O PASSARINHO - 10/2016
1.
Eu tava realmente empenhado em ficar sem beber daquela vez.
Sem remédios, sem tratamentos de choque, só eu, minha vontade e minhas sessões
de terapia. A primeira semana havia sido terrível, os dois primeiros dias então
nem se fala. Eu resolvi que não ia beber mais durante a semana, tava disposto a
ajeitar a minha vida, resolver as minhas merdas. Eu tinha acabado de completar
26 anos, e queria me resolver comigo mesmo, não tinha interesse em mudar,
apenas em aprender a lidar comigo como eu sou, e eu sabia que isso era
possível. E por isso um tempo da bebida.
Aos finais de semana, comprava duas garrafas de cachaça,
começava a beber na sexta e não parava até domingo à noite. Segunda ficava
limpo, e claro que surgia uma leve abstinência, mas eu precisava aprender a
lidar com ela.
Pois bem, durante a semana eu ficava sóbrio no meu canto,
ouvindo meus discos e lendo minhas coisinhas, sem perturbar ninguém, e sem
derrubar uma gota de álcool goela abaixo. Procurava emprego sempre que possível
já que a minha reserva financeira estava chegando ao fim e eu precisava
resolver isso urgentemente. Um dos efeitos de não beber todos os dias é que me
tornei incrivelmente anti social. Odiava ter que responder mensagens,
telefonemas, não ia a eventos sociais, tudo o que eu queria era ficar sozinho com
meus discos. Não entendo como as pessoas acham que precisam de mais do que
isso.
Eu sou uma pessoa sozinha, e sempre vou ser, porque gosto
assim. Outro dia uma mulher pegou meu telefone com algum amigo meu, me mandou
mensagem, eu fui gentil com ela, mas uma hora ela começou a falar o tempo todo,
e eu não queria saber da vida dela, ela morava em outro Estado e eu nunca ia
comer. Eu desisti de ouvir as mulheres que eu não fosse comer. Machismo?
Entenda como quiser, mas se eu não queria nem conversar com alguns dos meus
amigos de infância, quanto mais com uma mulher que nem me conhece pessoalmente
e mora em outro Estado (ou seja, nunca iríamos nos conhecer), portanto, parei
de falar com ela. Eu não era grosso, apenas monossilábico. Até que ela
finalmente se cansou e nunca mais trocou uma palavra comigo. E muitos homens se
sentiriam mal com isso, mas eu não, eu tô pouco me fudendo pra ela, nunca me
apeguei, me apaixonei ou amei ela, eu era apenas um cara educado. Se ela
estiver morta eu não vou verter uma lágrima, e isso não é raiva, ou frieza, ou
apatia (talvez seja apatia), mas eu julgo apenas como realidade.
Inclusive pensei em fazer um Tinder uma vez e fiz. Conheci
umas moças, e elas eram todas iguais umas às outras. Nada tinham além de
beleza, e queriam ficar o dia todo conversando coisas sobre as quais eu não
tava interessado. E elas moravam na mesma cidade do que eu. Já imaginava o
roteiro: a gente ia trocar ideia por uns dias, eu ia chamar ela pra sair, na
metade da terceira cerveja eu ia beijar ela, a gente se beijaria um tempo, ela
viria em casa ou eu iria na casa dela, a gente iria transar por um tempo, até
que um belo dia, dentro de dois ou três meses nossa relação se tornaria
distante, e a gente se afastaria sem explicação aparente.
Uma coisa que aprendi nesses meus 26 anos de vida: as
pessoas vão embora. Elas sempre vão embora. Nunca conte com as pessoas, se quer
contar com alguém, conte com as pessoas da sua família. Seu pai, sua mãe, seus
irmãos, esses não te abandonam. Todos os outros vão embora. Tem só um sujeito
que mantenho contato constante nesses últimos dez anos, e mais dois nos últimos
sete. Todos os outros foram embora, e as mulheres nem se fala. Eu assumo que
muitas vezes sou eu que me afasto delas, mas elas simplesmente me cansam com
seu jeito complicado de ser. Eu tava tão focado em ficar careta que nem pensava
mais em mulher, tinha parado até de me masturbar, eu tinha perdido o meu
interesse sexual, e não tava nem aí pra isso.
Merda, ainda nem comecei o texto.
Bom, vamos começar.
2.
O único problema dessa sobriedade toda é que eu não
conseguia dormir. Dormia duas, três horas no máximo por noite. Não há problema,
o problema é no dia seguinte, em que você fica cansado a porra do dia todo, é
uma merda, você perde a vontade pra tudo. E eu não entendia porque não
conseguia dormir, até que descobri. Tinha uma porra de um passarinho em algum
lugar que ficava cantando das quatro da manhã (horário que eu queria ir dormir,
pois sou um cara da madrugada) até o meio dia. E era o mesmo canto repetitivo
de merda. Por mais insano que isso pareça, a raiva era tanta que eu imaginava
onde fosse o ninho dele pra pegar uma faca e o esfaquear. Eu esperava realmente
que ele estive cantando de dor, não de alegria. Esperava que a mulher dele
tivesse chutado ele e levado os filhos, e agora ele bebia descontroladamente
pra esquecer ela. Independente disso, eu não conseguia dormir, e era culpa do
maldito passarinho.
Um dia meu primo Ricardo apareceu em casa, ele conhecia bem
a região, já morou na mesma rua que eu por uns anos, mas agora tava em outro
lugar.
- Carlos, cê tá com uma cara terrível, parece que tá
dormindo mal.
- Eu tô é bem na merda, com certeza. Tem uma porra de um
passarinho que fica cantando o mesmo canto de merda sempre.
Ele imitou um canto e perguntou se era aquele. Eu respondi
que sim.
- Ahh, esse é o canto do passarinho do senhor Gilmar, que
mora embaixo do seu quarto. A varanda dele é embaixo do seu quarto, aliás.
- Não creio. Por isso. Essa porra tá enjaulada. E eu com
raiva dele. Coitado.
- Aham, deve estar bem na merda, Carlos.
- Melhor ainda, nem preciso matar ele. Só preciso libertar.
Isso vai me tornar um pouco mais bonito aos olhos de Deus, e talvez me salve do
Inferno ao qual estou destinado depois de tantos anos vivendo na maldade
hahaha.
- Hahahaha. – Ricardo prosseguiu. – Mas como cê vai libertar
um passarinho? Vai invadir a casa do cara? Isso aí pode até dar cadeia.
- Não. Eu tenho uma ideia melhor, mas preciso da sua ajuda
nisso.
- Não me envolve nos seus trambiques, Carlos. Eu já tô
atolado em trambique e tenho tentado sair dos meus a muito custo. – Ricardo
disse, já recuando.
- Relaxa, se der merda, eu que tomo no cu. – Respondi
apontando o dedo polegar contra mim.
- Ok, qual é o plano?
- É o seguinte: três vezes na semana ele sai de casa e deixa
o portão aberto, porque só vai jogar o lixo numa lixeira grande que tem perto
de onde mora. Tem uma caminhadinha até essa lixeira, se ele for e voltar dá
menos de um minuto, e por isso ele nem tranca o portão.
- Beleza, que que tem a ver?
- Calma aí caralho, deixa eu terminar. Na hora em que ele
estiver na lixeira, você vai estar “passando na rua” e vai ver ele. Então cê
enrola ele, com alguma coisa do tipo: “E aí seu Gilmar, quanto tempo que não
nos vemos, como vão as coisas, etc”. Enquanto cê enrola eu entro, abro a
gaiola, pego o pássaro e jogo ele pro alto, ele com certeza vai voar.
- E se ele tiver as asas cortadas?
- Puta merda, não tinha pensado nisso. – Respondi coçando o
queixo em sinal de preocupação. – Bom, é um risco que vamos correr, foda-se. Eu
preciso me livrar daquele pássaro, falo sério demais quanto a isso.
- Ok. Hoje é terça, o lixeiro passa amanhã. Vamos executar o
plano amanhã então?
- Vamos. Ele costuma sair entre cinco e cinco e meia da
tarde, esteja posicionado umas quatro e quarenta e cinco, que também estarei.
- Beleza então. Vou embora pra resolver meus outros
trambiques, mas amanhã estarei aqui pra resolver o seu.
- Ok mano, valeu.
Nos abraçamos e ele foi embora. Naquela noite o passarinho
cantou ainda mais alto, ele parecia sentir que seria libertado da gaiola,
finalmente. Definitivamente estava cantando de alegria, o Universo me dizia
isso. Nunca entendi porque as pessoas criam pássaros, eles são seres pra
ficarem livres, não podem ser aprisionados. Eu sinto uma necessidade doentia de
controle das pessoas que fazem isso, e diria até desnecessária.
Não dormi direito, mas tava feliz que aquela noite seria a
última, e já na próxima eu dormiria como um bebê.
3.
O dia D chegou. Ficamos posicionados. Fiquei no portão de
casa, como se não quisesse nada, mas já o deixei entreaberto. Seu Gilmar logo
mais passaria ali em frente, essa seria minha deixa. Ricardo ficou escondido
atrás de uma muretinha, e ia surgir “coincidentemente” quando seu Gilmar
estivesse na lixeira jogando o lixo. Ficamos esperando pouco tempo. Por volta
das cinco e cinco da tarde, vi ele saindo, me escondi e deixei ele passar.
Assim que ele passou, sai como se não quisesse nada. Não corri, fui apenas
caminhando em direção a casa dele (que era embaixo da minha, era só dar uma
voltinha curta). Explicando: a minha casa fica do lado de uma viela, essa viela
é descida. Ele mora nessa viela. Nem vi se o Ricardo distraiu o seu Gilmar,
entrei na varanda, abri a gaiola e tentei pegar o passarinho. Ele me bicou a
primeira vez, eu só gritei “AI!” e tentei de novo, dessa vez o ofendendo “Vem
aqui seu filho da puta, não quer ficar livre não, seu idiota?” e nisso consegui
pegar ele. Ele começou a gritar. Com ele nas mãos, fechei a gaiola, sai da
varanda e joguei ele pro alto.
Ele voou, voou pra bem longe, o filho da puta voou de uma
maneira linda, tão linda quanto uma paisagem num quadro. Eu finalmente estava
livre dele. E ele estava livre da gaiola, então acho que nós dois saímos
ganhando. Foi um momento de felicidade tamanha, e inexplicável. Voltei, e
quando já estava na minha rua, vi Ricardo e seu Gilmar no maior papo. Ricardo
me viu, esperou que eu entrasse em casa e depois se despediu. Eu nunca falei
com seu Gilmar, não falo com ele até hoje, às vezes vejo ele quando saio pra ir
no mercado pois passo pela viela onde ele mora.
Não sei o que ele achou que aconteceu, e isso talvez seja
errado da minha parte, talvez ele seja um bom homem e amasse aquele passarinho,
eu sei, mas acredito fielmente que a liberdade do pássaro vem antes disso. Não
venham cagar regra pra cima de mim, pois sabemos que é isso.
E naquela noite eu dormi muito bem. Já quanto ao pássaro, eu
espero que ele esteja muito feliz, em algum parque, cantando bem alto e
enchendo o saco de outro.
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