respondeu já indo pro quarto do seu pai, com a sua mãe
no encalço preocupada. Chegou lá o velho tava dormindo.
- Douglas, que que aconteceu filho? - Ela perguntou
preocupada.
Ele ignorou ela completamente.
- ACORDA CARALHO, ACORDA! – Ele gritava pro pai.
Everaldo acordou atordoado, reclamando, atônito.
Possivelmente de ressaca, possivelmente bêbado, não dá pra saber. Sem falar
nada, Douglas puxou a arma da cintura e engatilhou. Ele não mexia com essas
coisas, mas seus amigos sempre mexeram, o que te deu um preparo pra quando
fosse necessário usar uma. Apontou pro rosto do seu pai.
- Feliz dia dos pais, babaca!
E atirou. Sua mãe deu um grito. Ele, insatisfeito atirou
mais. Deu três no pulmão e dois no fígado. O velho tava morto, finalmente. E
esse foi o momento mais pacífico que Douglas tivera nos últimos dezoito anos.
Afinal, matar o passado é construir o futuro.
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